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Crítica | A Espada da Maldição

por Ritter Fan
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Autores que basicamente escrevem a mesma e interminável obra a vida toda e que chegam a infelizmente falecer antes de completá-las são criaturas sem dúvida peculiares, que merecem nossa admiração da mesma maneira que um certo assombro pela tenacidade em simplesmente não largar sua criação por décadas a fio. Se isso é comum acontecer com mangakás, com Kentaro Miura sendo apenas um exemplo recente, vale lembrar, também, que isso já ocorria muito antes na cultura nipônica, especialmente na literatura, com Dai-Bosatsu Tôge sendo um dos mais famosos exemplos.

Afinal, trata-se de uma obra que foi publicada por nada menos do que 31 anos, entre 1913 e 1944, com seu autor, Kaizan Nakazato, falecendo sem encerrá-la e deixando impressionantes 41 volumes como seu legado. Obviamente que uma obra dessa envergadura e que por muito tempo foi considerada a mais longa já escrita não permaneceria apenas na literatura por muito tempo, com sua primeira adaptação cinematográfica ficando ao encargo de Hiroshi Inagaki, com dois filmes em 1935 e, depois, ganhando três trilogias separadas, uma por Kunio Watanabe, em 1953, outra por Tomu Uchida entre 1957 e 1959 e, finalmente, outra por Kenji Misumi e Kazuo Mori em 1960 e 1961.

A Espada da Maldição é, portanto, a quinta vez em que a obra monumental original é levada às telonas, desta feita – e a última até agora – pelo cineasta Kihachi Okamoto que foi praticamente obrigado a dirigir o longa pela Toho depois que a produtora não gostou de seu Satsujin Kyôjidai (conhecido como The Age of Assassins, em inglês), ao ponto de o lançamento ter sido adiado para 1967, mesmo com o filme tendo ficado pronto um ano antes. Toda essa contextualização é necessária porque o trabalho de Okamoto foi planejado para ter continuação (afinal, como um filme de “meros” 120 minutos poderia chegar a arranhar a superfície de uma obra de 41 tomos?), mas ela jamais foi produzida depois que a obra foi considerada violenta demais para o palato da época, o que não só é uma injustiça, como acabou nos privando do que poderia ter sido outro épico de samurai, um com uma pegada raríssima nesse meio, ou seja, subvertendo o que normalmente entendemos como sendo a nobre figura do guerreiro feudal japonês e entregando um longa que não tem exatamente um protagonista, mas sim um antagonista como protagonista, se é que me entendem.

Com roteiro adaptado por Shinobu Hashimoto, o ousado filme de Okamoto gira em torno da jornada de Ryunosuke Tsukue (Tatsuya Nakadai), samurai mestre de uma técnica com espada impressionantemente eficiente, capaz de liquidar seus oponentes com movimentos tão rápidos que são invisíveis, algo que, vale desde já salientar, as câmeras do diretor se esmeram em (não)mostrar, com inteligente uso de ângulos e de uma montagem cuidadosa, milimétrica de Yoshitami Kuroiwa. O problema é que Tsukue é, sem medir palavras, um monstro. Toda a nobreza que as obras de ficção mais famosas que gravitam ao redor dos samurais nos ensinaram a esperar desses guerreiros simplesmente inexiste no que se refere ao protagonista. Muito ao contrário, toda e qualquer dúvida sobre isso é dissipada quase que imediatamente quando Tsukue assassina um senhor de idade peregrino que caminha com sua neta em uma passagem montanhosa, isso depois que o diretor maldosamente investe vários minutos fazendo-nos criar conexão com o velhinho e a jovem.

Na verdade, Okamoto é ainda mais insidioso em sua proposta cinematográfica. Apesar desse assassinato inicial sem sentido algum, ele ainda mantém um bom grau de dubiedade sobre a moral de Tsukue, usando inclusive a morte do peregrino como um elemento que assombra o protagonista, quase que o momento que marca sua virada para o lado sombrio da vida, ainda que isso não seja toda a verdade. Essa balança moral que ora pende de um lado, ora de outro, ganha até mesmo contornos heroicos com Tsukue usando sua técnica em clara legítima defesa ou até mesmo quando apenas observa um mestre samurai liquidar uma horda de bandidos em um ambiente nevado (essa sequência, aliás, é antológica e inesquecível, uma das melhores lutas de espada que já vi em obras cinematográficas, protagonizada por ninguém menos do que o inimitável Toshiro Mifune). Okamoto quer nos dar esperanças de que Tsukue está em um caminho de redenção, de transformação.

No entanto, redenção é algo que passa longe desta fita. Sim, há transformação, mas ela é uma espiral de insanidade, de obsessão e de violência que Tsukue parece não ser capaz de se livrar e, em determinado ponto, não só não é capaz de se afastar, como parece extrair prazer extremo dela. Se uma obra como Samurai, de Shusaku Endo descontroi o samurai que conhecemos por mostrar que existe todo um lado de miséria nesse sistema de castas que nos é escondido pela visão romântica que tomou de assalto o mainstream, Okamoto faz o mesmo, mas desafiando diretamente a retitude moral desses guerreiros que vivem pela espada e para a espada. O próprio título da obra e a abordagem quase mística que o diretor empresta à arma mortal é uma pista disso, colocando a “culpa” pelos atos hediondos de Tsukue em um objeto inanimado como hoje, por impulso, culpamos a arma de fogo e não quem a empunha.

Tatsuya Nakadai é um verdadeiro tsunami em sua interpretação de Ryunosuke Tsukue. Vemos traços de nobreza em seu trabalho, detectamos a vontade legítima que parte de seu personagem parece realmente nutrir, mas notamos que seu lado sombrio e pesado é muito mais forte e que o que Tsukue porventura tem de bom não é capaz de resistir ao demônio que fica em seu ombro e que é representado pela lâmina do título. A escolha de Okamoto em dividir a narrativa em capítulos, com passagem temporal razoavelmente expressiva entre eles, acaba exigindo ainda mais do ator, já que precisamos entender sua involução sem muitas palavras, sem que Okamoto se preste a explicar absolutamente nada, o que pode tornar o filme confuso por vezes, algo que talvez tivesse sido evitado, neste aspecto, por um retrabalho narrativo sem as elipses temporais ou pelo menos com apenas uma ou duas.

Mas, como eu disse, A Espada da Maldição era para ter sido apenas o primeiro longa de uma duologia ou trilogia que, porém, jamais foi produzida. Essa característica da obra não cura o problema que seu final mais do que abrupto inegavelmente cria (ainda que a sequência de luta que leva a ele seja um negócio de outro mundo), mas pelo menos permite alguma contextualização. Ao não exatamente terminar seu filme, esperando que o segundo capítulo viesse logo em seguida (as produções japonesas da época eram feitas a toque de caixa), Okamoto fez uma aposta e, ao meu ver, apostou errado, pois não teria sido necessário muito esforço para dar um semblante de encerramento. Seja como for, com fim ou sem fim, A Espada da Maldição é inegavelmente uma experiência estrondosa, surpreendente e que reúne várias dos melhores embates com espadas que já singrou pela Sétima Arte, o suficiente para dar muita vontade de ler todos os 41 volumes da obra original.

A Espada da Maldição (Dai-Bosatsu Tôge – Japão, 1966)
Direção: Kihachi Okamoto
Roteiro: Shinobu Hashimoto (baseado em romance de Kaizan Nakazato)
Elenco: Tatsuya Nakadai, Yūzō Kayama, Michiyo Aratama, Toshiro Mifune, Yoko Naito, Kei Satō, Tadao Nakamaru, Akio Miyabe, Ichiro Nakaya, Kō Nishimura, Hideyo Amamoto, Kamatari Fujiwara, Yasuzo Ogawa, Ryosuke Kagawa, Atsuko Kawaguchi, Kunie Tanaka, Takamaru Sasaki, Akio Miyabe, Kinnosuke Takamatsu
Duração: 120 min.

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