Crítica | A Floresta Que Se Move

A representação do horror no Brasil está enraizada por diversas vertentes. Casas assombradas, psicopatas, possessões demoníacas e a perversidade e desejo de poder humano, caminho ainda mais assustador que as demandas sobrenaturais e de ordem psiquiátrica. A Floresta Que Se Move, inspirado na tragédia Macbeth, uma das mais poderosas e dinâmicas de William Shakespeare, é um dos filmes que podem se encaixar na ideia de abordagem do horror como gênero em constante ascensão no cinema brasileiro, estagnado em comédias, dramas e adaptações de obras do nosso cânone literário durante bastante tempo, um meio de produção que voltou-se para o suspense e o terror mais recentemente. No caso de A Floresta Que Se Move o que temos é a ambição a corroer os seres humanos, pessoas que se tornam responsáveis por atos tão hediondos que no cinema, geralmente são creditados ao maligno ou ao desequilíbrio emocional/psicológico.

Sob a direção de Vinícius Coimbra, cineasta guiado pelo roteiro escrito em parceria com Manuela Dias, A Floresta Que Se Move acompanha a trajetória de Elias (Gabriel Braga Nunes), um executivo de vida bem-sucedida, com o emprego desejado por qualquer pessoa que faça parte do bojo da sociedade de consumo. Carro, joias, jantares sofisticados e uma casa espetacular. Tudo isso pode ainda ficar melhor, pois na saída do trabalho em um dia qualquer, uma bordadeira misteriosa o encontra na rua e lhe diz que ele se tornará dono de um cargo novo, com mais poder e pompa. Sem saber por qual motivo aquela desconhecida o abordou, ele segue para casa e narra tudo para a ambiciosa esposa, Clara (Ana Paula Arósio), mulher que enxerga logo uma oportunidade para colocar em prática um plano envolvendo assassinato.

Diante do exposto, as coisas não demoram para acontecer. Heitor (Nelson Xavier), chefe de Elias, é chamado para o tal encontro mortal. O segue, no entanto, vai além da paranoia e entrada num profundo estágio de loucura do casal protagonista. A trama adentra num esquema de investigação policial, pois César (Ângelo Antônio) não está satisfeito com as respostas encontradas até então. Para ele, “há algo de podre no reino” do seu colega de trabalho e sua missão será desvendar o esquema. Apesar de se perder em alguns trechos, a trajetória do personagem ajuda na construção da tensão, num filme hábil em trazer para o contexto brasileiro contemporâneo, as intrigas palacianas do momento histórico que serviu como ponto de partida para a dupla de roteiristas. Eficazes, os figurinos trocam as armaduras e cavalos por ternos, gravatas e carros deslumbrantes, numa narrativa que se faz inteligente ao evitar o panfleto e denunciar a corrupção dentro de um microcosmo bem específico, isto é, os escritórios e corredores de uma empresa privada. E bancária. Nada mais adequado para o tom ardiloso da história.

Para nos contar a história, Coimbra traz em sua equipe a dupla Alexandre Fructuoso e Pablo Baião para a direção de fotografia, num trabalho que não decepciona em seus movimentos, quadros e iluminação. Da normalidade aos momentos de crise, os personagens estão bem dispostos na tela, numa produção que também não deixa pontas soltas em sua direção de arte, assinada por Ana Giovanni, tão eficiente quanto os efeitos visuais da equipe de Bernardo Neder funcionam muito bem, pois imprimem ao filme as metáforas latentes em determinadas passagens com os personagens a purgar pelos atos espúrios cometidos. A trilha sonora ficou sob a responsabilidade de Sarah Levièvre, adequada para a estrutura narrativa em questão.

Lançado em 2015, A Floresta Que Se Move é um suspense dramático conectado com uma das melhores tragédias shakespearianas. Macbeth é Gabriel Braga Nunes, esposo de Lady Macbeth, encarnada por Ana Paula Arósio. O General Banquo ficou por conta de Ângelo Antônio e Nelson Xavier assume o posto do traído Rei Duncan. A bordadeira explora a posição das três bruxas, personagens breves, mas fundamentais para o desenvolvimento da tragédia teatral, numa obra cheia de referências, algumas orgânicas, outras forçadas. Outro detalhe: mesmo que tenhamos melhorado bastante, o cinema brasileiro precisa compreender de uma vez por todas as diferenças entre os desempenhos no teatro, na televisão e no cinema. Nunes e Arósio são ótimos atores, mas a maneira como desenvolvem os seus personagens deflagra um problema de direção que não estraga o ambicioso projeto, mas apenas delineia uma fragilidade que poderia ter sido evitada.

A Floresta Que Se Move — Brasil, 2015
Direção: Vinícius Coimbra
Roteiro: Vinícius Coimbra, Manuela Dias
Elenco: Ana Paula Arósio, Ângelo Antônio, Fernando Alves Pinto, Gabriel Braga Nunes, Nelson Xavier
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.