Crítica | A Dama Dourada

estrelas 3,5

A Dama Dourada (2015), filme baseado na história real de Maria Altmann e E. Randol Schoenberg — que empreenderam uma longa, pessoal e difícil jornada para reaver da Galeria Belvedere da Áustria o quadro Retrato de Adele Bloch-Bauer I (1907), de Gustav Klimt, surge em um momento bastante delicado na Europa, um momento onde se vê, com muito espanto e lamento, o ressurgimento de “partidos marrons” e grupos neonazistas em diversos países, o que torna o longa um necessário lembrete sobre uma das muitas e tristes consequências do passado do Velho Continente.

Aqui, nos afastamos do conflito direto e dos horrores dos Campos de Concentração, guetos e nuances políticas ou ideológicas da II Guerra Mundial. Estamos no final dos anos 1990 e vemos a jornada de duas pessoas com diferentes idades e uma história familiar diretamente ligada às mudanças causadas pelo expansionismo nazista, fortemente percebido na Áustria a partir da efetivação da Anschluss, a anexação político-militar do país realizada pela Alemanha em 1938. O antissemitismo cada vez mais forte e já sentido pela população de judeus-austríacos é mostrado em pequenos blocos, assim como o elemento que é o foco central do filme, o roubo de objetos pessoais e obras-primas da casa dos “inimigos do Reich”. A posterior busca desses objetos e o retorno deles aos seus antigos donos ou descendentes fazem de A Dama Dourada uma espécie de Philomena + Caçadores de Obras-Primas com direito a dodecafonismo e flashbacks.

O roteiro do estreante (mas já veterano ator) Alexi Kaye Campbell possui dois momentos narrativos. O primeiro e mais importante, situado no presente, mostra a política de restituição empreendida pelo governo da Áustria nos anos 1990 e a luta do jovem advogado Randy Schoenberg (Ryan Reynolds em um papel bastante peculiar em sua carreira e que ele leva com graça boa parte do tempo) e sua cliente Maria Altmann para conseguirem de volta o quadro que pertencia à família Bloch-Bauer e foi roubado pelos nazistas antes de aparecer em exposição na Galeria Belvedere. O segundo momento, situado no passado, mostra as lembranças de Maria Altmann (Helen Mirren, em uma excelente interpretação), que apesar da vontade de manter viva a memória de sua família e de sua tia retratada na obra de Klimt, tem medo e um forte trauma em relação ambiente, à cidade, ao país que lhe roubou parte da vida, 50 anos antes.

O texto de Kaye Campbell é eficiente nesse ponto e o diretor Simon Curtis aproveita razoavelmente bem essas voltas ao passado, mudando o tom da direção para algo às vezes documental, às vezes melodramático e realizando aí alguns dos melhores momentos do longa. O mesmo se dá com a direção de fotografia a cargo de Ross Emery, que alcança nesses flashbacks as suas melhores composições de luz, uso de lentes, disposição da câmera e movimentação, sem contar a criação de atmosferas bastante intimistas e de grande força dramática sempre que Adele Bloch-Bauer aparece em cena, um detalhe igualmente aplicado à trilha sonora de Martin Phipps e Hans Zimmer.

Todavia, é justamente nessa ida-e-volta do presente para o passado que A Dama Dourada encontra alguns de seus momentos mais fracos, como a repetição desnecessária de algumas cenas, a mudança dos pontos de vista — com o mais grave erro na cena e futura sequência da despedida de Maria, gravada com câmera, fotografia e roteiros diferentes — e a descartável montagem de Peter Lambert, o único setor técnico que erra a maior parte do tempo.

O modo abrupto como o filme termina — o que não é necessariamente uma coisa ruim, mas nos deixa um vazio desconfortável em termos de conteúdo — tem muito a ver com as escolhas da montagem e erros da direção que exagera aqui e ali ou adiciona cenas que nada acrescentam à história, quando deveria ampliar sequências interessantes como as do julgamento e abrir janelas nesses momentos para que fossem retomadas, como reflexão de “missão cumprida”, ao fim do filme. De toda forma, porém, a ideia de um “final feliz não tão feliz” não é de todo esquecível e funciona parcialmente bem, não por seu conteúdo mas pelo modo e contexto em que é situada.

A Dama Dourada é um alerta para o presente a partir da lembrança de um terrível passado. Centrado na alta classe austríaca do início do século XX e na recuperação legal de uma das obras de arte mais icônicas do país (a chamada “Mona Lisa da Áustria”), o longa garante um bom divertimento e pode até levar alguns espectadores às lágrimas. À exceção de Hubertus, personagem de Daniel Brühl, todo o elenco está bem localizado na história, uns melhores desenvolvidos que outros, é verdade, mas com figurações que fazem sentido e que podem impressionar o espectador em algum momento da projeção. Pelo drama real em que é baseado, pelas famílias envolvidas e o caráter artístico e histórico que marcam o enredo, é fácil concluir que o filme vai funcionar bem para quem gosta dessas áreas do conhecimento, embora a história de vida, a preocupação com a memória da família e o companheirismo entre os protagonistas façam do longa uma daquelas produções de alcance universal.

A Dama Dourada (Woman in Gold) — EUA, Reino Unido, 2015
Direção: Simon Curtis
Roteiro: Alexi Kaye Campbell (baseado na história de vida de E. Randol Schoenberg, Maria Altmann).
Elenco: Helen Mirren, Ryan Reynolds, Daniel Brühl, Katie Holmes, Tatiana Maslany, Max Irons, Charles Dance, Antje Traue, Elizabeth McGovern, Jonathan Pryce, Frances Fisher, Moritz Bleibtreu, Tom Schilling
Duração: 109 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.