Crítica | A Família Addams (2019)

Casa: Vão Embora
Gomes: É Medonho
Mortícia: É Horrível
Ambos: É um lar.

Passeando entre o clássico e o moderno, o reboot animado de Família Addams é sobretudo inofensivo, mesclando identidades já estabelecidas nos personagens ao longo dos anos e jogando-os num terreno cômico, despretensioso e escancaradamente disciplinar a respeito da aceitação do estranho na sociedade contemporânea. É como se a família andasse junto a Tim Burton no tempo, nos anos 90 imprimia o macabro no infantil e agora infantiliza o macabro buscando conversar com diferentes gerações de modo mais didático. Em pauta moderna a discussão na prática é real, afinal as minorias nunca tiveram tanta voz para dizer que são também famílias, mesmo que preguem o amor de forma exótica e aos olhos padrões vistos como “aberrações”.

Após uma breve apresentação de origem no prólogo do filme, assim como nos live-actions, cria-se um foco para a narrativa em si ter um direcionamento específico. No primeiro filme noventista, era uma ameaça interna (falso Funério), no segundo, passou a ser externa (Debbie), e este é uma mistura dos dois tipos, com Wandinha sendo influenciada pelo ambiente não Addams, junto a Feioso que não está preparado para a cerimônia de rito de passagem da família, gerando dois conflitos internos na família, além de uma apresentadora de TV “blogueirinha” da cidade ameaçando tirá-los de lá. São narrativas que passam a se desenhar mais claramente apenas na segunda metade, o que as deixa ligeiramente apressadas na resolução, mas no geral, para cada lado existe até uma maturidade interessante e não tão óbvia da mensagem geral sobre a importância da família em detrimento da criação de uma personalidade.

Wandinha, por exemplo, vivencia uma jornada high school própria, tipicamente sendo a adolescente que contraria os motes familiares em busca de um estilo próprio. Como ela já é a “diferentona” gótica por natureza, a quebra vai para adoção de vestimentas “patricinhas”, em contraponto a sua amiga do colegial, Parker, que adota a performática rock ‘n roll, tradicional de jovens rebeldes em coming of age. A dicotomia das duas evidencia semelhanças entre os Addams e pessoas ditas “normais” e o desejo do roteiro em elaborar o panorama de uma comunicação entre os lados supostamente antagônicos. Gomez, no início do filme, busca esse diálogo dificultado justamente por esse medo de deixar o diferente alterar o lar estabelecido.

A mãe de Parker, Margaux (a tal da blogueirinha), e Mortícia se veem incomodadas com a presença daqueles costumes na rotina de suas respectivas casas, logo, reagem à situação hostil de diferentes maneiras.  Em leito íntimo, Mortícia proíbe Wandinha de querer fazer parte da normalidade e Margaux, quando não consegue modificar a casa dos Addams da maneira que quer, convoca seus “seguidores” digitais e os convence de que o melhor caminho é tirá-los de lá, mesmo não estando ali há tanto tempo quanto eles, numa alusão sutil à história norte-americana. Contudo, apesar da mente aberta no âmbito geral, Gomez dentro da casa ainda se preocupa com o legado da família e interdita o talento natural de Feioso com bombas, cobrando dele um outro que ele não tem, mas que era tradicional na árvore genealógica: o Mazurka.

Tudo bem que a jornada dos dois parece estar em separada demasiadamente do escopo principal, mas o auxilia devidamente como complemento, fornecendo o clímax que amarra as ideias devidamente na transmissão da mensagem. Observando as adaptações anteriores dos quadrinhos de Charles Addams, o aspecto meio episódico favorece o uso do humor, quando o contraste, nítido pela escolha da linguagem de animação, é direcionado para a comédia através das reações entre as interações de monstros e humanos. São quase que piadas prontas que dificilmente não funcionam, tendo em vista o carisma dos personagens, que prevalecem respeitando o legado da adaptação noventista nas ótimas dublagens do fortíssimo elenco.

Infelizmente, essa estrutura aproxima a animação do genérico, já que não existe senso consequencial emocional dentro da narrativa, justificável dentro do campo do deboche, até por questão de público-alvo, mas a sensação de conforto é inegável dentro de um cenário com tantas possibilidades a mais. Mesmo que seja esquecível como um estalar de dedos (já que os dois da trilha são memoráveis), a nova versão de Família Addams respeita o legado dos personagens e os reapresenta de forma eficiente, em um novo contexto promissor que tem todo um leque futuro a ser explorado em continuidades.

A Família Addams (The Addams Family, EUA – 2019)
Direção: Greg Tiernan, Conrad Vernon
Roteiro: Matt Lieberman, Pamela Pettler
Elenco (Dubladores Originais): Aimee Garcia, Allison Janney, Bette Midler, Charlize Theron, Chloë Grace Moretz, Elsie Fisher, Finn Wolfhard, Nick Kroll, Oscar Isaac, Scott Underwood.
Duração: 86min

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.