Crítica | A Fera do Mar – Minissérie

A febre das feras assassinas tomou a indústria cinematográfica nas décadas de 1950, 1960 e 1970, resultados dos impactos sociais das guerras e conflitos humanos diante das novas tecnologias e pesquisas científicas. Os anos 1980 continuaram com alguns casos pontuais, tendo algum retorno na década de 1990, era de reformulação de uma série de subgêneros decadentes. O horror ecológico foi um dos selecionados, com filmes que oxigenaram tal seara de produção. A televisão também cresceu vertiginosamente neste período e Peter Benchley teve mais um material literário seu traduzido para outro suporte semiótico: A Besta, romance de longas descrições e com uma criatura cheia de tentáculos, ganhou dois episódios, num formato que nos remete aos padrões dos telefilmes da época, isto é, alguns tematicamente interessantes, mas tecnicamente médios.

A Fera do Mar se enquadra na técnica mediana, haja vista as possibilidades dos efeitos visuais num momento de transformações com o maior acesso aos programas de edição e criação de imagens. Em produções com animais assassinos e monstros do tipo, os animatrônicos, bem como os efeitos visuais e especiais precisam trabalhar adequadamente para dar sustentação e credibilidade para a história que é contada. A série, no entanto, não conseguiu cumprir tais requisitos. Lançada em 1996, sob a direção de Jeff Bleener, produção de Tana Nugent e roteiro de J. B. White, adaptado do romance de Benchley, a minissérie trata dos problemas numa zona costeira onde diariamente, pessoas somem ao entrar no mar, botes aparecem vazios, dentre outras questões “pouco normais”.

Quem se dispõe a resolver o problema é o Dr. Talley (Ronald Guttman), homem que desconfia da origem do problema: a presença de uma lula gigante, em ataque por conta dos desequilíbrios naturais. Misteriosa há eras, as lulas são animais que causam sensação de pavor diante do mistério de sua existência. Pelo fato de ser um animal oceânico, que habita regiões bem profundas, as dificuldades em conhecer os seus métodos é um dos motivos para a sua participação no imaginário popular desde a poesia homérica, pois se desconfia da relação do animal com alguns monstros que aparecem na travessia de Ulisses para Ítaca. Para lhe ajudar em sua missão, Dr. Talley tem os pescadores Whip Dalton (William Petersen) e Mike Newcombe (Sterling Macer Jr.), cada um com a sua necessidade dramática em busca de eliminação da fera.

A entrada de Dana Dalton (Missi Crider), filha de Whip, tornará as coisas mais tensas, pois a jovem articulará a trama no papel da mocinha indefesa em muitos locais errados, nas horas erradas. Se para alguns a tal fera é um grande problema, para outros a criatura se torna um ícone da cultura pop. Vendedores comercializam lulas em miniatura, bijuterias inspiradas no animal tentacular, alguns comercializam lulas congeladas, num arsenal de peças que se aproveitam da situação para investir no potencial financeiro gerados pela histeria coletiva e polêmica presença de uma criatura desconhecida pela maioria dos habitantes do local. Os grupos ecológicos em prol do animal delineiam a postura ecológica de Peter Benchley adotada depois do legado deixado por Tubarão. São personagens contrários ao extermínio do animal que conforme a análise, age apenas por instinto e está ali presente por conta de graduais ações humanas no meio ambiente.

Para nos contar a história, os produtores da série escalaram uma equipe que luta como pode para realizar as suas missões, mesmo diante do orçamento aparentemente limitado. Geoff Burton, responsável pela direção de fotografia, capta bem os espaços dispostos pelas locações, em especial as passagens externas da fictícia Graves Point. Há passagens subaquáticas limitadas, o que nos deixa com uma sensação de que muita coisa poderia ter sido explorada, mas não foi. Na condução sonora, Don Davis cumpre a sua missão com uma textura percussiva mediana. O design de produção de Awen Paterson também se esforça, missão que perde o impacto diante dos efeitos visuais da equipe de Matt Haslam, não aderentes ao tema “sugerir, às vezes, é melhor que ser tão explícito”. Tubarão já tinha dado a lição duas décadas antes: quando e como sugerir ou mostrar.

Como é inspirada num romance, não esperamos a tal fidelidade que muitos equivocados tanto querem. O que esperamos é apenas a articulação de alguns pontos de correspondência. Em determinado trecho do romance A Besta, Peter Benchley descreve que “os tentáculos da criatura engatilharam”. É a antropomorfizarão da lula gigante, animal que habita o imaginário popular há eras. Por isso, a fera da série não consegue trazer para o campo da visualidade, as descrições do autor ao longo de todo o seu romance extenso e excessivamente detalhista, provavelmente inspirado em narrativas com mesmo “tom fantasioso”, tais como Viagem ao Fundo do Mar e Vinte Mil Léguas Submarinas, além das referências na poesia homérica.

Ao longo de seus 176 minutos, como já dito, divididos em duas partes, A Fera do Mar deveria ter apresentado mais o animal ao público. São momentos muito breves e diálogos extensos demais, o que ajudou a transformar a produção num material insosso, arrastado, sonolento em boa parte de sua exibição. A tentativa de análise dos personagens não funciona bem, pois o roteiro não trabalha tais perfis de maneira a nos permitir qualquer identificação maior que a mera compreensão de que qualquer um ali está para ser comida de uma lula gigantesca. Atualmente, os biólogos afirmam que crescimento de lazer e entretenimento nas zonas marinhas aumentaram os índices de contato entre os animais selvagens e os seres humanos. A pergunta que fica é: quando as lulas e polvos gigantes retornarão ao bojo da indústria cinematográfica?

A Fera do Mar – Minissérie (The Beast – EUA, 1996)
Criação: Jeff Bleckner
Direção: Jeff Bleckner
Roteiro: J.B. White, Peter Benchley
Elenco: William Petersen, Karen Sillas, Charles Martin Smith, Ronald Guttman, Missy Crider, Sterling Macer Jr., Denis Arndt, A.J. Johnson, Larry Drake, Murray Bartlett
Duração: 180 min. (duas partes no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.