Crítica | A Esposa Solitária

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O cinema popular da Índia, distribuído em escala industrial pela chamada Bollywood, é a faceta mais famosa da produção audiovisual do país. Não sendo a única, porém, cabe atentarmos às vertentes que se opõem ao entretenimento de massas, pois é certo que encontraremos nessa luta contra a hegemonia de linguagem momentos de excelência que valem a pena ser fruídos. Ora, como fugir, seguindo essa trilha, da merecida fama de Satyajit Ray, o autor, dentre outros, da Trilogia de Apu (1955, 56 e 59) e de A esposa solitária (1964)?

Ray, como Luchino Visconti, nasceu em ambiente de cultivo das artes. Seu avó era poeta e pintor; já seu pai, um eminente nome da história da literatura Bengali. O gosto do jovem estudante pelo cinema e o desenvolvimento de uma apaixonada cinefilia não demoraram a vir, fã que era do cinema americano e do neorrealismo italiano. A criação de um cineclube, o contato com Jean Renoir (que filmava em Bengala, nos princípios da década de 50, seu Rio Sagrado) e a influência decisiva da magnum opus de De Sica, Ladrões de Bicicleta, foram fundamentais para engajá-lo na realização de filmes. Eis que sua estreia, entretanto, foi tudo menos ingênua: A Canção da Estrada (1955), um dos melhores primeiros filmes da história, ganhou prêmio em Cannes e, assim, ganhou o mundo.

Já podemos notar nessa obra de debutante algo que persistirá na sólida filmografia de Ray e que encontrará em A Esposa Solitária um ápice de qualidade. Um primeiro ponto é a condição da mulher numa sociedade machista, onde divide-se sexualmente o trabalho. Outro aspecto, talvez tributário do gosto pictórico da família do diretor, é a lucidez na construção dos quadros, sempre significativos, harmônicos sempre. Mas o que mais chama a atenção, agora num nível abstrato e moral, é a postulação de um humanismo à la Rossellini ou Kiarostami. Imprime-se na película a existência profunda de cada personagem, no que ela tem de belo e ambíguo; esgaravata-se também a penúria e o sofrimento, na contramão da vontade das autoridades oficiais, que buscavam impedir que as contradições sociais fossem denunciadas nas telonas.

Mas entremos em A Esposa Solitária já esclarecendo que as desigualdades de renda não terão tanta importância. Charulata (Madhabi Mukherjee) e Bhupati Dutta (Shailen Mukherjee) são um casal da elite. Os primeiros planos escancaram a solidão indicada pelo título: Charu, entendiada como uma personagem flaubertiana ou como a Luisa de Primo Basílio, não decide que fazer, ora bordando, ora lendo, algumas vezes bisbilhotando os passantes na rua. Por outro lado, Bhupati ocupa-se da publicação de seu jornal político, “A Sentinela”, que ataca o domínio do Império Britânico sobre a Índia (o enredo se passa em 1870). Quem conhece literatura realista do século XIX já espera o que vem por aí: a chegada de um outro, mais exatamente um familiar do marido, vai abalar o cotidiano enfadonho do casal, lançando a esposa num turbilhão de emoções.

Amal (Soumitra Chaterjee, que interpreta Apu no último filme da Trilogia) é essa nova figura que chega com a força de um tornado. Quase literalmente, uma vez que no momento de seu aparecimento a natureza, prefigurando os eventos, encontra-se em tormenta. Esse jovem estudante é um antípoda perfeito do marido absorvido por querelas políticas; amante da poesia, boa-vida e sensível, ele acaba por se aproximar de Charu, viciada nas narrativas amorosas de autores à época populares em Bengali, como Bankim e Manmatha Dutta. Se Bhupati está sempre indisponível, Amal pode, por sua vez, conversar sobre temas líricos e instigar a mulher a começar a escrever.

A citação, acima, da obra de Eça de Queirós pode dar uma impressão equivocada. Que fique claro que o idílio está bem longe de descambar no adultério e no amoralismo. Tudo é tratado com senso de pudor; no jogo dos sentimentos predomina antes o recato que o ímpeto. Um plano sequência belíssimo, certamente inspirado em Um Dia no Campo (1946), acompanha o vai e vem de Charu sentada num balanço. Seus desejos estão estampados no rosto, mas com tanta delicadeza, com tanta ternura, que fica impossível confundir seus dilemas morais com qualquer espécie de desejo animalesco.

A oposição entre Amal e Bhupati chega às vezes a ser demasiado esquemática. O segundo valoriza o senso prático, as grandes narrativas políticas. Para o primeiro, mais vale a disposição anímica, o estado da subjetividade. História versus Arte, em suma, como se os dois termos fossem inconciliáveis e como se, vejam bem caros leitores, um dos editores deste Plano Crítico, dedicado às artes, não fosse ele mesmo formado em História. Há entre os personagens um diálogo bastante cômico, no qual Bhupati não consegue compreender formulações poéticas como “a escuridão do sol” e “a luz da noite sem luar”. O editor do jornal é aquele tipo de gente que Nelson Rodrigues chamava de “idiota da objetividade”. Frente a frente com construções frasais em oxímoro, ele não consegue desprender-se dos grilhões da lógica, sendo estéril às metáforas. Se sua tibieza é divertida, a inteligência da trama perde um pouco, pois qualquer possibilidade de complexidade subjetiva é esvaziada (o mesmo acontece, por outra parte, com o próprio Amal).

Em compensação, a construção psicológica de Charu é impecável. O mais interessante é a relação simbiótica entre seu drama a constituição do espaço. O filme se passa quase inteiramente dentro da casa que, muito embora grande e opulenta, torna-se claustrofóbica pela inclusão ostensiva de pilastras, grades e gaiolas no quadro. O uso da profundidade de campo, sobretudo no terço final do filme, tem causalidade impressionante: por um lado expande longitudinalmente o lar, isolando ainda mais a protagonista; dispõe, ademais, vários personagens no mesmo plano, sugerindo entre eles relações secretas, apenas sugeridas, nunca explicitadas. Se havia algo de simplório em Amal e Bhupati, o roteiro de Esposa Solitária, escrito pelo próprio Satyajit Ray e baseado na narrativa de Rabindranath Tagore, acerta em cheio com Charu, o que evidentemente deve muito à ótima atuação de Madhabi Mukherjee.

A personagem principal, até então relegada a uma posição ancilar, encontra em Amal uma possibilidade de libertação subjetiva e objetiva. A princípio considerava-se incapaz de escrever, mas supera o recatamento através de uma narrativa autobiográfica, que chegou a ser publicada numa revista de grande circulação. No momento de êxito, não à toa, seu cabelo até então preso está solto, demonstrando força quase selvagem. Essa afirmação permite que em momento posterior ela sugira ao marido a participação no jornal, que poderia incluir, por que não?, uma seção literária.

Ocorre que a desestruturação do ninho familiar é acelerada por uma traição. Não uma traição, como se poderia imaginar, da esposa, mas do cunhado de Bhupatti, que rouba o dinheiro reservado à sobrevivência do jornal “A Sentinela”. Após o ocorrido Amal, que não quer ser mais um a quebrar a confiança de Bhupatti, afasta-se da família e principalmente de Charu. Sem querer, o marido entrevê pela porta a tristeza da mulher e consegue perceber tudo o que se passara. O final do filme deixa em suspenso se haverá ou não uma reconciliação entre ambos. As imagens param de correr e viram fotos a captar e potencializar a indefinição. Mais do que isso, resta saber se esse homem politizado, com olhos para a libertação nacional e os grandes temas internacionais, se sensibilizará com o drama de quem está sob seu nariz.

Vencedor de prêmios no Festival de Berlim, o filme pode ser uma ótima porta de entrada para quem não conhece os diretores indianos. Vale a pena visitar Satyajit Ray, cuja filmografia, longa e cheia de talento, contribui para enriquecer o repositório de obras-primas da sétima arte.

A Esposa Solitária (Charulata) – Índia, 1964
Direção: Satyajit Ray
Roteiro: Rabindranath Tagore (obra literária), Satyajit Ray
Elenco: Soumitra Chaterjee, Madhabi Mukherjee, Shailen Mukherjee, Shyamal Goshal, Gitali Roy, Tarapada Basu, Dilip Bose
Duração: 117 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.