Crítica | A Esposa (2018)

“Sem essa mulher eu não sou nada.”

Quantas mulheres acabaram sendo diminuídas, com suas carreiras desmerecidas, desacreditas ou desconhecidas, por não serem, ao contrário, homens? Antes de A Esposa, produção aguardada em decorrência da interpretação de Glenn Close, prestigiada, um similar projeto recente a basear-se nesse viés crítico a uma fundamentação da sociedade como alicerceada em valores masculinos foi Grandes Olhos, de Tim Burton, possuindo tons biográficos naquele caso e um antagonismo mais simples em relação ao marido da protagonista. Já A Esposa é uma obra original que urge entender uma personagem em específico, recortada de um arquétipo comum: o da esposa. Se não soubéssemos do que se trataria a obra, premissa presumida pelo título do filme, prontamente aceitaríamos o tratamento secundário à Joan Castleman na recepção de um hotel em Estocolmo, ambientação da maior parte do longa-metragem, no entanto, Björn Runge nos convida a percebermos os incômodos e os supostos confortos e confrontos que abrangem essa forte mulher. 

“Eu não sou uma vítima”, recorrentemente reitera a protagonista. Como sendo, eu mesmo, originado de um relacionamento no qual minha mãe acabou desfavorecendo a sua possível carreira jurídica em prol do crescimento profissional do meu pai, uma pessoa que até então não possuía nenhum diploma, mas, com a ajuda de sua esposa, conseguiu, já na margem de sua velhice, o canudo e a oportunidade de advogar, A Esposa é uma obra que, de certa forma, conversa com as minhas percepções acerca desse tema. Joan Castleman é uma mulher que é questionada a repensar o seu relacionamento com o seu marido, condecorado com o Nobel de Literatura. O amor entre os dois nunca foi verdadeiro? A dependência entre um e o outro é realmente mútua? Björn Runge, cineasta responsável pela obra, já adianta: a mulher fora coagida pela sociedade a escrever pelo seu marido, resignar sua carreira e tornar-se um gênio fantasma. Os papéis do passado até mesmo se inverteram um pouco, mas o “mérito” manteve-se do homem.

O longa é uma composição cinematográfica sobre reconhecimento acima de emancipação, o que não agradará uma percepção mais revolucionária sobre empoderamento. Mas estaríamos sendo anacrônicos e injustos com o recorte estabelecido, pois, em oposição, devemos reconhecer o estudo poderoso que Glenn Close imprime a sua personagem, ainda mantendo-se como uma mulher forte, mesmo que em um papel menos aclamado pelas outras pessoas – a protagonista não quer ser vista como a esposa sofredora, uma vítima, o que ela não é, mas uma guerreira. Joan quer que o seu marido respeite aquilo que ela sacrificou, respeite o seu passado, a respeite. Joan quer que os seus filhos saibam a gigantesca mulher que ela é, não necessariamente o mundo. Os momentos que Close meramente observa o vácuo expõem uma profundidade de sentimentos – as costumeiras discussões, por exemplo, quando entrecortadas por alguma resolução alegre, como a notícia do nascimento do neto do casal, exemplificam as ambiguidades que existiram nessas vidas.

As tantas retomadas de um longínquo passado, por meio de pequenas intercessões à narrativa principal, que recontam algumas das histórias antigas do casal protagonista, entretanto, não consolidam essa complexidade no relacionamento e na intenção do longa-metragem, apesar do encorpo mais original ser desejado pela performance de Close e pela direção cheia de vai-e-vens emocionais, acerca de onde se encaminha as conversas e os pensamentos. Jonathan Pryce é um ator competente, em um ótimo grau de nuances, contudo, o roteiro não compreende graciosidades para além das contradições e dos equívocos do personagem respectivo ao artista. O auge do singelo, em relação ao casal, morre com as duas crianças pulando sobre a cama, comemorando a nomeação ao Nobel, ainda nos minutos iniciais. O antagonismo não é simples, porque nem mesmo deveria existir como existe, mas o roteiro obriga a existência de um. As desavenças paternais também são pouco engajantes e coerentes com a proposta em comprarmos certos sentimentos.

Margeando um amor mais raso do que o compreendido pelas sequências no presente, preenchidas por uma quebradiça vivacidade enxergada consideravelmente como verossimilhante, os inconstantes flashbacks são péssimas maneiras dos responsáveis pelo filme notificarem o seu público de algumas informações cruciais para o entendimento do que foi esse romance problemático, começando da sua gênesis e encaminhando-se ao seu apocalipse. O que poderia ganhar mais camadas, principalmente um amor entre os dois personagens que fosse muito maior do que a carreira artística-profissional conturbada de ambos, apenas contrapõe-se com a ausência de organicidade em certas cenas, como a interação entre a personagem principal e um bebê, justamente a revelação da paixão de Joan pelo seu futuro marido. O interessante Nathaniel Bone (Christian Slater) conseguiria, por si só, movimentar essa ruptura a um status quo supostamente sagrado, incorporando uma noção mais genérica do que absorve pessoas como Joan, contraposta.

Jane Anderson e Meg Wolitzer, no roteiro, em contrapartida, se preocupam com algumas minúcias que podem até parecer ingênuas, contudo, mostram um caráter mais concreto na construção da narrativa, como as inúmeras citações à saúde debilitada de Joe, o pedido de Joan para que o seu marido não a citasse mais nos seus discursos – o que impulsiona o público ao clímax -, assim como as menções aos casos extra-conjugais do personagem, cuidadosamente informando ao espectador de uma tensão prévia a uma consumação de qualquer traição. O que poderia dar margem a um grandes roteiro, porém, é desgastado por causa da inexistência de uma compreensão mais convincente do drama acordado aos sacrifícios do passado. A obra A Esposa, potencialmente pungente e entristecida, é desmanchada nos termos maiores que a presença de Close, contentando-se com uma narrativa que parece ser mais receosa e amedrontada do que é: um romance cheio de estragos, cheio de conflitos, cheio de mágoas, mas ainda um romance real.

A Esposa (The Wife) – EUA, 2017
Direção: Björn Runge
Roteiro: Jane Anderson, Meg Wolitzer
Elenco: Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater, Max Irons, Annie Starke, Harry Lloyd, Elizabeth McGovern, Alix Wilton, Regan Karin, Franz Körlof, Michael Benz
Duração: 100 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.