Crítica | A Derrota das Tropas Alemãs Próximo a Moscou

Uma parte significativa da minha abordagem histórico-comparativa entre a realidade mostrada num certo documentário da 2ª Guerra Mundial (Por Que Lutamos: Prelúdio de uma Guerra) e o momento presente dos Estados Unidos, serve também, sem tirar nem por, para o caso da URSS, contextualizando-se aí o menor espaço de dominação a longo prazo, a menor riqueza e o menor dinamismo econômico que o gigante euroasiático tem na atual conjuntura do mundo, se comparado aos Estados Unidos.

Um dos quatro vencedores do primeiro Oscar de Melhor Documentário entregue pela Academia, A Derrota das Tropas Alemãs Próximo a Moscou (também chamado de Moscou Contra-Ataca) aborda de maneira interessante o grande evento que foi a Batalha de Moscou (2 de outubro de 1941 a 7 de janeiro de 1942), que terminou com a vitória dos soviéticos, colocando fim à Operação Barbarossa e abrindo as portas para a imensa contra-ofensiva vermelha, que teria o seu maior capítulo na colossal Batalha de Stalingrado, a partir de 23 de agosto de 1942, enfim expulsando os nazistas do Cáucaso e revertendo os ganhos da Alemanha para o status em que estava um mês antes. Imaginem só a importância dessa luz no fim do túnel que surgiu em Moscou, tirando o mito de invencibilidade do Exército Nazista começando o processo que, lentamente, derrubaria o III Reich.

As filmagens desse documentário foram feitas pelos diretores Ilya Kopalin e Leonid Varlamov mais alguns cinegrafistas em diversas frentes de batalha, começando no mês de outubro de 1941 e indo até pouco depois do Natal, quando as filmagens foram encerradas e o material levado para estúdio, a fim de se adicionar narração e uma parte especial da trilha sonora (o trecho com a 5ª Sinfonia de Tchaikovsky), tocada por músicos militares em campo, com as mãos congelando (porque não dá para tocar com aquelas grandes luvas do inverno russo, não é mesmo?). Dos quatro documentários sobre a 2ª Guerra Mundial premiados na 15ª edição do Oscar, este é certamente o que mais cenas chocantes e abordagem gigantesca dos eventos do conflito nos traz.

Narrado pelo próprio diretor Pyotr Pavlenko (na versão americana, que traz adições no roteiro com inúmeros elogios aos soviéticos — em tempos de inimigo em comum, tudo vale, não? — a narração é feita por Edward G. Robinson), o filme cerca toda a operação, desde a partida do Exército Vermelho dos muitos centros em torno da cidade de Moscou, até o retorno dos soldados e o esperado discurso propagandista de guerra, como de praxe em documentários da época. Os momentos mais terríveis, porém, estão na metade final da obra, quando vemos as atrocidades realizadas pelos alemães, desde casas que foram cheias de gente e explodidas até pilhas de corpos queimados (inclusive de crianças). É realmente um negócio horroroso de se ver e, diante da dimensão de toda a empreitada militar, com inúmeras divisões do Exército Vermelho em ação, dos paraquedistas à infantaria de esqui, o contexto desses horrores ganha ainda mais força.

O número de nazistas mortos também é destacado toda a narração, e dá uma alegria imensa ver bandeiras com a suástica queimadas ou jogadas no chão. É como comentei mais acima: para um mundo em guerra e tremendo de medo da Alemanha, um filme que mostra os eventos da Batalha de Moscou realmente deve ter trazido alguma paz e um pouco mais de sanidade mental para o desespero de civis, militares e políticos da época. A obra tem vários problemas de fluidez quando passa de um bloco para outro (os intertítulos não salvam os cortes abruptos nem o problema das cenas desconexas) e os momentos de confraternização no retorno de alguns soldados à casa são artificiais demais para serem aceitos em um filme com tanta crueza. Ainda assim, a obra consegue se manter como um documento histórico chocante e inesquecível, certamente o mais poderoso entre os pares premiados com a estatueta naquele ano. Um filme que ao menos nesse recorte da guerra, traz um pouco de esperança.

A Derrota das Tropas Alemãs Próximo a Moscou (Razgrom nemetskikh voysk pod Moskvoy/Разгром немецких войск под Москвой) — URSS, 1942
Direção: Ilya Kopalin, Leonid Varlamov
Roteiro: Pyotr Pavlenko
Elenco: Pyotr Pavlenko (narração da versão soviética), Edward G. Robinson (narração da versão americana)
Duração: 55 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.