Crítica | A Sabedoria de Tyrion Lannister, de Lambert Oaks

Tryion Lannister, tal como os sertanejos de Euclides da Cunha, é um forte. Um dos sobreviventes da série a chegar na última temporada demonstrou que boas estratégias e uso do intelecto também é algo muito valioso numa terra de constantes conflitos bélicos e presença de gigantes. Tido como um dos personagens favoritos de George Martin, o anão é um homem que mescla características múltiplas ao longo de oito temporadas de uma das séries mais bem sucedidas da HBO. Impedido de ser um membro bélico ativo, haja vista as suas condições físicas, o “pequeno” Lannister exerce forte influências de ordem intelectual para sobreviver diante do caos e das incertezas da guerra.

Filho mais novo do Lorde Twyin Lannister, o sábio é irmão dos gêmeos incestuosos Cersei e Jaime, odiado pela irmã e pelo pai por ser considerado o culpado pela morte da matriarca Lannister. Interpretado na tradução intersemiótica pelo premiado Peter Dinklage, o personagem que carrega em si a narcísica ferida do nanismo é conhecido por sua evolução em todo arco dramático da série, indo da bebedeira e das posturas levianas para postos privilegiados no reino da mãe dos dragões.

Lançado no Brasil pelo grupo Universo dos Livros, A Sabedoria de Tyrion Lannister é um projeto editorial básico em sua estrutura física. A diagramação permite uma leitura agradável, diferente do papel de baixa qualidade, algo que no entanto, não atrapalha o avanço no texto cheio de lições de autoajuda, traduzidas por Eloise De Vylder. Ao longo de suas 218 páginas, a publicação veiculada sob a supervisão da editora-chefe Marcia Baptista expõe cem inspirações oriundas da série, comentadas dentro da perspectiva coach, sendo 55 de Tyrion Lannister e 45 de outros personagens igualmente sábios, num livro envolto pela capa simpática criada pelo designer Caio Cacau.

De acordo com o autor, o personagem que leva o título da publicação é um “pequeno grande guru”, alguém que pode ser considerado como uma das figuras mais complexas do programa, isto é, um guru para o contemporâneo, uma era repleta de negatividade. Odiado por vários lados e sentindo-se um peixe fora d´agua no seio familiar, Tyrion Lannister possui maior proximidade com seu irmão Jaime, alguém que não consegue ser mais próximo por conta da paixão cega em relação à Cersei. No livro, Oaks filosofa sobre as ações dos personagens e diz que ele nos ensina a fazer o melhor quando estamos diante de algo que não conseguimos dar conta diante de uma valiosa missão.

As ideias do livro dialogam com algumas questões de dois clássicos da área de Liderança e Empreendedorismo: O Príncipe, de Maquiavel, tratado de 26 capítulos sobre defesa, centralização do poder político e uma das teorias que fundamentam o Estado Moderno; e A Arte da Guerra, tratado militar atribuído à Sun Tzu, conjunto de 13 capítulos sobre estratégias de guerra para combates bem sucedidos, muito comum na área de Economia e Administração, apesar de alguns teóricos e pesquisadores considerarem ambos os textos mal interpretados pelos tais campos do saber, não sendo então, unanimidade. O mesmo serve para pensarmos a “questão coach”, também criticada por muitos psicólogos.

Setor que no Brasil cresceu 300% entre 2010 e 2014 no Brasil, o profissional coach é apontado como alguém que em muitos casos traz problemas para a sua área de atuação, pois acredita-se que muitos confundem a teoria com a aplicabilidade. Remédio utilizado por quem busca dar conta das celeumas comuns da vida real, a confusão entre coach e mentoring é causa de muitos danos em suas áreas de aplicabilidade e buscam algo considerado inadequado, inclusive por quem escreve esta crítica: tornar suave e fácil a realidade que deve ser duramente enfrentada para a evolução do ser humano enquanto personagem da “guerra dos tronos” que é a vida.

Nenhum problema em ser positivo nos pensamentos, mas banalizar a coisa e horizontalizar os problemas individuais como uma coisa só é o que torna A Sabedoria de Tyrion Lannister um livro medíocre, mesmo diante de algumas questões relevantes e notáveis entre um capítulo e outro. Dentre os trechos com citações mais interessantes, destaco “tento conhecer tantas pessoas quanto posso, porque nunca se sabe de qual delas irei precisar”, um guia para questões sobre a importância de se estabelecer ampla rede de contatos na vida; “vamos precisar de muitos detalhes, muitos detalhes”, momento de reflexão sobre o conhecimento como inestimável fonte de poder; e “quando aceitar as suas fraquezas, ninguém poderá usá-las contra você”, reflexão que dialoga com “deixe que vejam que suas palavras o machucam e a zombaria não terá fim”, ambas complementares sobre aceitação e resiliência.

A Sabedoria de Tyrion Lannister (Tyrion Lannister/Estados Unidos, 2017)
Autor: Lambert Oaks
Editora no Brasil: Universo dos Livros
Tradução: Eloise De Vylder
Páginas: 224

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.