Crítica | A Delinquente

Depois de me debruçar sobre esse prolífico começo de carreira de Yasujiro Ozu, que, como todo grande cineasta, bebeu de diversas fontes inspiradoras para, com o tempo, criar sua própria voz, sua própria pegada, é perfeitamente possível olhar para trás e entender que desde esse início, uma boa parte de sua filmografia já lidava com o dia-a-dia da pessoa comum, que seria sua marca registrada em sua maturidade fílmica. Flertando com a comédia, com o filme policial e de gângster e outros gêneros e aplicando uma roupagem ocidentalizada, mas que vai aos poucos cambado para o oriente em pequenos, mas significativos toques aqui e ali, a grande verdade é que a universalidade e a “pequeneza” de seus filmes são detectáveis constantemente, seja em Fui Reprovado, Mas…A Mulher Daquela Noite ou Coral de Tóquio, só para citar alguns exemplos. Retire a camada de verniz narrativo que ele magistralmente pincela, e temos histórias cotidianas em seu âmago.

A Delinquente não é diferente. Trabalhando com uma história criada por ele próprio e roteirizada novamente por Tadao Ikeda, o filme é, essencialmente, uma história de amizade, irmandade, ciúmes e, claro, amor. Ozu, aqui, volta para seu estilo proto-noir de gângster, algo que ele já abordara em Marchar com Alegria, somente para servir de estrutura temática e estudar seus personagens, em uma proposta mais ambiciosa, com a introdução de um relacionamento quadripartite entre Joji (Joji Oka), ex-boxeador e integrante de uma gangue, sua namorada e datilógrafa Tokiko (Kinuyo Tanaka), Hiroshi (Kōji Mitsui), jovem que almeja fazer parte da gangue de Joji e, finalmente, Kazuko (Sumiko Mizukubo), irmã de Hiroshi e interesse amoroso de Joji. Estabelecendo uma ponta narrativa de conveniência, há ainda o chefe de Tokiko que tem interesse na moça.

Em seu terço inicial, Ozu luta para estabelecer as características dos quatro principais personagens e seus respectivos relacionamentos, além da sub-trama de Tokiko com seu chefe, nem sempre saindo-se bem sucedido da empreitada e recorrendo – algo razoavelmente raro para o cineasta – de uma quantidade talvez exagerada de inter-títulos que quebram em demasia a fluência da narrativa e expõem didaticamente aquilo que as imagens deixam claro na maioria das vezes. Mas, ultrapassada essa dificuldade inicial, a trama ganha desenvolvimento, com a rivalidade latente entre Tokiko e Hiroshi, ou melhor, de Tokiko em relação à inocente Hiroshi, que nem de longe corresponde, mantendo-se com a âncora oriental da fita em meio aos figurinos ocidentais que tomam boa parte desse estágio inicial da carreira de Ozu, tornando mais fácil ainda transplantar as situações para o nosso dia-a-dia. De certa forma, vemos ecos de seus filmes anteriores na forma como o roteiro aborda o arrependimento, a tentativa de mudança e a inevitável tragédia, o que torna A Delinquente uma obra que dialoga muito bem com o que veio antes em sua carreira.

Ozu volta a trabalhar com radicais movimentos de câmera, mas sempre com precisão absoluta, deixando o flerte com a câmera fixa “esquecida” lá em Coral de Tóquio. Além disso, ele mostra o mesmo tipo de esmero na composição cenográfica que esbanjou em Marchar com Alegria, literalmente entulhando seus cenários com todo o tipo de material e referência, mas sempre com precisão kubrickiana. Talvez, sua inspiração, aqui, tenha sido a filmografia do mestre Josef von Sternberg, com a fotografia chiaroscuro de Hideo Shigehara mimetizando a do diretor austríaco em sua fase silenciosa. A própria “ocupação” meticulosa de cada quadro parece vir de von Sternberg, já que ela se torna mais saliente aqui do que nos trabalhos anteriores de Ozu. Essa característica, aliás, ajuda no realismo das sequências, mas também nos passa uma aura de vida vivida, mas sem perder uma certa qualidade artística que universaliza sua obra, que poderia ser facilmente transplantada para os Estados Unidos, com atores americanos, sem que o roteiro precisasse sofrer maiores alterações.

O elenco, particularmente Kinuyo Tanaka e Joji Oka, é excelente, estabelecendo, mesmo que a duras penas – pela dificuldade que mencionei que Ozu tem em expor a história – uma química que traz veracidade aos acontecimentos, mesmo que, por vezes, o dramalhão fique mais saliente em momentos cruciais, algo que faz parte da própria estrutura dos filmes mudos, ainda que Ozu, nesse ponto, estivesse insistindo nessa escolha, dada a presença cada vez mais avassaladora dos talkies. Tanaka como Tokiko é que verdadeiramente faz a obra funcionar, já que ela não só é a delinquente do título, como a personagem que carrega a narrativa, algo que a então ainda bem jovem atriz tira de letra.

A Delinquente tem tudo aquilo que um dia seria chamado de film noir, mas sem perder o toque Yasujiro Ozu em sua simplicidade cotidiana debaixo das camadas estilísticas hollywoodianas dessa sua fase inicial. O filme demora a engrenar, mas não perde o ritmo uma vez que encontra sua batida, prendendo o espectador em uma história tão distante quanto próxima do nosso dia-a-dia.

A Delinquente (Hijôsen no onna, Japão – 1933)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Tadao Ikeda (baseado em história de Yasujiro Ozu)
Elenco: Kinuyo Tanaka, Joji Oka, Sumiko Mizukubo, Hideo Mitsui, Yumeko Aizome, Yoshio Takayama, Koji Kaga, Yasuo Nanjo, Chishū Ryū, Kōji Mitsui
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.