Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | A Cor Que Caiu do Espaço (2019)

Crítica | A Cor Que Caiu do Espaço (2019)

por Iann Jeliel
2491 views (a partir de agosto de 2020)

Existe uma dificuldade de fazer adaptações de contos de H.P Lovecraft para o audiovisual pela filosofia do escritor está muito entrelaçada com o poderio imaginário da literatura. Suas criações possuem normalmente, visuais abertos a uma deformidade criada pela mente de quem lê suas descrições, ou seja, a graça do terror de seus contos está em como criamos a imagem de seus monstros em nossa mente, algo que no cinema é impossível, já que é preciso estabelecer um visual uniforme para reproduzir ao longo da contagem da história de um modo identificável. Por isso, os melhores filmes de Lovecraft são aqueles com inspirações em suas obras (como os filmes de John Carpenter ou David Cronenberg) e não adaptações diretas, como o próprio A Cor Que Caiu do Espaço, que já possui outras três versões no cinema, das quais, somente a primeira, intitulada Morte Para um Monstro, funciona, justamente por ser mais distante do material original, bebendo de fontes como Hitchcock que levaram a um filme mais autoral.

Essa versão de 2019, protagonizada por Nicolas Cage, tinha bastante potencial de originalidade, visto que, se contextualiza num cenário favorável as duas vertentes de terror dominantes de mercado. No caso, o horror mais clássico e explicitas da Blumhouse, e a atmosfera mais psicológica e social da A24. Havia potencial narrativo para ir em ambas com a mesma força, explorando as possibilidades psicodélicas da ameaça da cor do espaço e colocando na dúvida se realmente aquilo está ou não acontecendo com os personagens. O filme começa bem nesse sentido, instigante, misterioso, seguindo a base do conto, mas tomando essa atmosfera voltada ao sugestivo. O uso de efeitos especiais mais carregados tenta colocar aquela dúvida no espectador, se aquela forma alienígena realmente vem influenciando ou se são alucinações que refletem dramas dos personagens, de alguma forma deformados.

O desenvolvimento precoce é bem-preparado, mas não ganha a chance de uma nova camada, pois em algum momento da metade do filme a direção perde o timing do processo de alimentação à loucura, acelera os processos, e os exageros se tornam gratuita e aleatoriamente exagerados. Infelizmente, o projeto a partir daí se perde na liberdade criativa e não consegue mesclar os diferentes polos identitários numa unidade coesa de horror. Vira uma bagunça, que se fosse dentro de um terreno assumidamente trash, não teria problema, mas o filme prometeu uma construção mais séria inicialmente e tenta fazê-la eficiente no desespero dos personagens na situação, mas as fragilidades não tinham chegado no ponto convincente de virada ainda, então ficamos sem nos importar direito com as violências causadas a eles. Toda a dinâmica familiar acaba se tornando genérica e inoportuna, reduzida as esteriotipações mal desenvolvidas para a proposta específica, uma falha semelhante as outras versões ruins de adaptações do conto: A Maldição: Raízes do Terror e Die Farbe (2010)

Contudo, mesmo se quiséssemos encarar essa versão desde o início na forma mais direta com o horror, não daria para elogiar, já que, apesar de adotar diversos planos abertos na direção, o cineasta Richard Stanley nem mostra direito as desfigurações das criaturas. Praticamente estando com medo de assumir esse lugar de body horror, a fotografia escurece demasiadamente nas cenas chave, a ponto de esconder ainda mais o “grotesco”. O diretor tem medo até de deixar Nicolas Cage se libertar, e prepara cenas específicas apenas para que ele grite como um louco, em vez de deixar essa gritaria compor o quadro todo da narrativa. Fora que ele extrair nem dele, nem de ninguém do elenco, o mínimo de uma dramaturgia bem encenada que compensem de alguma forma a falta de desenvolvimento dos personagens em uma conexão mais direta por simpatia visual com seus estereótipos. Provavelmente, os anos sem fazer filme fizeram uma diferença.

Em suma, A Cor Que Caiu do Espaço dá largada com uma proposta que vira outra coisa caída do espaço. Não consegue ser originalmente marcante, tampouco cobre uma boa adaptação do material original, por falhas próprias e por outras que ele não tinha tanta culpa, como eu falei, a graça de Lovecraft é imaginar, nesse caso, como seria a influência e formatos da cor nos personagens e aqui não dava para fazer isso, mas ainda assim, dava pra fazer algo melhor que isso aí.

A Cor Que Caiu do Espaço (Color Out of Space | EUA – Malásia – Portugal, 2019)
Direção: Richard Stanley
Roteiro:
Richard Stanley, Scarlett Amaris (Baseado em livro homônimo de H. P. Lovecraft)
Elenco: Nicolas Cage, Joely Richardson, Madeleine Arthur, Elliot Knight, Tommy Chong, Brendan Meyer, Julian Hilliard, Josh C. Waller, Q’orianka Kilcher, Melissa Nearman, Amanda Booth, Keith Harle
Duração: 111 minutos

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16 comentários

FabioRT 17 de março de 2021 - 13:34

Bom filme

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Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 15:05

Que bom que gostou!

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Luiz Lima 16 de março de 2021 - 00:11

Não dei conta nem de terminar de assistir o filme, o que foi uma pena, já que as expectativas estavam muito altas depois de ver que havia até uma recepção positiva. Uma das coisas que mais me desanimaram foi que pegaram uma história ótima pra adaptar e fizeram umas coisas que não convenceram. Nos primeiros minutos eu já soltei um “puts” quando vi o rumo do filme.

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Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 15:05

Boa descrição. Realmente quase não tive saco de acabar também. Tudo muito sem rumo mesmo.

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Rafael Lima 16 de março de 2021 - 00:11

Excelente resenha, com pontos muito bem defendidos, como sempre Iann, mas…. Eu não poderia discordar mais. kkkkk

Eu adorei o filme, e se tornou uma das minhas adaptações favoritas do Lovecraft (não que a concorrência seja muito dura, mas ok). Acho que conseguiu transmitir a atmosfera de loucura e absurdo presente no conto, ao mesmo tempo em que resolveu muito bem as barreiras que sempre se colocam em adaptações audiovisuais das obras desse autor. Acho que o filme mantém uma aura de filme B e Body horror bem interessante, ao mesmo tempo em que consegue dar algum peso ao drama dos personagens. Me lembrou até as adaptações de Lovecraft comandadas pelo Stuart Gordon (mas sem o mesmo tom irónico).

Enfim, não consegui identificar essa falta de coesão de propostas que você sentiu.

E o Dooley já está trabalhando em uma próxima adaptação do Lovecraft, desta vez uma nova versão de “O Horror de Dunwich”. Eu já estou bem interessado, mas acho que você nem tanto. kkkkk

Grande abraço!

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Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 15:08

Opa, muitíssimo obrigado pelos elogios meu querido!

Eu acho que as melhores adaptações justamente do Stuart Gordon. Adoro Re-animator e Do Além. São filmes que conseguem esse equilíbrio entre a loucura justamente pelo tom irônico. Talvez cabia bem a esse filme também, que em algum momento não consegue sustentar sua seriedade.

Enfim, sobre a próxima adaptação, nem sabia, mas fico curioso sim. Tento ir aberto a todos os filmes. Abraços!

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Kurth✓ᵛᵉʳᶦᶠᶦᵉᵈ ᵃᶜᶜᵒᵘᶰᵗ 15 de março de 2021 - 00:36

Concordo!! O filme se perde e se torna chato.

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Iann Jeliel Pinto Lima 15 de março de 2021 - 01:51

Sim, bem chato!

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Maurilei Teodoro 15 de março de 2021 - 00:36

É mesmo uma pena, pois o conto é ótimo.

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Iann Jeliel Pinto Lima 15 de março de 2021 - 01:51

Pois é…

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Elton Amorim 15 de março de 2021 - 00:36

Furos e furos e tem um furo na cena da caminhonete do delegado que foi impossível engolir

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Iann Jeliel Pinto Lima 15 de março de 2021 - 01:51

Nem me incomodo com “furos” isolados, aqui nesse caso é uma falta de coesão mesmo da narrativa como um todo.

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Filipe Isaías 15 de março de 2021 - 00:36

Eu gosto da escolha da cor alienígena, já que o magenta não é uma cor que existe no espectro, mas uma ilusão do nosso cérebro.

Abs.

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Iann Jeliel Pinto Lima 15 de março de 2021 - 01:51

Foi uma boa escolha mesmo, pena que não foi feita em um filme melhor.

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Leonardo Santos 16 de março de 2021 - 00:11

Pelo fato do conto especular com a nossa imaginação, e não conseguirmos imaginar uma cor que nunca vimos, acho seria um escolha melhor deixar o filme em preto e branco, ficaria bem mais legal.

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Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 15:09

Tem uma versão que fez isso, a de 2010. Mas não ficou muito bom não.

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