Crítica | A Flor do Meu Segredo

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A Flor do Meu Segredo foi uma espécie de desabafo do diretor e roteirista Pedro Almodóvar sobre a sua maneira de escrever e também de filmar. Marcando uma clara aproximação com o melodrama, o longa nos conta a história de uma autora de romances e contos sentimentais e alienativos chamada Leo Macías (Marisa Paredes), que assina sob o pseudônimo de Amanda Gris. No momento em que a conhecemos, sabemos que existe uma crise em seu casamento com o militar Paco (Imanol Arias) e isso tem sido um grande problema para a prolífica escritora, cujo atual estado de vida a impede de continuar produzindo histórias açucaradas, sem consciência social e totalmente escapista. Um olhar mais cru para a realidade é o que a coloca na mira de seus editores, que não estão nada contentes com o novo e sombrio livro que ela acabou de entregar.

A discussão levantada nesse novelão muito divertido de Almodóvar é algo que conhecemos da carreira de diversos artistas, nas mais diversas áreas. Toda vez que se muda o tom, o gênero, a abordagem de uma produção pessoal, há quase sempre uma recepção negativa por parte do público, crítica e envolvidos no processo editorial ou de manufatora dessa obra. Exceto para o artista, nenhuma das outras partes parece entender que “mais do mesmo” tem limites e que assim como as pessoas mudam (ainda bem!), a arte que elas produzem também precisa mudar.

O impacto dessa libertação de escrita do diretor foi tão grande, que dois temas aqui abordados serviriam para que ele construísse o roteiro de obras futuras: da cena dos doutores convencendo uma mãe a doar os órgãos do filho surgiu o ponto de partida para Tudo Sobre Minha Mãe, e do fictício roteiro The Freezer, supostamente a ser dirigido por Bigas Luna, veio a base de Volver. Essa relação entre o que o diretor explora aqui e a sua futura filmografia é uma das provas de que A Flor do Meu Segredo funcionou para ele como um exercício de mudança, embora isso esteja diretamente ligado ao tratamento das personagens femininas e o abraço do melodrama como fonte central do texto. No mais, a obra é um perfeitamente reconhecível Almodóvar.

Temperando esta abordagem, o espectador tem na tela uma fotografia em forte contraste, amplo uso do vermelho, música marcando o passo mais dramático possível de algumas cenas, metalinguagem e referências a outros filmes, no caso, Casablanca (1942), Se Meu Apartamento Falasse (1960) e Ricas e Famosas (1981). O elo frágil aqui está na forma como o roteiro perde força na parte final do filme, espalhando-se diante de crise de Leo e de seus perrengues amorosos. Também vale dizer que a sequência com Paco traz bem pouco de interessante para a obra e o mesmo vale para o retiro no povoado da mãe, que começa como um bom e compreensível processo de afastamento e cura da depressão, mas depois o roteiro direciona esse bloco para uma finalização mais banal, inclusive mal alinhada ao ato de dança que temos no desfecho.

Cheio de excelentes momentos cômicos protagonizados por Chus LampreaveRossy de Palma e com uma história pessoal que flerta com a dinâmica de “vida imita a arte” e todos os percalços desse tipo de interação, A Flor do Meu Segredo é uma película sobre a fragilidade da pessoa por trás do artista. Uma obra de mudança moral e comportamental e como esse exercício íntimo afeta a produção de alguém, exatamente o que acontecia com Pedro Almodóvar em meados dos anos 90.

A Flor do Meu Segredo (La flor de mi secreto) — Espanha, França, 1995
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Marisa Paredes, Juan Echanove, Carme Elias, Rossy de Palma, Chus Lampreave, Kiti Mánver, Joaquín Cortés, Manuela Vargas, Imanol Arias, Gloria Muñoz, Juan José Otegui, Nancho Novo, Jordi Mollà, Alicia Agut, Marisol Muriel
Duração: 103 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.