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Crítica | A Deusa, de Prabhat Kumar Mukhopadhyay

por Luiz Santiago
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Eu gostaria de destacar duas coisas aqui antes de entrar de fato na crítica deste conto. A primeira delas é em relação ao seu ator, Prabhat Kumar Mukhopadhyay. Ele é muitas vezes citado com o nome de Prabhat Kumar Mukherjee, mas eu não consegui encontrar nenhuma explicação para isso: se é um pseudônimo, uma outra maneira ‘oficiosa’ de indicar o sobrenome do autor ou coisa parecida. No livro onde conferi o presente conto (14 Stories That Inspired Satyajit Ray), editado pela Harper Perennial, a indicação do sobrenome do autor é justamente esta que uso no título da crítica e na citação inicial do texto. Não há nenhuma menção a “Mukherjee”. Caso vocês saibam o motivo pelo qual o autor é muitas vezes indicado como “Mukherjee”, por favor, escrevam nos comentários abaixo.

Já a segunda coisa que eu gostaria de destacar é sobre a data de publicação do conto. Infelizmente não há indicação do ano e nem da coletânea em que o autor originalmente publicou essa história. Eu me deparei com uma citação isolada, dizendo que é um texto de 1899, o que colocaria o conto como parte da coletânea Nabakatha, mas não vou assumir essa data como contexto de produção porque não pude confirmá-la em mais nenhum outro lugar. Muito bem, esclarecidos esses dois itens importantes, vamos aos comentários sobre Devi, a história sobre a construção, a desconstrução e as ambiguidades em torno de uma divindade encarnada.

Dayamoyee (apelidada de Daya no conto) é casada com Umaprasad, filho do zamindar (importante proprietário de terra que exercia um governo autônomo ou semiautônomo, dependendo do caso, de um Estado que aceitava prestar contas ao imperador hindu) Kalikinkar, fervoroso devoto da deusa Kali. Daya tem 16 anos, seu esposo é dito estar na casa dos 20 e há apenas alguns meses ambos estão dividindo o leito conjugal, embora estejam casados há 5 anos — vale aqui observar os elementos de tradição hindu em relação ao casamento de meninas adolescentes com homens mais velhos, comportamento social que não está apenas nessa sociedade e que não ficou preso no início do século XX, uma vez que encontramos regiões do mundo onde esse tipo de prática segue em uso até hoje (2021).

O autor começa nos familiarizando com a relação íntima entre o casal protagonista. A cena de abertura é terna, marcada por uma beleza tímida, onde Daya é acordada carinhosamente pelo esposo e ambos trocam palavras desconexas, com Umaprasad provocando a esposa e esta respondendo de forma calculadamente acanhada. É um ponto importante do texto, pois nos mostra uma interação carinhosa que será destruída por uma situação que Daya não pede, diante da qual não tem nenhuma responsabilidade, mas que irá marcar negativamente a sua e a vida e a vida da comunidade onde vive. Essa parte de sua jornada começa com um sonho que o devoto Kalikinkar tem. Na bela manhã que as primeiras páginas do conto nos narra, o velho zamindar já está vestido com suas roupas de adoração e prostra-se aos pés da nora assim que ela sai do quarto. Naquela noite, ele sonhara que Daya era a encarnação da deusa Kali. E nesse momento começa um estranho martírio, disfarçado de glória.

O que uma adolescente comum faz quando de repente alguém diz que ela é uma deusa? Mukhopadhyay trabalha a progressiva mudança na mente da personagem, que em dado momento — curiosamente em uma cena onde tem a oportunidade de fugir daquela insanidade — passa a questionar se ele não é, de fato, uma deusa. Afinal, muitos milagres lhe foram atribuídos nesse período de adoração. A sanidade é atravessada aqui pela fé supersticiosa e fanática de alguém. Notem o contexto em que isso aparece para Daya e o quanto essa situação afeta as suas escolhas e o seu poder de discernimento.

O evento trágico com o sobrinho Khoka é um definidor para que tudo o que se construiu em torna dela, vire pó. A crítica do autor à adoração pensada apenas para receber benefícios é clara, mas sua atenção está voltada para o horror e a tristeza que pairam em torno da morte do menino, após a própria jovem, crendo ser uma deusa, dar a final palavra de recusa à vinda de um médico à casa. Podemos ver o quanto Daya e o próprio Khoka são vítimas da fé cega e que nega a razão, o que cria uma culpa e uma grande responsabilidade para alguém que não pediu e nem alimentou a situação pela qual deveria ser responsável. E a suposta fé fervorosa se mostra finalmente como o recorrente perigo que ronda a humanidade desde há muito tempo: o fato de a mente de alguns fanáticos ser capaz de arrastar consigo muitos e muitos outros indivíduos, colocando em risco a vida de inocentes que nada tinham a ver com o delírio levado a cabo em nome de alguma divindade.

A Deusa (Devi) — Índia
Autor: Prabhat Kumar Mukhopadhyay
Tradução (para o inglês): Bhaskar Chattopadhyay
Editora: Harper Perennial (2014)
25 páginas

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