Crítica | A Conversação

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Francis Ford Coppola tem uma filmografia invejável, e mesmo que atrocidades como Jack e o esquecível Peggy Sue, Seu Passado a Espera deixem uma marca feia no currículo, todos vão prestar atenção apenas em seu retrato da guerra em Apocalypse Now e aquela sua trilogia, uma tal de O Poderoso Chefão. Mas entre os dois primeiros volumes da aclamada trilogia, Coppola lançou A Conversação, um filme pequeno em escala, mas que acaba sendo um dos seus melhores trabalhos atrás das câmeras, infelizmente ofuscado por conta da “família”. Harry Caul (Gene Hackman) é uma referência na área de vigilância. Como especialista em escutas, consegue qualquer informação, se necessário, da maneira mais mirabolante possível. Mas com um trabalho desses, vidas sempre estão em risco, e depois de espionar um casal que pode estar marcado para morrer, Harry faz de tudo para tentar salvá-los, usando suas habilidades.

A Conversação tem um protagonista ambíguo. Harry é reservado e solitário em todas as suas relações, sejam amorosas ou de trabalho, só está confortável em casa, praticando saxofone enquanto escuta seus discos de jazz. Não joga conversa fora, nem mesmo menciona sua vida pessoal, por conta da natureza de seu trabalho. Todavia, por ser um católico devoto, confessa seus pecados, o maior deles sendo a morte de uma pessoa por sua causa. Isso o deixa mais motivado em ajudar o casal que está vigiando, e por não poder contatar os alvos, sente-se cada vez mais desesperado, sem sossego mesmo em seus sonhos, onde tenta alertá-los em vão: “Eu não tenho medo da morte, tenho medo de homicídios”.

Além de Hackman, o filme traz um elenco com nomes que podem ser pouco conhecidos, mas seus rostos estiveram em evidência em um filme ou outro da década, como John Cazale e Allen Garfield, mas sobra tempo para uma cena ou duas com Harrison Ford, que na época ainda não pilotava a Millennium Falcon, portava um chicote ou caçava replicantes. Quando Harry e seus amigos estão reunidos, podemos nos sentir em um filme de assalto, com todas as maquetes e elaboração de planos absurdos. Stan (Cazale) trabalha com Harry e não está feliz com a obsessão e comportamento antissocial de seu parceiro, já Bernie (Garfield) é competitivo e intimidador, não se importa com a situação, apenas em ganhar e se gabar das coisas que consegue fazer com seus dispositivos inovadores. A atuação de Allen é uma das melhores do filme, com seu sorriso malicioso e diálogos rápidos, é o tipo de coadjuvante para quem você daria mais tempo de tela, se pudesse (eu sei que eu daria).

A paranóia toma conta do personagem e do filme, que tem uma direção mais lenta de um Coppola mais cauteloso. Começamos com uma teleobjetiva do alto de uma praça, pessoas caminhando, música e até um mímico tentando ganhar um trocado. Enquanto a câmera se aproxima do local, ouvimos o ruído dos equipamentos e somos apresentados a Harry e Stan no meio da vigia. A Conversação também tem uma montagem inteligente, que tenta constantemente nos confundir na forma que revela suas informações, mas nunca deixa de fazer sentido.  É como ter um quebra-cabeça com todas as peças dispostas, mas sem ter por onde começar. Ouvimos a fita, rebobinamos, alteramos as faixas e descobrimos algo novo.

A composição das cenas comunica muita coisa, como o galpão onde Harry trabalha, ocupando apenas uma das paredes com seu equipamento. Vazio e espaçoso, não fica claro se é tudo apenas questão de acústica ou um bom lugar pra fazer as reuniões com seus companheiros de trabalho. Em outra cena, Harry aproveita o lugar para desviar de perguntas que não quer ou não sabe como responder, utilizando um vidro fosco para separá-lo da conversa. Aí entra outra característica importante de Harry: ele é referência para todos, mas não é o melhor no que faz. Ele tem seus tropeços e nem sempre é cauteloso como sua profissão requer. Esse tipo de ironia narrativa entre o texto e o visual é uma das maiores qualidades do filme, o que o transforma em um estudo de personagem diferente.

É claro, com uma premissa que fala sobre a importância de som, fica clara a necessidade por um trabalho competente desse departamento na produção. Desde o som de uma embalagem sendo aberta até um biscoito quebrando na boca de alguém, a mixagem de som é precisa e cada zumbido ou clique de botão deve ser ouvido no meio do silêncio das cenas cheias de tensão. Já a trilha sonora é acompanhada, em sua maior parte, de um piano melancólico, assombrando a solidão do protagonista, e a música parece chegar cada vez mais perto, mais alta e aterrorizante com o desenrolar da trama.

A Conversação é um dos filmes mais íntimos de Coppola, isso de acordo com o próprio, e pode passar despercebido na sua filmografia para alguns, mas é uma pérola que merece tanta atenção e aclamação quanto suas obras lançadas no auge. Enigmática, rende horas de debate sobre paranóia, alienação e confiança, com ótimo elenco e uma conclusão que vai te deixar pensando por alguns minutos antes de voltar para sua programação normal.

A Conversação (The Conversation) – EUA, 1974
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola
Elenco: Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield, Frederick Forrest, Michael Higgins, Elizabeth MacRae, Teri Garr, Harrison Ford
Duração: 113 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie