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Crítica | A Estranha Maldição, de Dashiell Hammett

por Luiz Santiago
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Assim como fora com Seara Vermelha, A Estranha Maldição foi originalmente publicado em quatro partes na revista pulp Black Mask, sob os seguintes títulos: Black Lives, The Hollow Temple, Black Honeymoon e Black Riddle. Na versão completa do livro, que saiu pela Alfred A. Knopf em 1929 (mesma editora de Seara Vermelha, publicado no mesmo ano), o leitor se viu diante de uma narrativa em três partes. A primeira e melhor delas, The Dains (dos capítulos um a oito). A segunda e relativamente interessante, The Temple (capítulos nove a doze). E a terceira e desnecessariamente alongada, chateante e maior responsável por derrubar o livro para a média, Quesada (capítulos treze a vinte e três).

Nesta aventura, o Continental Op faz as vezes de investigador segurador, atendendo a um caso de roubo de diamantes na casa da família Leggett. A história começa de maneira simples, mas muito cativante. A chegada e as observações iniciais do detetive atiçam a nossa curiosidade pelo roubo, que através da escrita arguta de Dashiell Hammett ganha um bom número de camadas e possibilidades num curtíssimo espaço de tempo. E melhor ainda: nesse início temos um tom de humor e cinismo que nos faz rir consideravelmente a cada bloco, às vezes também com um pouco de culpa ou até com desconfiança diante da atitude de um suspeito ou de uma fala do Continental Op para alguém.

A escalada dramática também é muito interessante. A entrada de novos personagens e as viradas bruscas na condução da investigação mantêm ativo o nosso interesse, fazendo da primeira parte do livro uma excelente jornada investigativa com direito a crimes passionais, remorso, treinamento para matar e uma dose cavalar de sangue frio e ódio. Essa parte inicial da história merecia ser uma novela separada e ganhar o máximo de aplausos possíveis, pois revela a habilidade de Hammett em escrever sobre coisas aparentemente simples mas com caminhos tão tortuosos e tão violentos que nos espanta (nada, porém, chega perto da carnificina ao fim de Seara Vermelha, é sempre bom lembrar).

A segunda parte do livro, assim como a terceira, falam de momentos investigativos distintos, ambos ligados a Gabrielle Leggett. O autor faz com que tudo pareça pormenorizadamente amarrado, mas termina dando um nó cego na própria história, complicando demais o que não precisava ser complicado e criando eventos anteriores que, se estivéssemos numa trama mais fluída, que já não tivesse contado com duas situações de clímax, certamente teria um sabor diferente.

Quando o povo esquisito do Templo do Culto do Santo Graal entra em cena, o livro ganha um outro tom e o título “Estranha Maldição” passa a fazer maior sentido — embora a gente já pudesse entender essa ‘maldição’ como a linha de sangue que regou a família protagonista por muitos anos. Existem momentos nessa segunda parte que lembram um filme de terror, algum giallo de Dario Argento ou algo do tipo. A mistura de ingredientes místicos com assassinato e drogas cria uma atmosfera de “casa de ópio”, e durante a leitura me trouxe à mente alguns momentos de The Talons of Weng Chiang e até mesmo de O Lótus Azul, mas tudo com a cara cosmopolita de São Francisco e numa linha de abordagem bem crua, inclemente.

Embora a segunda parte não chegue perto da qualidade da primeira, acaba trazendo algo para a trama dura de detetive. Já o mesmo não podemos dizer da terrível parte final. O conceito para ela é inteligente, isso é verdade. O autor procura fazer uma explicação geral a partir de um outro ponto de vista, mostrando como um determinado personagem “estava agindo nas sombras o tempo todo, desde há muito tempo“. O problema está na colocação dessa grande importância numa parte da obra que parece ser outro livro. Não há uma boa cadência para que cheguemos a este momento e, para piorar, trata-se de um bloco muito longo, cheio de repetições de cenas para o leitor saber exatamente do que o autor estava falando… enfim, uma complicação demasiada para uma história que já tinha tido a sua dose de complicação duas vezes bem explorada. Não era necessário uma terceira.

A Estranha Maldição concentra uma tríade de mistério abordada por diferentes ângulos. Em apenas uma delas o autor é muito feliz, e a última depõe contra a própria qualidade do volume, o que é uma pena. Ainda assim posso dizer que vale conferir essa aventura do Continental Op, não apenas porque a investigação sobre o roubo dos diamantes é excelente, mas porque mesmo nos piores momentos do livro o leitor ainda vai encontrar o mínimo de cenas proveitosas. Afinal de contas, é de Dashiell Hammett que estamos falando.

A Estranha Maldição (The Dain Curse) — EUA, 1929
Autor: Dashiell Hammett
Publicação original: Black Mask (novembro de 1928 a fevereiro de 1929)
Edição original completa: Alfred A. Knopf
Edição lida para esta crítica: Abril Cultural, 1984
Tradução: Wilson Velloso
260 páginas

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