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Crítica | A Deusa (1960)

por Luiz Santiago
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Baseado no conto Devi, de Prabhat Kumar Mukhopadhyay (que também é referenciado como Prabhat Kumar Mukherjee em algumas indexações aqui no Ocidente, mas eu não consegui encontrar uma explicação para isso, nem a indicação oficial de que este era o pseudônimo do escritor), A Deusa é um interessante estudo sobre a obsessão religiosa. A abertura do filme dialoga com o material artístico e cultural aliado a um grande elemento de fé, onde vemos sobrepostos diversos planos à imagem da deusa Durga (A Inacessível, A Invencível), mostrando a “criação de uma divindade”, desde a sua forma bruta, numa simples cabeça esculpida, até as fases seguintes de preparação; com a maquiagem, adereços, flores e finalmente a importância que ela ganha diante dos fiéis.

Satyajit Ray procura imergir o espectador na esfera religiosa, fazendo-o a partir de um entendimento material da fé, através da imagem crua, somando imediatamente a essa impressão inicial a imagem endeusada, criando uma dualidade emocional com a qual chegamos ao Durga Puja, o festival que marca a vitória da deusa sobre o maligno búfalo-demônio Mahishasura, simbolizando a vitória do bem sobre o mal. A sequência é dotada de um grande enlevo, mas também de fechamento de um ciclo, pois presenciamos o momento dos rituais onde a estátua de Durga é jogada na água, para afundar. Aqui é semeado um diálogo simbólico com o que teríamos mais adiante no filme, e mais uma vez a direção cria ícones narrativos que economizam uma quantidade enorme de diálogos no momento em que é preciso juntar as pontas e trabalhar as consequências do fanatismo, um dos temas explorados na obra.

O texto dá atenção ao patriarca e rico proprietário Kalikinkar (Chhabi Biswas), que é fervoroso devoto da deusa Kali, uma manifestação de Durga. A partir de um sonho que ele tem, de que sua nora Doya (Sharmila Tagore) é uma encarnação de Kali, é que começa verdadeiramente o estudo comportamental e de ideias proposto pelo diretor. Procurando mostrar o funcionamento familiar, a relação entre Doya e o esposo Umaprasad (Soumitra Chatterjee) e a diferença de pensamento entre este homem, que está na Universidade, e seu irmão, que “teve outra educação”, Ray cria com rapidez e de modo bem eficiente o conflito de gerações, de ideias e de percepções do mundo que segurará a problemática até o final.

Não há, todavia, desrespeito no tratamento da relação desses indivíduos com o sagrado e nem às tradições familiares hindus. O diretor explora os absurdos causados pela fé cega e pela elevação da crença em detrimento à racionalidade, focando em situações como confiar uma criança doente a uma suposta encarnação de uma deusa e não levar essa criança ao médico, por exemplo. A crítica do diretor ao hinduísmo destaca e ressalta a natureza destrutiva do fanatismo religioso, dos problemas causados pela superstição e pelo impacto que isso tem na vida de todos em volta. Notem como não apenas as pessoas são marcadas positiva ou negativamente pela crença na encarnação de Kali em Doya, mas também a própria Doya perde gradualmente o seu senso de realidade e a sua individualidade.

Há um olhar social e crítico exibido por Satyajit Ray em A Deusa, que mira em práticas questionáveis de diversos grupos e famílias no subcontinente indiano, muitas vezes levando pessoas à morte, à loucura ou à pobreza extrema por afogar-se em práticas religiosas que pouco têm a ver com a fé, e muito mais têm a ver com perigosas fantasias. Como na imagem da deusa que se compõe na tela, a experiência com o sagrado, na visão construída pelo cineasta, precisa ganhar um significado de criação, renovação e grandiosidade, nunca de destruição. E isso pouca gente, dentro ou fora do hinduísmo, parece conseguir entender.

A Deusa (Devi) — Índia, 1960
Direção: Satyajit Ray
Roteiro: Satyajit Ray (baseado em obra de Prabhat Kumar Mukherjee)
Elenco: Sharmila Tagore, Soumitra Chatterjee, Chhabi Biswas, Karuna Bannerjee, Purnendu Mukherjee, Arpan Chowdhury, Anil Bag, Khagesh Chakravarti, Anil Chatterjee, Arabinda Kumar Chowdhury, Shanta Devi, Mohammed Israil
Duração: 93 min.

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