Crítica | A Cor do Dinheiro

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Em 1986, vinte e cinco anos após o lançamento de Desafio à Corrupção, em uma péssima tradução do título original The Hustler, Paul Newman voltou a encarnar seu Eddie Felson neste A Cor do Dinheiro. O outrora jogador de sinuca e golpista se encontra, nesta continuação dirigida por Martin Scorsese, afastado das mesas de bilhar, ganhando dinheiro através da venda de bebidas ao invés dos usuais golpes envolvendo encenações e artimanhas com o jogo. Mas não que Eddie não tenha mais contato com o esporte pelo qual fez seu nome: na realidade, ele segue habitando bares onde a jogatina rola solta e apostando em jogadores amadores. Porém, sua rotina é afetada quando se atenta ao jovem Vincent (Tom Cruise), habilidoso e convencido jogador que, com o apoio de sua namorada Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio), decide ser treinado por Eddie para ganhar dinheiro através dos artifícios que esse último já se encontra familiarizado.

Foi apenas em sua oitava indicação ao Oscar que Paul Newman finalmente levou a cobiçada estatueta para casa, com sua interpretação do experiente jogador “Fast” Eddie neste A Cor do Dinheiro. Trata-se de uma composição precisa, onde o ator incorpora seu personagem de maneira contida porém obstinada, permitindo que a plateia jamais desconfie de suas palavras, mesmo que, por vezes, estas estejam envoltas na lábia de Eddie – a cena no restaurante na primeira vez que o trio principal se encontra para conversar ilustra muito bem isso. Com certo cansaço no olhar, Newman oscila entre as facetas impaciente e dissimulada de seu personagem, essa última muito bem mascarada pelo ator, garantido que suas artimanhas sejam críveis tanto para o espectador quanto para os próprios personagens.

E a impaciência que citei no parágrafo anterior é uma consequência óbvia da maneira distinta com que Eddie e Vincent enxergam o jogo. Se o experiente jogador o vê unicamente como uma oportunidade de ganhar dinheiro, o novato interpretado por Tom Cruise está ali objetivando o próprio prazer e diversão. E isso cria um conflito eficiente, já que Vincent tem sua habilidade equiparada apenas com seu ego e sua imaturidade, enquanto Eddie busca encarar com a maior seriedade qualquer possibilidade de faturar uns trocados. Assim, é com um riso fácil e um cinismo vibrante que Cruise surge em tela, trazendo ao seu personagem leveza e despretensão que funcionam, além de convencer muito bem como o prodígio dos jogos.

Já Mary Elizabeth Mastrantonio chega a roubar a cena em certos momentos com Carmen, se revelando enigmática e controladora, além de ter muito mais aspiração e interesse nas artimanhas do jogo do que o próprio personagem de Cruise. E é justamente graças a sua esperteza associada à de Eddie que A Cor do Dinheiro nos apresenta momentos realmente inspirados quanto à manipulação que ambos fazem no ingênuo Vincent, sendo a sequência em que eles encenam ser um casal perante os olhos do jovem jogador o ápice dessa dinâmica entre o trio.

Tendo estabelecido os principais elementos da história e de seus personagens, o roteiro de Richard Price a partir do livro de Walter Tevis desanda depois da segunda metade da projeção. O arco dramático do personagem de Newman é concluído de forma aceitável, porém não pelo melhor caminho possível, caindo nos clichês dos filmes de mestre e aprendiz. O roteirista desperdiça os grandes trunfos do longa até então: o aprendizado de Vincent parece não ter sido finalizado de maneira satisfatória, minorando sua própria relevância dramática; a personagem Carmen e sua interessante personalidade é totalmente esquecida; e a dinâmica eficaz do trio deixa de existir. Ademais, a maneira com que o filme se encerra seria uma escolha elegante caso a narrativa tivesse enveredado por caminhos mais interessantes, mas acaba deixando um gosto de quero mais.

Como de hábito, o cineasta Martin Scorsese transforma o material que tem em mãos em algo autoral. Assim, em A Cor do Dinheiro, seus típicos travellings, câmeras lentas e zooms em direção ao rosto dos personagens aparecem em diversos momentos. São movimentos de câmera que normalmente chamam a atenção para o movimento em si e para aquilo que está sendo filmado; porém, aqui, tratam-se de assinaturas visuais que pouco funcionam para tais funções, conseguindo apenas agregar na estética do filme – com exceção das cenas que giram em torno das mesas de sinuca, que são exibidas tanto na mais pura estabilidade quanto na forma mais ágil e frenética possível.

Mesmo sem a energia de outras cenas já vistas pelas lentes de Scorsese ao longo de sua carreira, tais sequencias merecem atenção pelo nível de sofisticação, bem como pelas inúmeras variações de ângulos e movimentos de câmera que o diretor faz. Nesse sentido, destaco a breve cena da primeira tacada de Newman, em um violento zoom que evoca o êxtase do personagem naquele instante. Já o uso de cores e sombras pelo cineasta é eficiente, porém se mantém uniforme em toda a projeção, sendo resumido a luzes que iluminam apenas as mesas de bilhar, transformando o restante daqueles ambientes em locais esfumaçados e mal iluminados.

Visto hoje, A Cor do Dinheiro nos permite o interpretar como o encontro entre o antigo e o novo, o clássico e o moderno, na divisão de tela entre Newman e Cruise, dois ícones de seus tempos, em maior ou em menor grau. Um filme menor de Martin Scorsese que, apesar das ótimas interpretações dos personagens principais, acaba sendo mais lembrado por colocar os dois atores lado a lado, ou, mais ainda, por ser o trabalho que tardiamente trouxe o mais do que merecido Oscar para Paul Newman.

A Cor do Dinheiro (The Color of Money, EUA, 1986)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Richard Price (baseado no livro de Walter Tevis)
Elenco: Paul Newman, Tom Cruise, Mary Elizabeth Mastrantonio, Helen Shaver, John Turturro, Bill Cobbs, Keith McCready, Forest Whitaker, Bruce A. Young
Duração: 119 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.