Crítica | A Família Addams 2

Pugsley Addams: Nossos pais também estão tendo um bebê. 

Wednesday Addams: Eles fizeram sexo.

Neste segundo filme, o diretor Barry Sonnenfeld encontra a loucura esquisita da Família Addams como engrenagem para piadas que quebram tabus criarem uma história de encanto cômico pela descoberta constante, quase eterna, da estranheza. Vai tudo surgindo de maneira aparentemente aleatória para a quebra de expectativa, mas com um refinamento cinematográfico de cada cena como possibilidade de uma bizarrice surpreendente, física ou verbal.

Todo o caráter dessa obra é aberto a constante reinvenção, estabelecendo em seu universo uma agilidade envolvida com o tempo cômico. O sentimento é como se não houvesse pausas, então cada virada de câmera mais lenta ou mais rápida serve para revelar uma nova piada contextual em que a Família Addams se encontra. Soa como interminável, pois no cerne cultural da instituição familiar as possibilidades de relacionamentos já são variadas e especialmente com esses protagonistas estranhos elas se expandem em variáveis para uma comédia contínua. Quando se reconhece que cada piada é em si uma narrativa, o maior trabalho do diretor é explorar na montagem como o texto vai se encaixar durante todo o filme. Por isso os primeiros minutos do longa são instáveis, quando se apresenta o nascimento de um novo integrante dos Addams num desespero de cenas rápidas, buscando-se alcançar uma unidade na reação dos personagens com o contexto. Não é apenas a animação de inteirar-se com o espectador, mas também uma ligação com a careta de Gomez Addams, com o facho de luz macabro na face de Mortícia e com o confronto de Wednesday e Pugsley Addams com a inocência sobre os bebês serem entregues por cegonhas, para formar um extraordinário impulso de gargalhadas.

Nessa toada inicial de impulsividade é que a história vai se construindo para que novos momentos cômicos ocorram. O ponto de partida do bebê Addams nascendo torna plausível uma imprevisibilidade na narrativa, assim como uma criança de fato é imprevisível. Se há um planejamento implícito é para que a todo momento haja uma surpresa, uma quebra de expectativa que a família Addams carrega em seu DNA. Na constante peculiaridade da família, a falta de escrúpulos e a reação dela aos não-integrantes também vai se transformando, tendo consequências cômicas pelo arquétipo da família ser confrontada pela estranheza assustadora dos padrões humanos. Tanto um casamento quanto um acampamento de férias para crianças são questionados ironicamente com um humor ácido, ou até mórbido.

O ponto da risada é tudo ser revirado socialmente dentro do acaso, e por causa do encanto pela estranheza dos Addams, incluído no processo humorístico do filme. A risada com o politicamente incorreto e com o politicamente correto é praticamente simultânea, em algum sentido imerso na anti-categorização do burtonesco (referindo-se à estética de Tim Burton, que busca superar categorizações sociais). Se torna um “tudo ou nada” numa quebra de tabus para a moral dos Addams ou para os que não são Addams. Essa distinção fica ainda mais indistinguível em estranheza quando uma psicopata de maneira sexual tenta submeter Fester Addams a renegar sua família, ou quando os filmes da Disney são sinônimos aterrorizantes para Wednesday e Pugsley.

Mortícia: Wednesday está naquela fase em que uma garota só pensa em uma coisa.

Ellen: Garotos?

Wednesday: Homicídio.

As piadas formam uma trama onde os vários Addams têm seus momentos, carregando a subtrama de uma personagem socialmente perigosa invadindo o ambiente familiar e que apenas sugere estranheza. Isso acaba por não virar uma discussão explícita pela conjunção rápida de piadas que articulam o andamento do filme para não perder fôlego e ritmo, porém, é no exagero visual de uma noite chuvosa, com relâmpagos e trovões, que a psicopata Debbie se revela como problema para a união familiar que, em si, permite que haja mais variedade cômica no filme. Forma-se a narrativa da “babá do mal” que é o anseio sexual do tio Fester Addams “solteirão”, e ela se torna a vilã admirável pela tamanha esquisitice que vai explicando sua formação de psicopatia. 

Em geral, essa maneira explícita alimenta uma liberdade implícita do humor geral do filme. Enquanto Gomez e Mortícia dançam tango num desafio de fidelidade e os efeitos visuais do filme já não se importam em serem notados como mal ajustados — exemplo dos fachos de luz nos olhos de Mortícia que em transição de imagens surgem balançantes; ou como a mão Thing dirigindo um carro sem haver medo por parte do diretor de mostrar o CGI na rapidez da imagem — Sonnenfeld vai admitindo dramatizações escrachadas que se revertem em humor. Quando o bebê apresenta uma mudança física nos cabelos, a vovó Addams impera uma profecia para ele se tornar presidente, causando desespero entre os Addams, conversando profundamente com o contexto noventista da presidência do conservador George H. W. Bush. Ou quando um garotinho nerd demonstra ter medo de Michael Jackson branco é também um desenvolvimento da subtrama, visto que o personagem também estranha os padrões sociais e é a fagulha para que Wednesday os ressignifique para apoiar uma espécie de contracultura à colonização americana na peça do acampamento, com ajuda das crianças que sofrem preconceito pela aparência.

Se não bastasse essa conexão de uma crítica social presente na retomada dos ícones televisivos ao cinema, ela é verbalizada comicamente no filme, mas não se torna gratuito porque o aleatório é o artifício lógico para resolução e problematização entre cada piada narrativa. Dessa forma, mesmo as piadas envolvendo o âmbito temporal do lançamento do filme fazem surgir a grande narrativa da iconização dos personagens tratados na obra, ou de compreensão temporal para o humor. O apreço pelas piadas físicas concomitantemente às verbais, conciliadas com a engrenagem na base de eventualidades, energiza a estranheza espiritual da família e a liberta de qualquer prisão nostálgica evidente — o bebê é completamente submisso às mudanças da história, como também ativo pelo conceito que quebra as expectativas durante todo o filme. Ele resolve o conflito principal rindo como bebê que é em meio a conveniências físicas dentro de casa, que como um efeito cascata ativa a armadilha cômica e bizarra que permite um encerramento mortal e coerente do longa.

Basicamente, a forma técnica despojada de Sonnenfeld, mesmo que com algum virtuosismo, não apenas contribui para uma comédia irônica e bem montada, como também remete ao seu próprio discurso. Da mesma forma que coloca os Addams em situações em que são julgados e revidam, também abrange uma permissividade prazerosa de imprevisibilidade na imagem. Isso acontece de tal forma que há um zoom específico nas placas do carro que Debbie dirige, pois contém a piada das placas terem o nome dela e ela ter dois carros, com o segundo chamado Debbie 2. Isso soa insignificante na escrita, mas dentro da montanha russa de entretenimento, cada cena é a chance de o público dar uma nova gargalhada, cada peça utilizada no filme vai se renovando inesperadamente. Em verdade, não há fim para esse filme, que também não parece se sustentar em um começo estável — além da própria casa instável. Em uma comparação final, se a morte e o sexo são o linguajar comum entre os Addams, para essa sequência de A Família Addams o final e o começo são como tabus de uma comédia sem limites.

A Família Addams 2 ( Addams Family Values) – EUA, 1993
Direção: Barry Sonnenfeld
Roteiro: Paul Rudnick
Elenco: Anjelica Huston, Raul Julia, Christopher Lloyd, Joan Cusack, Christina Ricci, Carol Kane, Jimmy Workman, Carel Struycken, David Krumholtz, Christopher Hart, Dana Ivey, Peter MacNicol, Christine Baranski
Duração: 94 min.

DAVI LIMA . . . Depois de uma onda de experiência na infância com Terror e Comêdia Romântica ao lado da irmã cinéfila, fui transferido para uma Galáxia Muito Muito Distante, Há Muito Muito Tempo Atrás. A Força conhecida inspirou comentários sobre várias obras artísticas, porém foi preciso ter um contato com alienígenas de uma língua circular e entender que existe brasilidade em Star Wars que compreendi que o fracasso é o melhor professor para melhorar a argumentação. Então Roger Ebert ensinou que o cinema é uma máquina de empatia e Hans Rookmaaker mostrou que a estética vem do Divino. E cá estou aqui, tentando entender os mistérios da forma e do conteúdo para formar a arte, e estudando como pesquisar e lecionar História para compreender como a temporalidade faz mais obra prima que textos críticos. Sempre firme e forte para duvidar de um filme, até mesmo se for do Steven Spielberg, e apreciar o audiovisual na mesma medida.