Crítica | A Dama de Xangai

“Se teve um começo, acho que terá um fim.”

Durante uma caminhada noturna, o marinheiro Michael O’Hara (Orson Welles) cruza com a bela Elsa Bannister (Rita Hayworth) e acaba se apaixonando por ela. Ao se despedirem, logo após ser salva de um assalto, Elsa propõe a O’Hara um trabalho na viagem de barco que fará com seu marido, o renomado criminalista Arthur Bannister (Everett Sloane), algo que irrita o marinheiro por descobrir que a jovem já era casada. Mesmo após recusar a proposta inicialmente, o marujo é convencido quando, no dia seguinte, o próprio Arthur vai a seu encontro para convidá-lo pessoalmente. O que não passava por sua cabeça, no entanto, era que acabara de entrar no meio de uma grande intriga de crimes. Essa é a trama de A Dama de Xangai, dirigida pelo brilhante Orson Welles.

Com a construção interessante de um romance proibido, que torna-se tão encantadora por conta do imenso talento de seu realizador, Welles prende o público desde o início, que pode pegar-se torcendo para um final feliz entre os recém apaixonados quase sem perceber. O mais fascinante da obra, porém, fica a cargo das discussões e embate de visões de mundo que o diretor aborda durante boa parte do longa, convidando-nos para um exercício reflexivo pessoal e social.

Welles evoca em Michael alguém que vê pouco ou nenhum sentido na busca desenfreada por bens materiais e poder, quase dono de enorme repulsa a esse estilo de vida seguido pelo casal Bannister e George Grisby (Glenn Anders), amigo do casal e sócio de Arthur Bannister. Além da exposição de ideias contrárias durante os diálogos, detalhes como as profissões, comportamento das personagens e até os locais ajudam a formar essa clara distinção de como levar a vida. Enquanto Michael é um marinheiro calmo, centrado, pouco extravagante e que pode ser encontrado facilmente nas docas com outros marujos, Arthur e George são dois criminalistas bem sucedidos, muito mais excêntricos, abusam do álcool e podem ser encontrados em algum iate particular. Elsa, apesar de aproveitar do dinheiro de seu marido, apresenta uma personalidade mais ambígua, como se influenciada tanto pela paixão que nutre por Michael quanto pela vida que dispõe ao lado de Arthur.

As reflexões continuam quase sempre fomentadas por Michael. Em determinado momento, enquanto conversa com George, ele revela que fez parte da luta contra o ditador espanhol Francisco Franco, o que causa certo incômodo entre ambos, já que seu interlocutor lutou ao lado dos franquistas durante a guerra. O marinheiro também faz uma analogia sobre tubarões quando junta-se aos outros três em um piquenique. Ele compara a situação de matança e morte entre os predadores aquáticos que presenciou enquanto pescava em Fortaleza com o casal Bannister e George (e todos que possuem um estilo de vida semelhante, evidentemente), e finaliza dizendo que nenhum dos tubarões sobreviveu àquela selvageria. A mensagem não poderia ser mais clara: a sede desenfreada por poder levaria todos ao precipício.

Vale destacar também a utilização das cores das roupas de Michael e Elsa ao longo do filme. Sim, A Dama de Xangai é um filme em preto e branco e é exatamente por essa razão que vejo ainda mais necessidade em destacar esse ponto. Welles tinha à disposição quase que somente o preto e o branco para demonstrar os sentimentos das personagens, no entanto não pareceu problema. Ao longo de toda a metragem podemos notar situações em que o casal proibido veste trajes da mesma cor quando estão em completa sintonia, mas é necessário a troca de uma única peça para que tanto as cores percam sua harmonia quanto a sincronia dos dois deixe de existir. Talvez a cena que melhor exemplifique é quando Michael está controlando o iate e Elsa se aproxima, ambos com trajes inteiramente pretos, e se desagrada com um comentário dele sobre amor. No mesmo instante, ela coloca um sobretudo completamente branco e demonstra sua irritação em suas feições, comprovando a quebra de sintonia.

A Dama de Xangai é uma ótima obra e essencial dentro da filmografia de um dos maiores diretores de todos os tempos. Ao abordar confrontamento de ideias e debates interessantes sem abrir mão de uma narrativa bem construída e amarrada, o filme consegue ser duplamente encantador e prende o espectador até o desfecho da rede de intrigas com uma cena final arrebatadora. Um excelente exemplo da grandiosidade e talento de Welles.

A Dama de Xangai (The Lady from Shanghai) — Estados Unidos, 1947
Direção: Orson Welles
Roteiro: Orson Welles, Sherwood King
Elenco: Rita Hayworth, Orson Welles, Everett Sloane, Glenn Anders, Ted de Corsia, Erskine Sanford, Gus Schilling
Duração: 87 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.