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Crítica | A Expansão, de Ezekiel Boone

por Leonardo Campos
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No desenvolvimento irregular de A Colônia, romance sobre a devastação do planeta diante de um apocalipse aracnídeo, o escritor estadunidense Ezekiel Boone testou a fórmula do suspense policial e dos filmes de ação para transformar a sua história numa frenética luta do bem contra o mal, da humanidade contra as forças destrutivas da natureza. A tentativa falhou, haja vista o número de personagens e o excesso de subtramas para retratar, sob diversos pontos de vista, os ataques das aranhas nos Estados Unidos, em diversas partes do continente europeu, no lado ocidental do planeta, numa trama de horror global que transformou os humanos em seres pequenos e incautos diante de tamanha ameaça. A proposta funciona para os mais pacientes, mas os excessos já mencionados e o marasmo de passagens que não acrescentam nada ao conteúdo, só enrolam, tornou a leitura de suas quase 300 páginas numa missão um tanto sacrificante.

Um dos motivos alegados no texto anterior foi a postura de iniciante do autor no campo do romance, afinal, até então, Ezekiel Boone havia assumido apenas contos, estrutura narrativa de menor densidade narrativa no que tange aos elementos estruturais, mas que pode ser mais complexa que um romance volumoso. O treino na estreia, por sua vez, não adiantou muita coisa para o escritor que na continuação, isto é, no segundo capítulo de sua trilogia, demonstrou retrocesso ainda maior na dinâmica de sua ação, com personagens ainda rasos, diálogos clichês demais, trechos longos e envoltos numa teia que só prende mesmo quem ocasionalmente tenha se identificado com o estilo de escrita de Boone. Focado na resolução dos problemas e na busca, em todas as frentes, por algo que consiga exterminar a rizomática extensão das aranhas, A Expansão é entediante por deixar os aracnídeos de lado e perder tempo demais em diálogos estéreis e óbvios.

Na Califórnia, as pessoas construíram abrigos. A Casa Branca adota o protocolo mencionado e se torna alvo de críticas, mesmo que alguns achem a postura a alternativa mais viável de contenção. Em Minnesota, um policial utiliza fogo como artificio para afastar tais monstros, alternativa que funciona, mas não dá conta do volume de aracnídeos esparramados pelos quatro cantos da cidade. Aliás, esse se torna o foco das pessoas que estão engajadas na luta: encontrou ovos, incendeia! A história que se inicia dois dias após os acontecimentos finais de A Colônia agora possui milhões de pessoas mortas, outras com seus corpos transformados em acampamento para os aracnídeos. As devoradoras de carne seguem numa marcha sangrenta e agoniante, cada vez mais imbricadas nas entranhas dos territórios de vários países. Zonas rurais e litorâneas agora também são alvo desses seres pequenos, mas com força avassaladora, protagonistas de um extenso rastro de morte.

Em Los Angeles, o caos está estabelecido, como já era de se esperar. Maryland traz a pesquisadora do anterior tentando compreender o interesse das aranhas ao devorar os seres humanos, questão que ainda não ficou clara. A bela promessa da abertura, com a cena do jovem aventureiro que chega num local e é eliminado sem delongas pelos habitantes do lugar, haja vista a possibilidade de ser um hospedeiro, é uma falsa esperança para quem espera mortes, gritos de horror e sensações de pavor para o nosso medo atávico de aracnídeos. Há alguns poucos momentos, não suficientes para as quase 300 páginas do romance. Depois de tantas baixas e a descrença da população na resolução da crise, restou aos civis também entrarem com algumas ações para salvar as suas respectivas vidas. A passagem no estádio, com a incineração de alguns hospedeiros é até empolgante, mas não dá conta de alimentar nosso anseio por ação ao começar a leitura de A Expansão um romance apenas abaixo mediano,

A Suma de Letras é a editora do segundo livro, em processo de organização do terceiro e último romance da trilogia, publicações bem convenientes e atmosféricas para representar o cenário de pandemia e histeria do planeta face aos desdobramentos da covid-19. Novamente traduzido por Leonardo Alves, em 2017, A Expansão foca nas pesquisas científicas e nos testes com métodos para a destruição efetiva dos temíveis aracnídeos que transformaram o mundo num lugar de convivência repleta de animosidade e com pessoas cada vez mais desconfiadas do “outro”, representantes cabais do perigo, possíveis hospedeiros para esses monstros de oito patas que apesar de conhecermos como criaturas solitárias, aqui deixam qualquer especialista em gestão de negócios e administração boquiabertos, tamanha o cuidadoso trabalho em equipe das antagonistas. O grande problema é que os ataques são parcos e rápidos. Falta muita emoção.

E, sem emoção, um romance sobre aranhas devastadoras não consegue ter muito o que dizer, combinado? Agora, dentre as missões, a presidente dos Estados Unidos, nação que centraliza os acontecimentos, solicita que algumas regiões adotem o protocolo espanhol. O que isso quer dizer? Simples: desmembrar as conexões do território entre estradas, pontes e afins, tendo em vista criar algumas “ilhas de segurança”. É uma devastação sem precedentes na história atual da civilização, situação que mudará para sempre as relações econômicas, sociais e políticas em escala global. No desfecho, quando todos imaginavam que as coisas estariam resolvidas, mais uma misteriosa bolsa de ovos é encontrada. A ameaça agora será ainda maior, ao menos é o que se prevê. Os personagens que aqui fazem o mesmo do livro anterior, devem retornar para Zero Day com as mesmas características superficiais e arquetípicas. Basta aguardar o lançamento.

A Expansão (Skitter, Estados Unidos, 2017)
Autor: Ezekiel Boone
Tradução: Leonardo Alves
Editora no Brasil: Suma de Letras
Páginas: 284

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