Crítica | A Culpa dos Pais

  • Contém spoilers!

Influência direta para o Cinema Novo, no Brasil, e à Nouvelle Vague, na França, o neorrealismo italiano foi um dos principais movimentos do cinema mundial. Surgido no início da década de 1940, seu foco, conforme definiu Cesare Zavattini, roteirista, teórico e um dos precursores do movimento, residia no cotidiano das pessoas comuns. Ele convocou os cineastas a saírem pelas ruas italianas e buscarem as histórias, dificuldades e dilemas do povo de seu país e trazerem para o cinema. Era uma resposta aos filmes chamados de telefone branco (produções de muito sucesso na década de 1930, com foco na vida burguesa e copiadas de longas hollywoodianos) e uma reação àquele período histórico.

Um dos principais filmes pré-neorrealistas e que ajudaram a definir o movimento foi A Culpa dos Pais, dirigido por Vittorio De Sica. Na história, que foi a primeira colaboração de Zavattini e De Sica, Nina (Isa Pola) encontra-se apaixonada por Roberto (Adriano Rimoldi). O problema é que ela é casada com Andrea (Emilio Cigoli) e tem um filho com ele, o pequeno Pricó (Luciano De Ambrosis). Ela, entretanto, não consegue suportar essa situação e opta por fugir com o novo dono de seu coração. Apesar de sua decisão afetar a todos, quem mais sofre é Pricó, que desde o início da projeção mostra-se completamente apegado à sua mãe.

Caso não seja um ser completamente insensível e desnudado de alma, esse breve resumo, por si só, já é o suficiente para causar algum desconforto, no mínimo. Para espectadores com relativa facilidade de emocionar-se com cinema, como este que vos escreve, felizmente ou infelizmente, a película torna-se ainda mais dura conforme avançamos na história. Antes de assistir, o querido Luiz passou-me um conselho, o qual repasso aqui: nunca assista a esse filme em um dia triste, pois aprofundará ainda mais essa tristeza.

A forma que De Sica aborda a história chega parecer cruel em alguns momentos. Assim que Nina deixa para trás sua família, Pricó reluta em aceitar a situação, fazendo com que a criança tão alegre de outrora não consiga esboçar um pequeno sorriso sequer. Essa situação remeteu-me ao Complexo de Édipo, conceito freudiano em que o menino desenvolve uma forte atração pela figura materna justamente na faixa etária de Pricó, pois fica tão evidente o estreito laço criado pela criança que o mesmo chega a adoecer após a irresponsável partida de sua mãe.

A doença, inclusive, é o momento que nos proporciona a cena mais esplêndida da obra. Em uma viagem de trem com seu pai, a febre ataca e a criança começa a alucinar. Há uma aproximação da câmera na janela em movimento da locomotiva e é como se adentrássemos sua mente, onde memórias e alucinações se confundem até o momento em que Pricó acorda em sua cama, como se despertasse de um pesadelo. Essa sequência, além de criativa, utiliza muito bem elementos de cenário para materializar os sentimentos da criança, possibilitando uma maior compreensão do público com o inferno vivido pelo personagem, que só aumentará.

Seguimos com Pricó, Andrea e Agnese (Giovanna Cigoli), empregada da casa, como centro da trama, agora sem a presença de Nina. O tempo passa e o pequenino começa a se apegar cada vez mais ao pai, que aos poucos começa a superar a rejeição sofrida por sua amada. Quando as coisas começam a se acertar para todos, Nina retorna, alegando que fez uma escolha errada e implora perdão, dizendo que não consegue deixar seu filho para trás. Apesar de relutante, Andrea permite seu retorno única e exclusivamente pelo bem do filho, que poderá reconectar sua relação jamais esquecida com a mãe. Tudo ocorre bem e a vida parece retornar à normalidade, quando Andrea propõe que a família saia de férias.

É nesse momento que a película mais se desconecta do conceito do neorrealismo, mesmo sem perder a essência. Explico. Enquanto os cenários das férias são praias maravilhosas e hotéis luxuosos, aproximando muito a obra visualmente a categoria dos filmes telefones brancos, a sensação de estranheza nunca sai do ar (o que faz total sentido, já que trata-se de um precursor e não um exemplar neorrealista absoluto). Essa estranheza concretiza-se quando Roberto, o amante de Nina, reaparece tentando convencê-la a fugir com ele mais uma vez. Aproveitando que seu marido retornou das férias alguns dias antes por conta do trabalho, Nina, eventualmente, cede. Pricó está em meio a todas essas reviravoltas, presenciando tudo.

Essa desconstrução da imagem imaculada que o pequeno garoto possui da mãe é extremamente dolorosa de assistir. Nós presenciamos um ser humano tão ingênuo e inocente sendo obrigado a lidar com atitudes egoístas da pessoa que ele mais nutre amor e afeto, e a atuação do jovem De Ambrosis é tão boa que torna tudo ainda mais difícil. Além da marcante cena do trem há uma na praia, logo após encontrar sua mãe junto de seu amante novamente, onde Pricó corre como se tentasse escapar de algo, que descobrimos ser os demônios internos da insegurança e do medo. Não saber o que acontecerá com sua família e o temor de uma segunda separação materna são, de novo, os responsáveis por esses sentimentos.

De Sica desenrola a trama aumentando esses sofrimentos, mesmo em momentos de aparente felicidade, até o último ato. Nesse ponto, Andrea recebe a notícia da segunda fuga de sua esposa quando apenas seu filho retorna das férias. Com isso, ele toma a decisão de colocá-lo em um convento para que, conforme o próprio personagem relata, seja a família que o pequeno tanto necessita e merece. Isso tudo porque Andrea não suporta mais todo o peso desses acontecimentos e resolve suicidar-se, justo no momento em que Pricó estava mais apegado à sua figura (o momento de separação dos dois, com ambos em lágrimas e a criança implorando pela permanência do pai, é simplesmente de partir o coração). 

Essa sucessão de eventos levam ao momento que considero o mais forte e duro de toda a obra. Quando Nina vai até o convento para ver Pricó, o primeiro encontro dos dois após a segunda partida da mãe e a morte de Andrea, e o garoto, em lágrimas, simplesmente olha para sua genitora e, com a trilha sonora marcando bem o momento, afasta-se, demonstrando que não nutre mais nenhum tipo de carinho, afeto ou amor pela pessoa que o fez sofrer tanto com tão pouca idade.

Ainda que não seja o modelo completo do neorrealismo italiano, principalmente pelo ato das férias, A Culpa dos Pais possui diversos dos pontos que definiram esse grande movimento da sétima arte. Com uma história trágica e dentro da proposta de Zavattini de filmar as histórias reais, algo que facilita a identificação e aproximação do público, assistir a essa obra é uma faca de dois gumes: a satisfação de presenciar um grande trabalho tomará conta de seu ser na mesma proporção que uma tristeza arrebatadora.

A Culpa dos Pais (I Bambini ci Guardano) — Itália, 1944
Direção: Vittorio De Sica
Roteiro: Cesare Giulio Viola, Margherita Maglione, Cesare Zavattini, Adolfo Franci, Gherardo Gherardi, Vittorio De Sica
Elenco:Emilio Cigoli, Luciano De Ambrosis, Isa Pola, Adriano Rimoldi, Giovanna Cigoli, Jone Frigerio, Maria Gardena, Dina Perbellini, Nicoletta Parodi, Tecla Scarano, Ernesto Calindri
Duração: 84 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.