Crítica | A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo

A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo plano critivo filme

Com o título chamativo e giallo-raiz de A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo, o casal Hélène Cattet e Bruno Forzani chega ao seu segundo longa-metragem com uma proposta que continua homenageando as obras do gênero italiano que tanto admiram, mas assumidamente abraçam elementos de Brian De Palma e David Lynch, o primeiro na condição entre estética e drama investigativo (a parte menos elogiável da fita) e o segundo na esfera onírica e simbólica.

Dito isto, o espectador não deve se esquecer que a proposta aqui é uma viagem estética, acima de tudo, sendo que através dela os cineastas pretendem contar a história de um homem chamado Dan Kristensen (Klaus Tange) que chega de viagem e não encontra sua esposa em casa. A partir daí começa a sua via crucis pela procura da esposa, com uma investigação nada eficiente, visitas misteriosas e macabras aos seus estranhos vizinhos e a ocorrência de fenômenos que confundem cada vez mais o personagem, a ponto de em determinado momento ele não conseguir distinguir o que é sonho e o que é realidade.

Com uma porção de referências contidas na trilha sonora a filmes como Tão Doce Quanto PerversaO Ventre Negro da TarântulaA Breve Noite das Bonecas de Vidro, Torso, etc., além de uma aproximação curiosa com O Estranho Vício da Senhora Wardh (1971) este filme é uma verdadeira viagem pelas percepções. Ele mexe com a visão do protagonista, que está o tempo inteiro sofrendo alucinações e essa percepção alterada dele também interfere na nossa, tornando o roteiro confuso (no sentido positivo e negativo, dependendo do momento) e exposto de forma não-linear, o que normalmente torna o filme mais difícil de se compreender. A questão aqui é não querer buscar respostas para tudo. Mesmo não sendo um filme surrealista, A Estranha Cor… é uma jornada de sensações, com eventos durante uma investigação malfadada que capturam personagens e público nessa teia de mortes violentas coberta por um tsunami de cor e hiper-estilo na direção.

Normalmente os desafetos classificam o projeto como “cheio de excessos“, algo que eu entendo, mas não necessariamente concordo. O que pesa para o filme, na minha leitura, é algo que também vimos na película anterior dos diretores, Amer (2009): a falta de solidez na reta final, o que no presente caso culmina numa estranha sensação de muita coisa deixada solta. Como trabalha com diferentes camadas e em tempos distintos, o roteiro precisava agrupar melhor as informações no final, para colocar a parte pseudo-freudiana nos eixos. O fato é que o assassino tem esse trauma de infância por ter visto uma vagina sagrando e, diante da fuga dessa persona que lhe atiçou a libido e ao mesmo tempo o traumatizou (a famosa Laura tão citada na segunda parte do filme), ele se realiza com jogos sexuais, matando de um jeito bastante peculiar — notem o formato vaginal deixado pela ferida na cabeça das vítimas.

Se fosse um pouco mais curto e conseguisse alinhar bem todas as propostas desenvolvidas, A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo seria imbatível. A obra conta com uma soberba direção de fotografia, uma montagem que consegue passar a sensação de irritabilidade progressiva do protagonista e uma direção que ousa e sabe ser muito criativa. Não é um filme que agradará todo mundo, especialmente pelo seu final, mas uma coisa é certa: não haverá aquele que diga que este filme não foi uma insana viagem visual.

A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo (L’étrange couleur des larmes de ton corps) — Bélgica, França, Luxemburgo, 2013
Direção: Hélène Cattet, Bruno Forzani
Roteiro: Hélène Cattet, Bruno Forzani
Elenco: Klaus Tange, Ursula Bedena, Joe Koener, Birgit Yew, Hans De Munter, Anna D’Annunzio, Jean-Michel Vovk, Manon Beuchot, Romain Roll, Lolita Oosterlynck, Delphine Brual, Sam Louwyck, Sylvia Camarda, Ann de Visscher, Michael Fromowicz
Duração: 102 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.