Crítica | A Escolha Perfeita 3

“Então essa é a primeira base. Quando a gente irá para a segunda base com vocês?”

Qual a necessidade de errar em uma produção que arrecada milhões e milhões de dólares de bilheteria, desmerecendo o público que investiu sua grana corajosamente em uma visita às salas de cinema mais perto durante o lançamento original do longa-metragem em questão? O quase indefensável A Escolha Perfeita 3, presumido encerramento de uma saga, que parece ser um especial para televisão feito nas coxas, chega a ser uma espécie de cinema com propósitos agressivos, verdadeiramente antagonistas, porém, não de um modo desconstruidor ou subversivo, mas rindo do seu público e de qualquer coisa que constrói narrativamente. O início da obra parte desse princípio argumentativo, misturando música com um sequestro em alto-mar, um grupo de coral composto por mulheres com explosões. Como a carreira de Dwayne Johnson, se os seus projetos o deprimissem e O sacaneassem assim, o oposto do que acontece nas suas aventuras.

A corrosiva comédia presente na obra, demasiadamente malévola de certo modo, está explícita já na premissa, nascendo da indicação de que todas as Bellas, grupo de amigas que se conheceram através do cantar e dançar, estão vivendo uma vida complicada após saírem da faculdade, sem exceções, dividindo um mesmo apartamento e torcendo pelo retorno do grupo. Quando um chamado ao dever, à missão, acontece, as mulheres se empolgam com a situação, como se importassem com aquilo todo, o que é bonito por uma parte e convence o público, impulsionando negativamente, portanto, o que acontece em seguida com o roteiro, jocosamente escanteando as suas presenças em uma obra com, factualmente, uma única protagonista. Um grupo de coral é a coisa mais patética do mundo, disserta essa desgraça cinemática –  o que não é um problema discursivo, apenas se as coisas fossem comandadas de alguma maneira menos impessoal e são.

A cineasta Trish Sie maneja a obra do modo mais desinspirado possível, igualmente ansiando por uma vertente paródica, rindo de si mesma, que é muito mais entristecedor que irônico. Ao inverter os papéis “masculinos” para os papéis “femininos”, coisa perceptível com a presença de Fat Amy (Rebel Wilson), que possui momentos verborragicamente sexuais, a cineasta esquece de não transformar a personagem em alguém menos “ignorante” e distanciado do espectador – a exemplo, implicando com colegas constantemente. Uma coisa é criar uma personagem fora dos padrões que seja desbocada, outra coisa é você transformá-la em uma piada, como se, em lados opostos, incorporasse uma representação do gordinho pervertido de comédias adolescentes. O arco de Fat Amy com o seu pai, interpretado por John Lithgow, é o estopim dessa vida, enfim, complicada demais para ser repensada pelo longa, que prefere a impessoalidade das paródias mais sacanas.

As personagens, então, se encaminham a um dos ambientes mais masculinos possíveis: o meio militar – o que aconteceria para essas garotas, senão ainda mais derrotas profissionais. Ninguém é realmente impressionante aos olhos desse escopo, apenas a personagem de Anna Kendrick, a única engrandecida. A conclusão do roteiro, em um dos momentos mais expositivos do cinema musical, mostrando o quão esses roteiristas e essa diretora não se importam nenhum pouco com os seus personagens, coisa que será novamente pontuada mais para frente, basicamente destrói os previamente explicitados conceitos iniciais de que estas pessoas são as fracassados – apesar dos responsáveis ainda acreditarem nisso -, sugerindo uma inerente conquista, mesmo quando o fim é a completa desilusão e desistência de seus sonhos. O próprio roteiro desiste da competição entre grupos, no entanto, nunca desiste dos romances desnecessários e genéricos que contém.

A conclusão de uma trilogia que não precisava ser uma trilogia, muito menos essa trilogia, é certamente um desafio para uma cineasta com pouca experiência – mas parece que era isso o que os estúdios responsáveis realmente queriam, porque é impossível compreender a carência do material, partindo do seu roteiro vergonhoso, senão com a intencionalidade. As representações não-caucasianas são quase figurantes frente às demais ou então vistas de uma maneira quase doentia, como é o caso da cantora que pouco fala, então transformada em uma posse corporal satânica. O filme quer ser o desconstruidor mesmo não sendo – assuma quem você é, ora pois. Uma linha de diálogo indica a homossexualidade de uma personagem menor, ou seja, uma linha apenas e pronto – nenhuma desconstrução, apenas desonestidade. A diversão e os méritos são pontuais, mas A Escolha Perfeita 3 tem ao seu favor a desconstrução de qualquer real virtude.

A Escolha Perfeita 3 (Pitch Perfect 3) – EUA, 2017
Direção: Trish Sie
Roteiro: Kay Cannon, Mike White, Dana Fox
Elenco: Anna Kendrick, Anna Camp, Brittany Snow, Rebel Wilson, Hailee Steinfeld, Ester Dean, Ruby Rose, Elizabeth Banks, John Lithgow
Duração: 93 min

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.