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Crítica | A Excêntrica Família de Antonia

por Fernando JG
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Naquele fatídico dia, Antonia (Willeke van Ammelrooy) acorda já sabendo que será o seu último. Sem muito tempo para remoer algo que era esperado, a protagonista levanta com firmeza da cama, olha-se no espelho, ajeita o cabelo e, consciente de que aquele é seu instante final, diz: “é. Chegou a hora de morrer”. Como uma matriarca que criou e cuidou de quatro gerações de mulheres independentes, uma seguida da outra, e que agora é bisavó, Antonia finalmente descansa depois da exaustão que é a vida nada fácil de uma mulher europeia no pós guerra. Mas o que exatamente significa para a história do cinema, e do ponto de vista feminino, uma cineasta narrar sobre cinco gerações de mulheres campesinas? 

O signo da liberdade é o carro forte do longa-metragem e representa, no espectro da significação da obra, a criação de uma linhagem de mulheres cuja intenção é performar como a um espelho sobre aquilo que ela mesma, a cineasta, acredita ser a virtuosidade do feminino: a multiplicidade do ser mulher, permitindo às suas personagens o prazer de ocupar distintos papéis sociais, colocando-as para se refletirem mutuamente nos mais variados lugares, como num jogo de espelhos, mas aqui a mulher é o único referencial. 

Um debate tão frequente na arte em geral diz respeito ao aspecto feminino de uma obra. Muito se discute sobre a validade e a existência de uma  “escrita feminina” na literatura, por exemplo. Enquanto alguns defendem a ideia de que há, sim, uma escrita de gênero, outros acusam essa posição de estabelecer uma divisão e uma guerra entre os pares. Apesar de ser um debate polêmico e que move com vicissitudes, afinal, não há só preto e branco no arco-íris, percebo, por mim, a presença do dado “mulher” dentro da construção do enredo deste filme. Assim como há aspectos que evidenciam a escrita feminina na literatura, há, em A Excêntrica Família de Antonia, um olhar sobre o feminino que vem de uma experiência genuína do ser uma mulher no contexto ocidental europeu.

Marleen Gorris, que também é a roteirista, está muito distante de entender o gênero como algo abstrato, como se o feminino fosse algo indefinido e maleável. A mulher, segundo Marleen Gorris, existe de modo concreto, com todos os signos do que socialmente a caracteriza, e é por conta disso que suas heroínas sofrem da violência de gênero, apesar de tentarem driblá-la a todo momento. Este filme amplia a noção de “estudo de personagem” e conclui, no fim, um estudo sobre a mulher na ficção.

Muito embora reafirme essa existência empírica de suas personagens e os seus lugares sociais, a cineasta reflete também um outro lado da moeda, que é a radical independência dessas protagonistas em um vilarejo em que “a voz dos homens se destaca diante do silêncio das mulheres”. A peça fílmica de Gorris experimenta uma tensão e uma força potentes na construção dessas heroínas, oferecendo-lhes uma postura de firmeza e autoridade, contrastando com a presença dos homens da vila.

Há uma especificidade na composição estilística do filme, cuja atmosfera cria um universo próprio, uma bolha forjada pela cineasta para retratar a vida dessas mulheres. O tratamento que há no trato dessas cinco gerações de mulheres é, também, singular, e o plano de desenvolvimento da trama acontece como se estivéssemos a desvendar bonecas russas, como uma caixa-dentro-da-caixa, em que cada vez que retiramos a primeira encontramos uma outra. O que quer Marleen Gorris com este traço estilístico? Em cada camada há uma distinta face do que é ser mulher – e isso está muito bem colocado enquanto dado compositivo, ou seja, como uma característica técnica que é utilizada para dar tratamento ao tema. Além disso, o aspecto de conto de fadas e do “maravilhoso” estão presentes ao longo do filme, o que tira um pouco do peso de assuntos tão graves como o de uma criança, a neta de Antonia, que é violentada por um rapaz da comunidade local.

A utopia criada pela cineasta se destaca positivamente, afinal, o papel do cinema é justamente esse: narrar o verossímil, o possível, mesmo que, ainda com um pé na realidade, seja impossível de se realizar. Apesar deste manifesto utópico sobre a independência feminina ser bem trabalhado enquanto tema, vejo como um ponto negativo a combinação do fantástico com o drama. O tom que o enredo iniciava, por meio de um niilismo poético, deveria ser mantido no desenvolvimento da trama sem, por exemplo, introduzir as visões da filha de Antonia, que, aliás, está bem grandinha para ter amigos imaginários, não contribuindo em muita coisa para o destaque da trama. 

Com uma forte melancolia impulsionada não só pelos fatos narrativos da família de Antonia, mas também pelo efeito “pós-guerra”, que tem no personagem Dedo torto (Mil Seghers) o principal representante dessa vertente, esse “meio tom” do ritmo narrativo combina com a fotografia do longa, que tem essa estética holandesa por excelência, com cores barrocas e escurecidas. 

O filme começa pelo final e encerra retomando o começo, como num movimento circular, como a própria ideia do “milagre da gravidez”, em que de uma vida surge outra, evidenciando um feminino que não é estático, mas fundante. Antonia é a leitura quase mítica de Marleen Gorris sobre essa entidade divinizada que é a mulher, ficcionalizando o ideal por meio da beleza fílmica. 

A Excêntrica Família de Antonia (Antonia, Países Baixos, 1995)
Direção: Marleen Gorris
Roteiro: Marleen Gorris
Elenco: Willeke van Ammelrooy, Els Dottermans, Veerle van Overloop, Jan Decleir, Dora van der Groen, Esther Vriesendorp, Carolien Spoor, Thyrza Ravesteijn, Mil Seghers, Elsie de Brauw, Reinout Bussemaker.
Duração: 102 min. 

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