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Crítica | A Flecha e a Farda

por Michel Gutwilen
192 views (a partir de agosto de 2020)

Alguns filmes que assisti dentro do contexto do Festival Olhar de Cinema 2020 usam uma narrativa com base em imagens de arquivo. Porém, entre todos eles A Flecha e a Farda talvez seja o que mais proporciona algo novo a esse tempo pretérito que volta à tona em formato de obra cinematográfica. Trata-se de uma literal redescoberta do passado com ressignificação do presente, não sendo apenas sendo um olhar contemplativo-nostálgico ou apenas um próprio resgate de culturas/pessoas esquecidas, casos de Playback: Ensaio de uma Despedida; Fakir e Além de Tudo, Ela

Diferente dessas outras obras cuja força criadora resiste na intenção de seu realizador em ir atrás de um material já existente (mas negligenciado), A Flecha e a Farda parece surgir a partir da força da própria imagem em si, que só veio à tona agora. Logo, estamos diante do passado, mas que também é algo novo ao presente. Justamente por isso, trata-se de um filme investigativo, que busca respostas no Hoje para responder o Ontem, diferente de outras abordagens afastadas ou passivas. Assim, o principal contraste entre tais obras também está nesta diferenciação entre onde o mistério reside: naquelas, a documentação é clara e objetiva, sendo o diretor aquele que escolherá sua aproximação frente a este material; já aqui a imagem é, em sua essência, nebulosa, sem contextualização ou informação o suficiente, como um enigma que precisa ser resolvido. Não há opção para o diretor Miguel Antunes Ramos senão ir atrás dessas respostas. 

Além disso, a investigação de A Flecha e a Farda não só se limita a sua investigação a nível micro, mas (in)diretamente também fala sobre o próprio Cinema Brasileiro (ou melhor, o Brasil) na escala macro. Em um certo momento do documentário, um dos indígenas questiona o fato de que, enquanto o “cinema branco” existe em abundância, o registro indígena na película é precário e faltoso. Então, a partir disso, o que se se dá é uma própria busca pela representação indígena de modo geral e um apagamento de um trecho da história no Brasil. 

Neste mesmo sentido, é muito interessante o momento em que Miguel analisa o modo que o diretor do arquivo recém-descoberto olhava os indígenas por meio de sua mise-en-scène, quase como uma própria crítica de cinema dentro do filme, mostrando que há uma compreensão do cineasta não só em entender o conteúdo daquelas imagens, mas que compreende que existe toda uma significação na própria forma, que muito tem a acrescentar e complementar, a partir das entrelinhas. Por exemplo, este é o caso de quando Miguel repara que o outro diretor dava destaque aos cabelos dos indígenas, a única individualização daquelas pessoas dentro de um contexto de uniformização militar.

Por se tratar de um filme investigativo, que tem sua ação no presente, nem sempre a vontade do diretor pode ser satisfeita. Curiosamente, esta lacuna de todas respostas gera uma própria atmosfera carregada que complementa o mistério em si daquelas imagens. Uma vez que o capitão que comandou aquele regimento do exército composto por indígenas não quis dar entrevistas, sua presença se torna equivalente a de um fantasma, ainda mais porque os relatos dos indígenas sobre ele são assustadores. No fim, A Flecha e a Farda busca espantar este fantasma, tentando compreendê-lo, para poder seguir em frente, desta vez, só com a flecha.

A Flecha e a Farda (2020) — Brasil
Direção: Miguel Antunes Ramos
Roteiro: Ernesto de Carvalho, Miguel Antunes Ramos, Tainá Muhringer
Duração: 85 mins.

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