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Crítica | A Colônia, de Ezekiel Boone

por Leonardo Campos
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Quando o tema é apocalipse, monstros gigantescos e zumbis comedores de carne humana são os antagonistas prediletos dos realizadores de narrativas deste segmento. Em A Colônia, de Ezekiel Boone, os habitantes do planeta terra são ameaçados pelo final dos tempos com tenebrosas, famintas e perigosas aranhas. Tudo começa com uma escavação que permite a libertação das monstras carnívoras que espalham medo, horror e pavor em cada canto do planeta, neste romance frenético, mas acometido pelo tom dispersivo e personagens superficiais como um pires. Boone, pseudônimo para o escritor Alexi Zentner, tem no romance a sua publicação de estreia, um autor que começou a carreira na produção de contos em concursos universitários e depois atravessou o limiar para narrativas mais amplas, sendo este livro o primeiro de uma trilogia “aracnídea”. Em suas 272 páginas, editadas pela Suma de Letras e lançada em 2016 no Brasil, acompanhamos um time de personagens arquetípicos na luta contra as aranhas que se espalham como um rizoma.

Os Estados Unidos é o centro de tudo na ação do romance. Convenhamos, se o escritor é de lá, nada mais justo para ele, não é mesmo? O problema é a velha narrativa que centraliza os estadunidenses e estereotipa qualquer outro lugar, principalmente quando o assunto é a origem dos demônios que chegam para devastar o seu imaculado território bélico. De onde vem o horror? Da China! E de onde vem outra face do horror? Do Peru. O mal sempre se origina da cultura do “outro”, dos invasores da nação que precisa se defender e manter a paz mundial eliminando as aranhas que já adianto, não darão descanso até o desfecho, haja vista os capítulos posteriores da trilogia, A Expansão e Zero Day. Aparentemente interessado em literatura policial, Ezekiel Boone parece ter tomado de empréstimo alguns padrões deste tipo de escrita e adicionado diálogos de filmes de ação para tornar o seu romance emocionante, mas não funcionou. O livro não é o que chamamos de ruim, mas também não é bom o suficiente. Falta muita coisa pra ser satisfatória.

Na história, acompanhamos cada personagem a dar o seu ponto de vista para a situação apocalíptica. Na China, a ameaça foi enfrentada por uma firme postura nuclear. Em Mineápolis, um agente faz a investigação e descobre rumos desesperadores, tal como na Índia, local onde estranhos padrões sísmicos abalam a vida da população e preocupam pesquisadores. No Peru, uma enorme “massa” aracnídea devora um turista americano de maneira bizarra e aterrorizante, dentre outras localidades que ganham algum destaque, mas com menor protagonista que os pontos mencionados nesta narrativa sobre aranhas aniquiladoras de seres humanos, criaturas que nos lançam em suas teias que não envolventes. Como aponta o autor, “as aranhas são eremitas, seres antissociais e agressivos com outras aranhas”, criaturas que “gostam de ficar sozinhas”, mas “nem toda aranha é assim”. Em A Colônia, elas trabalham em equipe, por sinal, com excelência.

Com quase 300 páginas, A Colônia carece de mais ataques de aranhas. Se não fosse possível, haja vista o interesse do autor é evitar excesso de emoções atávicas dos leitores que sofrem de aracnofobia, diminuíssem ao menos o volume imenso de diálogos desnecessários e capítulos que sinceramente, não acrescentam nada ao enredo sobre o ataque de aranhas que começou na China, país que já experimentou nas criaturinhas uma potente bomba atômica, e se alastrou por todos os continentes, como uma praga viral, leitura que fica mais interessante agora que estamos atravessando as novas etapas da pandemia da covid-19, marco de 2020 em todo o planeta. Um dos pontos interessantes é a presença feminina, na figura de uma mulher presidente, outra cientista e a líder um pelotão. Elas até ganham algum destaque na trama, mas não conseguem se sobrepor e ganhar nosso interesse por falta de bons personagens secundários para lidar.

Com tradução assinada por Leonardo Alves, A Colônia possui uma linguagem simples, sempre com palavrões emitidos por personagens desbocados e populares, tal como pessoas reais que encontramos em nosso cotidiano. Nada de essencialismo ou discurso limpinho. É um livro onde pessoas casadas se relacionam sexualmente em seus respectivos ambientes de trabalho com suas amantes. A presidente dos Estados Unidos flerta com as necessidades de erradicação das aranhas, mas também não deixa de compartilhar intimidades com seu assessor, tal como a especialista em aracnídeos, mulher que é apresentada como profissional exímia, mas humana ao desejar coisas mundanas como qualquer outra pessoa, sem a construção de tipos encaixotados em diálogos robóticos. Ainda assim, isso não significa que o romance não careça de um desenvolvimento melhor de suas figuras ficcionais, em excesso, o que não permite identificação.

A Colônia (The Hatching, Estados Unidos, 2016)
Autor: Ezekiel Boone
Tradução: Leonardo Alves
Editora no Brasil: Suma de Letras
Páginas: 212

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