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Crítica | A Escolha de Sofia

por Rodrigo Giordano
1515 views (a partir de agosto de 2020)

O narrador dirige-se ao público: “Call me Stingo”. O jovem, saído do sul dos Estados Unidos em direção à New York, conta sobre sua viagem no tempo passado. Estamos diante de uma narrativa retrospectiva, portanto. A fim de se tornar um grande escritor, Stingo caracteriza sua jornada como de descoberta: da liberdade, da maturidade, do amor – como podemos intuir pelo seu olhar ao casal que troca carícias no assento ao lado.

Não demora para que ele conheça aqueles que irão formar o triângulo afetivo central do filme. O perturbado casal formado por Nathan e Sophie já expõe de cara sua radical dicotomia: do sexo selvagem que faz o lustre de Stingo, no quarto logo abaixo, balançar, à briga que ganha as escadas da casa rosada que funciona como pensão. O corte direto entre os dois momentos evidencia a falta de meio termo constitutiva do relacionamento. No entanto, este pequeno episódio, exemplar da “Sodoma dos tempos atuais”, como diz o pai do narrador, atrai sua atenção para o casal. Ela, uma imigrante polonesa, ex-prisioneira em Auschwitz; Ele, um biólogo, acadêmico, às voltas com pesquisas que pretendem mudar o mundo.

As aventuras e passeios do trio pela cidade apontam para uma direta referência a Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (François Truffaut, 1962), inclusive em suas consequências fatais. A inconstância de Nathan logo fica clara, com suas explosões de raiva e ciúme contra Sophie. E a figura de gênio indomável se cristaliza em uma belíssima cena na qual ele rege uma sinfonia de Beethoven a si mesmo, de frente para cinco espelhos. Já devidamente apaixonado por Sophie, Stingo busca entender porque alguém com um histórico de aprisionamento se envolveria em uma relação tóxica e abusiva deste tipo.

Sendo basicamente um filme de três atores, o diretor Alan J. Pakula decidiu destacar as performances. Os planos longos e a fotografia de tom nostálgico dão um ar teatral à obra, e com os pontuais zooms chamando atenção para o detentor do discurso. Aqui, Meryl Streep ganhou seu primeiro Oscar de melhor atriz, numa atuação com vários papéis dentro de um só, tendo passado por transformações físicas – o que a Academia adora – e falando polonês e alemão. Sophie se apresenta de forma sensual, inocente, por vezes até engraçada, mas sem nunca deixar de demonstrar que carrega um enorme peso em suas costas, um fantasma que a ronda incessantemente.

O filme é de Streep, portanto. A função de narrador não dá a Stingo o privilégio de ser “objeto de interesse” da obra, pelo contrário, parece funcionar como uma janela para os outros personagens mais interessantes – e é sintomático que após a conclusão da história do casal, o filme acabe sem se preocupar com o tempo presente do narrador. No entanto, é através de seus olhos que nos é permitido testemunhar determinadas ocasiões. Essa posição, somada à função de narrador e de futuro escritor, nos permite desconfiar se não há aqui a criação de um universo imaginário. Como apontou o falecido crítico americano Roger Ebert, Stingo se apaixona por uma série de coisas: a imagem de si mesmo como escritor, a visão idealizada do romance entre Nathan e Sophie, e claro com ela própria.

A segunda parte do filme vai aos poucos desmistificando as idealizações do narrador; ao descobrir que Nathan não é quem diz ser quem é, e ao receber um pedido de ajuda do irmão deste, sua reação é “esses são meus amigos, eu os amo”, como que afirmando a impossibilidade de uma ação que os prejudicaria. Já a figura angelical de Sophie custa a se esvair, – e aqui é importante ressaltar que ela faz o mesmo movimento de idealização em relação a seu pai e a Nathan – atingindo seu ápice num longo flashback em que ela conta sobre seus dias no campo de concentração. À janela, a luz da lua empresta uma aura pictórica ao seu relato, com a dominância de um azul não antes visto na obra: seria a forma como Stingo enxerga esse momento? Provavelmente, dado que Pakula nunca nos oferece o contracampo. Como contraste, quando voltamos para Auschwitz, temos uma fotografia toda em tom pastel, sem vida.

É apenas com o plot twist, o momento que dá nome ao filme, que a figura de inocência e ingenuidade de Sophie é finalmente desfeita. Essa virada, porém, demora muito a chegar, e quando o faz, parece que vem para resolver a obra. A Escolha de Sofia é um filme longo, que utiliza a música para direcionar nossas emoções, que trata de vários temas grandiosos ao mesmo tempo – Holocausto, culpa, abuso, descobertas – mas que com seu final aparenta uma certa efemeridade, como se a história não deixasse rastros ou consequências, como um capítulo que apenas viramos a página final e seguimos em frente rumo ao próximo.

A Escolha de Sofia (Sophie’s Choice) – USA, 1982
Roteiro: Alan J. Pakula (baseado na obra de William Styron)
Direção: Alan J. Pakula
Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Peter MacNicol, Rita Karin, Stephen D. Newman, Greta Turken, Josh Mostel, Marcell Rosenblatt, Moishe Rosenfeld, Robin Bartlett
Duração: 150 minutos.

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2 comentários

Alessandro 20 de fevereiro de 2021 - 00:54

Rodrigo, acho que você fez uma análise muito superficial do filme. Também é necessário dizer que é uma adaptação de um romance, por isso, o roteiro tem que manter as características essenciais do texto. Não li a obra original, mas pela narração em off do filme, a narrativa é em primeira pessoa. Ou seja, Stingo tem uma visão limitada de Sofia, assim como de outros personagens. Voltando ao filme, acho que o seu ponto alto é interpretação de Meryl Streep. Ela dá um show nisso não somente no sotaque polonês e em suas falas em um alemão considerado perfeito, mas também nas várias nuances de sua personagem. Sofia é uma mulher multifacetada e camelônica. Ela esconde a dor intensa que carrega por meio de uma máscara angelical de doçura realçada pelo excelente trabalho de fotografia do gênio Nestor Amendros. Assim, no filme ela aparece como uma figura angelical que adquiri contornos fantasmagóricos no final. Para mim, ela é o principal motivo de ver o filme e sua atuação é sem dúvidas uma das melhores da história do cinema – tanto é que ganhou merecidamente o Oscar.
Os outros atores do triângulo também são muito bons, com destaque para Kline, que consegue demonstrar muito bem às oscilações de humor de Nathan. Para mim, o filme trata de temas bastante complexos de forma bastante abrangente ( o holocausto, o fatalismo – Sofia é literalmente arremessada em várias situações trágicas, a loucura associada ao amor, o preconceito aos estrangeiros ,e, a culpa que vem a ser o tema central do filme), assim como questões relacionadas à criação literária representada por Stingo.
A tal escolha que justifica o título também demora para acontecer, mas quando ela ocorre é capaz de causar um profundo choque emocional no espectador – e essa parece ter sido a intenção do diretor. Deixar isso para o final faz com que esse trecho fique marcado na memória, não dá para esquece-la facilmente. Para mim também essa cena é um das mais marcantes do cinema.
Ou seja, “A escolha de Sofia” é uma obra complexa e não é fácil de ser vista. Mas, tem qualidades que a tornam uma das melhores dos anos oitenta. Mas, deve ser vista com paciência e atenção, senão pode dá a impressão que é somente um
drama de guerra, quando na verdade é muito mais que isso. O filme traz um estudo psicológico de personagem (Sofia) que até então era pouco explorado no arte cinematográfica, principalmente no cinema norte-americano. Por isso, sugiro que você reveja o filme, talvez nessa revisão, você tenha uma outra leitura dele.

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Alexandre Marcello de Figueire 19 de novembro de 2020 - 14:45

O filme não poderia ser mais curto?

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