Crítica | À Espera de Um Milagre

a espera de um milagre plano critico filme

A carreira de Frank Darabont foi fortemente influenciada por Stephen King. O primeiro trabalho de Darabont como diretor, o curta metragem The Woman in The Room, foi baseado em um conto do autor. Em 1994, o cineasta já havia comandado o seu primeiro longa-metragem para o cinema, o excelente Um Sonho de Liberdade (também baseado na obra de King), ganhando reconhecimento crítico. Enquanto procurava um próximo projeto, o próprio Stephen King falou a Darabont sobre o seu próximo livro, que tratava de um homem com poderes milagrosos no corredor da morte. O autor acreditava que Darabont seria o homem perfeito para dirigir uma adaptação, mas este ficou relutante em realizar “mais um filme de prisão”. Meses depois, após ler o romance publicado, Darabont mudou de ideia e comprou os direitos da obra. O resultado é um dos filmes mais emocionantes dos anos 90, e uma das melhores adaptações já feitas de Stephen King.

Na trama, em 1935, Paul Edgecomb (Tom Hanks) comanda o pavilhão do corredor da morte em uma penitenciaria da Lousiana, chamada por ele e por seus colegas de “Milha Verde”, devido a cor do piso. Quando o corredor recebe um novo prisioneiro, John Coffey (Michael Clarke Duncan), um homem enorme condenado à cadeira elétrica por estuprar e assassinar duas menininhas, Paul passa a ficar intrigado por não ver como um homem absolutamente pueril e gentil como Coffey poderia ter cometido tal crime. Quando John começa a manifestar milagrosos poderes de cura, as dúvidas de Paul apenas aumentam.

Escrito pelo próprio Darabont, À Espera De Um Milagre é um filme que não tem pressa em construir o seu universo. Após um prólogo onde um envelhecido Paul (Dabbs Greer em seu último papel) é convencido por uma colega da casa de repouso onde se encontra a contar por que se emocionou ao assistir a uma exibição do filme O Picolino, somos levados ao ano de 1935, onde se passa a maior parte da obra. Durante a primeira hora de seus 188 minutos, o roteiro se dedica a mostrar como é a rotina da “Milha Verde”; quem são os homens que trabalham sob o comando de Paul, qual a filosofia de trabalho que ele emprega, quem são os prisioneiros… enfim, mergulhamos de cabeça nesse mundo, quase como se fôssemos mais um dos guardas. Só depois de nos apresentar de forma detalhada o microverso da Milha Verde, é que Darabont começa a desenvolver a trama propriamente dita. Esse tempo é importante para que entendamos as relações construídas entre os personagens, estando a anos-luz de ser chato ou monótono devido ao carisma das figuras que a obra apresenta.

Uma das vitórias tanto do roteiro de Darabont quanto de sua direção é como ele consegue transformar um cenário mórbido como um Corredor da Morte em um ambiente relativamente amistoso, embora a eminência da morte nunca seja esquecida. O texto é inteligente por não detalhar por que cada um dos prisioneiros está ali, exceto aqueles cujo passado é relevante para a trama, pois aquilo que os condenados fizeram já não importa mais. Eles estão ali e vão morrer, e como se comportam diante do fim é o que importa. A harmonia da Milha Verde é quebrada apenas pelas presenças de Percy (Doug Hutchison) o sádico guarda da prisão que se interessa apenas pelo sofrimento dos condenados, e de Wild Bill (Sam Rockwell), o mais recente prisioneiro do Corredor da Morte, disposto a causar o máximo de problemas possível antes de sua execução.

Nas mãos de um diretor descuidado, um filme com uma carga emocional tão forte poderia facilmente descambar para o melodrama barato. Mas Darabont crê na força de seus personagens e na conexão do público com eles, não apelando para trilhas sonoras estridentes nos momentos de maior intensidade dramática. O cineasta é habilidoso em circular entre diferentes tons ao longo do filme, como a comédia e o suspense, mas que nunca se sobrepõem ou deslocam a proposta dramática e intimista da obra. O longa também possui uma série de subtextos interessantes sobre religião e preconceito, que embora claros, nunca se tornam excessivamente didáticos.

O brilhante elenco que Darabont reuniu foi peça fundamental para tornar À Espera De Um Milagre uma obra tão memorável. O já falecido Michael Clarke Duncan fez por merecer a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante que recebeu por esse filme. Duncan cria um contraste maravilhoso entre a imponência física intimadora de seu personagem, com uma inocência infantil que nos diz que esse homem não seria capaz de machucar uma mosca. A intensidade e a transparência que o ator coloca nos olhos de John em cada cena é arrebatadora. A belíssima cena em que ele assiste ao número Cheek To Cheek do clássico O Picolino é de dar um nó na garganta do público.

Tom Hanks também concede uma humanidade incrível para Paul, tendo uma atuação mais sutil, mas não menos impressionante que a de Duncan. Hanks vive o protagonista como um homem essencialmente justo, que se esforça para ser o mais gentil e humano possível com os condenados sob a sua guarda, mas que também sabe ser duro quando necessário. A crise de consciência a que Paul é submetido à medida em que passa a ter mais dúvidas da culpa de John, que se mostra um “milagre” em muitos sentidos, é perfeitamente transmitida pelo ator, em um de seus trabalhos mais marcantes. Destaco ainda a ótima atuação de David Morse como Brutus, o melhor amigo de Paul; Doug Hutchison como o abusivo guarda Percy, e Sam Rockwell, que está perturbador como o psicótico Wild Bill.

Este filme foi a prova definitiva do quanto Frank Darabont entende o universo de Stephen King, criando um mundo absolutamente crível e corriqueiro (apesar da mórbida presença da morte), para então inserir o elemento fantástico, que apenas reforça a humanidade de seus personagens. Á Espera De Um Milagre é um dos grandes dramas da década de 90, capaz de envolver os corações mais duros em pura emoção, e cuja longa duração sequer é sentida. Uma obra que eu chamo de “Filme Completo”, por ser capaz de fazer chorar, rir, provocar alguns arrepios (sim, me refiro à cena da esponja seca), e nos deixar com um nó na garganta. É curioso que apesar de Stephen King ser considerado o Mestre do Terror, muitas das adaptações mais memoráveis de sua obra são justamente aquelas dedicadas às suas criações de caráter mais dramático e intimista, como pode ser comprovado por esse maravilhoso filme de Frank Darabont.

À Espera De Um Milagre (The Green Mile), Estados Unidos. 1999.
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont (Baseado em Romance de Stephen King)
Elenco: Tom Hanks, Michael Clarke Duncan, David Morse, Bonnie Hunt, James Cromwell, Jeffrey DeMunn, Barry Pepper, Doug Hutchinson, Michael Jeter, Graham Greene, Sam Rockwell, Patricia Clarkson, Harry Dean Stanton, Bill McKinney, Brent Briscoe, Gary Sinise, Rachel Singer, William Sadler, Dabbs Greer, Eve Brent.
Duração: 188 minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.