Crítica | A Família Addams (1991)

A Família Addams, em seu espírito, carrega a graça de uma normalização da esquisitice. Nesse processo constante de transformar o evidentemente estranho em algo normal, passa-se por várias quebras de expectativas, e daí vem o humor. O diretor Barry Sonnenfeld realmente entendeu esse espírito, com seu teor televisivo e boa impregnação de pequenas piadas ao longo da história. No entanto, em sua objetividade ao tratar de maneira esquizofrênica a família icônica, ele escancara a dialética com o normal e fica refém da iconização para tratar o drama.

Quando o aspecto festivo do Natal é a primeira cena que reflete a realidade do filme, especialmente com um coral cantando músicas natalinas na rua, instigando emotividade da data que pode transformar famílias, o efeito da câmera misteriosamente se desagrega dos cantantes, movimentando-se para mostrar um terraço de uma casa com a Família Addams. Já se suspende o ponto aterrorizante ao mostrar a família desse jeito, um terror para quebrar a convenção natalina, mas que logo é visto como amigável pela entrada dos créditos com a trilha sonora de Marc Shaiman. Partindo disso, a estranheza invoca-se apenas em mostrar um caldeirão da vovó bruxa e uma risada macabra dos Addams diante do coral.

Estabelece-se aí a relação da família acima dessas naturalizações da sociedade, que eles são diferentes e o mundo deles é diferente; com um lar ao lado do cemitério, um carro de décadas atrás, um mordomo que parece Frankenstein e uma mansão viva em sua maneira de receber visitantes, desde do portão à comida servida na mesa. Cada descrição da casa é física e acontece em ação com os personagens. É como se fosse um telefilme onde há muita necessidade de entregar um tapete de urso polar que morde pernas e uma biblioteca com títulos que indicam mais que uma leitura passiva. Não é à toa que o primeiro visitante colocado na trama seja o advogado da família, teoricamente acostumado com a casa, mas sempre tropeçando ou explorando algo novo.

Apesar dessa introdução rápida e em lógica bem contextualizada, o filme passa a confundir normalização contínua com acomodação. Quando o diretor demonstra como o patriarca da família, Gomez Addams, trata tudo na brincadeira, soa mais como um reforço infantil de traduzir a esquisitice da casa, ou também como o advogado tenta sempre reagir sem medo, embora assustado. Ao longo da obra, o caráter estranho não é mais tomado como diferenciação e sim como mero humor que busca incomodar algum personagem, não quebrando a expectativa de como se acomodar naquele mundo da família, como a esquisitice cômoda é escancarada.

Até certo ponto, essa demonstração direta parece subversiva dentro da limitação naturalmente imposta pelo tratamento da marca televisiva, em que há algum ou outro plano-holandês (entortamento do eixo da câmera em variações de 45 graus para mais ou menos) para caracterizar estranhamento, e há uma inversão total da imagem de cabeça para baixo para situar um ponto importante da narrativa. Entretanto, essas quebras para a introdução dramática se canibalizam quando o teor do estranho já está arquitetado.

Toda a principal história do falso tio Fester e do personagem interpretado pelo ator Christopher Lloyd (Dr. Brown do De Volta para O Futuro), perde impacto dramático dentro da família Addams. O personagem por si só já é esquisito, o que em parte seria um exercício de encontro ao viver com os Addams, acarretando numa transformação. Não é a toa que ele engatilha mais e mais piadas estimulantes no filme, pois vai tirando “armadilhas” para pessoas normais. Lloyd também reage muito bem às piadas construídas na casa, o que ajuda a tornar sua figura esbranquiçada convincente em ser humanizada.

A base de transformação, ou do encanto do personagem, é em como ele se acomoda pela conveniência da curiosidade nos Addams e pelo apego que os espectadores podem ter a ele, assim como as crianças, que sempre estão dispostas a morrer em brincadeiras risíveis. Processo semelhante se vê com o pai que enxerga realmente tudo como um playground ou com a mãe Mortícia, que sempre tem um ar misterioso (o diretor coloca luz nos olhos da personagem para trazer à tona a icônica imagem das bruxas sensuais de filmes antigos). Ou seja, o ponto crítico do filme é uma reafirmação dos personagens, que em vários diálogos tentam ser engraçados por serem estranhos. O diretor se torna refém dos ícones quando eles se tornam esquisitos enquanto a dimensão natural da sociedade é confrontada, e não na mensagem de aceitação incondicional, que por si só faz parte da esquizofrenia deslocada, comentada por uma falsa psicóloga no filme.

A diversão e o humor clássico televisivo vão ganhando espaço quando se coloca em curtas cenas os integrantes da família numa escola, em uma entrevista de emprego ou em uma venda de sucos na rua, e principalmente quando a mão viva vira entregadora. Em par com essa dinâmica, em momentos particulares de atuação ou de humor mórbido destoante, o casal Gomez e Mortícia enfrentam a classificação indicativa na sugestão sexual bem escrita e testada alguns anos antes em filmes de Tim Burton com a roteirista Caroline Thompson (Edward Mãos de Tesoura) e o roteirista Larry Wilson (no irreverente Beetlejuice) enquanto as crianças, especialmente a personagem Wednesday Addams, interpretada por Christina Ricci, junto com o irmão, traduz bem a esquizofrenia que o diretor implementa na tentativa de tornar a necromancia e o misticismo parte da infânciaQuando menos se espera, os personagens mirins aparecem dormindo nos locais mais inusitados, fogem da narrativa e surgem do nada com um olhar gélido ou segurando uma placa gigante que provoca ruídos de carro dentro de casa. Não por acaso que o falso tio Fester faz sua grande decisão dramática no filme quando resolve ajudar as crianças, mas pouco se é possível aproveitar disso.

Em geral, fica tudo descarado na volta da marca televisiva aos cinemas, no começo da década de 90. No período em que o preto, o creep e o bizarro iniciavam a moda, em que as artes plásticas passaram por uma renovação estrutural de enxergar possibilidades no protesto, o evento Família Addams toma forma num grande impasse em se mostrar subversivo no ambiente controlado, ou apenas um objeto que segue a onda de retomar estranhezas que se aplicavam no seu tempo. Diante da falta de escrúpulos de seu material, o resultado se torna passável, agradando muito mais pela reciclagem bem contextualizada e vendida dos ícones do que de fato pela articulação dramática proposta… ou por sua comédia de esquetes afiada, quebrando tabus sem parecer apenas descrições introdutórias de uma família amavelmente estranha.

A Família Addams (The Addams Family) – EUA, 1991
Direção: Barry Sonnenfeld
Roteiro: Caroline Thompson, Larry Wilson
Elenco: Anjelica Huston, Raul Julia, Christopher Lloyd, Dan Hendaya, Elizabeth Wilson, Judith Malina, Carel Struycken, Dana Ivey, Paul Benedict, Christina Ricci, Jimmy Workman
Duração: 99 min.

DAVI LIMA . . . Depois de uma onda de experiência na infância com Terror e Comêdia Romântica ao lado da irmã cinéfila, fui transferido para uma Galáxia Muito Muito Distante, Há Muito Muito Tempo Atrás. A Força conhecida inspirou comentários sobre várias obras artísticas, porém foi preciso ter um contato com alienígenas de uma língua circular e entender que existe brasilidade em Star Wars que compreendi que o fracasso é o melhor professor para melhorar a argumentação. Então Roger Ebert ensinou que o cinema é uma máquina de empatia e Hans Rookmaaker mostrou que a estética vem do Divino. E cá estou aqui, tentando entender os mistérios da forma e do conteúdo para formar a arte, e estudando como pesquisar e lecionar História para compreender como a temporalidade faz mais obra prima que textos críticos. Sempre firme e forte para duvidar de um filme, até mesmo se for do Steven Spielberg, e apreciar o audiovisual na mesma medida.