Crítica | A Divina Comédia, de Dante Alighieri

Há clássicos que não precisam de afirmação especializada para se confirmar enquanto obra-prima da literatura mundial, mas uma situação em particular me fez retornar ao texto lido e analisado nos tempos de graduação, enquanto cumpria um componente curricular sobre literatura canônica. Ao passo que lia as notícias diárias recentemente, encontrei uma crônica de Renato Sergio de Lima, intitulada “Brasil, Terra Devastada Pela Violência?”, na Folha de São Paulo.

O texto versava sobre os dados da 12ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Assustado com os índices registrados, o autor comentava que diante de tantas tragédias ocorridas recentemente, era preciso pensar se iríamos nos mobilizar ou se continuaríamos embarcados numa nau perdida pelo rio Tibre, a primeira e mais longínqua travessia que transporta as almas ao Purgatório, segundo a descrição de Dante, na Divina Comédia.

Coincidentemente, alguém havia postado no Instagram uma fotografia da escultura de Rodin sobre uma passagem específica do poema clássico italiano. A “cereja do bolo” se estabeleceu quando ao retirar um livro para ministrar uma oficina de Elementos das Artes Visuais, deparei-me com a ilustração de Boticelli para uma passagem do “Inferno”, parte integrante e instigante do poema em questão. Tudo isso, coincidentemente no mesmo dia. Algo me dizia que era o momento de retomar Dante, a Divina Comédia e fazer ao menos uma crítica literária. A tarefa, não é nada fácil, pois o poema é largamente comentado, mas lido por uma parcela pequena, haja vista a sua leitura filosoficamente complexa.

Produzido em italiano, no século XIV, o poema é tido pela história literária como uma busca de Dante por uma síntese quase enciclopédica do conhecimento filosófico e científico do período que se convencionou a chamar de Idade Média. Estruturalmente construído por meio de estrofes com dez sílabas, três linhas e com rimas específicas em cada uma, a Divina Comédia é uma produção literária cuidadosamente descritiva, bem como visual, característica preponderante para as produções artísticas inspiradas em seu legado, da pintura ao cinema. Em sua viagem, Dante, o “narrador personagem” cruza a sua jornada com encontros inusitados com figuras públicas, amigos, meros conhecidos e desconhecidos, tendo em vista sempre o debate de temas variados.

Dante nomeia “Comédia” em posição a “Tragédia”, sendo apenas em 1555 o surgimento de “Divina” (como adjetivo e título), algo que se estabelece com base nos escritores que gravitavam em torno do legado do italiano. As comédias geralmente começam com o estabelecimento de alguma adversidade, mas terminam com momentos de felicidade e esperança, diferente das tragédias, gênero conhecido por começar tranquilamente e terminar em meio ao  aos proveniente de alguma catástrofe.

Realizado numa época de predominância do cristianismo medieval, o poema que se tornou uma fórmula básica para a poesia narra a trajetória de Dante, como já apontado ligeiramente anteriormente, por um caminho vertical que começa no Inferno, passa pelo Purgatório e chega ao Paraíso. Da selva aos momentos infernais e de observação das almas em purificação, Dante é acompanhado por Virgílio, autor da Eneida, um personagem que representa a razão, alguém que por conta dos seus interesses mundanos, o acompanha até a porta do Paraíso, espaço conhecido por suas restrições.

Lá, Dante é recepcionado e logo mais encontra Beatriz, outra personagem importante, pois representa o “amor divino”, uma espécie de musa inspiradora do poeta, paixão platônica de Dante desde a sua adolescência. Com visão geométrica dos espaços e observação detida no que diz respeito aos detalhes, Dante compõe o seu poema responsável pelo florescimento da literatura no vernáculo italiano, tendo como regra os 34 estrofes na passagem pelo Inferno (contando com a introdução) e 33 para as etapas seguintes, Purgatório e Paraíso, respectivamente, narrados com didatismo exemplar.

Disponível para apreciação na língua que embasou o italiano que conhecemos, ao invés do latim, língua restrita aos grandes círculos de intelectuais, a Divina Comédia cumpriu também a sua missão popularesca, pois se acredita que o interesse de Dante era difundir a sua obra para conhecimento geral das pessoas, diferente do que se fazia na época. De todas as passagens, devo dizer que o “Inferno” é o ambiente mais bem descrito pelo poeta. Geograficamente apresentado ao longo dos versos, o ambiente se tornou conhecido por seus nove círculos, espécie de passagens, organizadas de acordo com os pecados e os demônios que ali residem. Local para reforço do tormento e dos castigos, situações pautadas com base nas ações e comportamento dos indivíduos enquanto vivos, o Inferno de Dante é uma das visões mais expressivas de um espaço aproveitado com muita inteligência pela Igreja Católica para manutenção da sua doutrinação.

Segundo Pedro Heise, docente da USP, especialista e pesquisador de estudos literários, especificamente, de língua italiana, Dante produziu num período de efervescência política em Florença, local onde exerceu posição importante. Conforme registros históricos, o poeta nasceu em por volta de 1265 e teria estudado na Universidade de Bologna. Consagrado ainda em vida, o poeta hoje é citação comum não apenas nos círculos elitistas do conhecimento, mas também da cultura de massa.

Inspiração para games, filmes, releituras literárias, séries televisivas e pinturas, tais como o Purgatório, de Salvador Dalí; a tela de William Blake; e o filme homônimo do cineasta português Manoel de Oliveira, lançado em 1991, a obra também é constantemente citada em artigos e crônicas como a citada na abertura desta crítica, pois as considerações políticas e sociais de Alighieri, para o bem ou para o mal, ainda são bastante atuais.

A Divina Comédia (Itália, 1304-1321)
Autor: Dante Alighieri
Editora no Brasil: Landmark
Tradução: José Pedro Xavier Pinheiro
Páginas: 896.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.