Crítica | A Forma da Água

“O que sou eu? Movo minha boca, como ele. Eu não emito som, como ele. O que ele faz comigo? Tudo o que sou, tudo o que tenho sido. Ele me trouxe aqui.”

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Os romances englobam a nossa literatura e o nosso cinema desde seus primórdios artísticos – a maior parte do que existe hoje é, portanto, uma reciclagem de ideias, intencional ou não, mas já pensadas previamente. O que se mantém ainda reside no fim do que há de contar, ou então apenas o puro contar, moldado para ser a beleza na própria natureza do que é ser belo, sem maiores pretensões. A Forma da Água é, acima de tudo, uma história de amor. Um conto de fadas, como A Bela e a Fera. Uma narrativa que, assim como outras fantásticas, transpira pelo seu contar, entre as facilidades e as dificuldades de se narrar um clássico numa época em que o classicismo é anacrônico, a puerilidade invocada da improvável relação entre dois amantes supostamente inconciliáveis. A zeladora muda Elisa Esposito (Sally Hawkins) encontra em uma criatura do mar, aprisionada por homens do governo, “a metade de sua laranja”, como diria uma canção de Fábio Júnior. O “monstro” marítimo, partindo de uma poesia característica, é uma representação da própria mulher: as guelras são as cicatrizes de seu passado, o silêncio é uma constante para os dois. O mexicano Guillermo Del Toro nos reapresenta ao conto clássico, conciliando os sentimentos de outrora, tão antigos, passados, quanto inerentes ao nosso presente.

Em um primeiro plano de obviedades acerca desse artista, sendo quase desnecessária a reiteração, o diretor mexicano é um mestre na criação de monstros, coisa que a sua carreira comprova, em vista dos monstros de O Labirinto do Fauno e Hellboy. Nesta sua obra, todo o contexto mais evidente do Homem-Anfíbio (Doug Jones), seus objetivos narrativos superficiais, traja um escopo político, embora a criatura também contenha um quê místico, um pouco claro, pincelado nas horas certas, o que permite que o gênero fantasia seja realçado certeiramente, criando um ambiente dualmente realista e surrealista. A Guerra Fria está a todo vapor, os russos estão em cena, mas as altas possibilidades de avanços científicos estão com os americanos, que aprisionaram uma lendária criatura da América do Sul, tratada como Deus pelos nativos. A Forma da Água, em uma de suas várias camadas, é um filme de espionagem competente, e que, afortunadamente, não permite se sobressair nesse sub-gênero, nem se submeter ao desleixo de indiferença perante o que é realmente importante: a história de amor. Com a intenção estabelecida e o foco encontrado, Del Toro possui a árdua missão de nos fazer se apaixonarmos tanto por Elisa e pela criatura, em âmbitos individuais, particulares, quanto pelos dois juntos, agora em uníssono.

Para compor todo nosso deslumbramento audiovisual, o começo dessa aproximação do espectador com a paixão é a composição estética do monstro, sua origem imagética. O cineasta, em uma homenagem aos seres que cresceu assistindo, em especial à criatura homônima de O Monstro da Lagoa Negraalcança o seu ápice na confecção de um ser mágico, o mais impressionante já feita até então pelo artista. Chega a ser inacreditável que o filme não tenha sido indicado na categoria de Maquiagem e Cabelo no Oscar, visto que o trabalho dos realizadores nesse quesito, assim como em outros técnicos, os quais ainda fornecem uma coesão visual entrelaçada, é estupendo. A cinematografia de Dan Lausten, no auxílio desse conjunto íntegro de camadas de pertencimento, embute as imagens com tonalidades esverdeadas e azuladas, condizentes com a atmosfera aquática da obra, complementando, em consequência, as sensações surgidas diante da presença da criatura, parte do tóxico cenário sessentista, mesmo sendo, na verdade, uma intrusa nele. A computação gráfica imprime o que precisa imprimir, contribuindo com o contar de histórias, criando um olhar expressivo e magnético que recebe toda a atenção devida da equipe de efeitos visuais. Já a performance de Jones permite ao ser uma fisicalidade própria.

O que é criado com Sally Hawkins e todo o seu entorno é igualmente impressionante, a começar pelo  desempenho da artista, incorporando uma mulher que dialoga com as minúcias da vida de uma forma minimalista, no entanto, poderosa. Os pequenos detalhes do cotidiano dela são expostos, a música é deliciosamente bem aproveitada, e a tarefa dura de limpar banheiros e corredores é apaziguada pela presença de uma amiga. O vazio, por ora, continua. Um silêncio que ecoa dolorosamente mesmo na ausência de sua voz. O prestígio ao design de produção, nessa visão graciosa da mulher, torna os simplérrimos apartamentos dela e de seu vizinho Giles (Richard Jenkins) soturnos, mas ainda assim convidativos cenários do dia-a-dia de ambos os personagens, aproximando-nos com eles. A edição, além do mais, é dinâmica e aconchegante, com o sorriso contagiante de Hawkins mergulhando-nos de cabeça nesse ambiente singular, quando a real forma da água ainda era um mistério. A mística dos anos 60 é transmitida extraordinariamente, porém não apenas por causa das problemáticas clássicas ao espaço-tempo em questão, pois as canções ouvidas, paralelamente, denotam uma construção de universo mágico no seu próprio caráter nostálgico, abraçando as condições únicas da arte de permitir o espectador a sentir o insensível.

Os caminhos são percorridos e se cruzam espontaneamente, com parte de uma profecia do que deve acontecer, ou seja, almas gêmeas se encontrarem. A premissa do longa-metragem encaminha os dois monstros, sem qualquer troca de palavras de um com o outro, a a se apaixonarem por meio de uma rotina trivial, contudo, no meio de uma estranha e complicada narrativa de romance maior que as possibilidades, Del Toro também abre espaço para composições lúdicas, mais épicas, que intensificam o amor sentido um pelo outro, como em uma sequência musical de levar sorriso ao rosto do espectador por alguns minutos. Mesmo assim, embora aborde a magia por meio das peripécias cinematográficas todas, Del Toro não larga mão de uma sinceridade singela essencial. O clima sexual, por exemplo, é encarado com honestidade, sem deixar lacunas para que a fotografia não explore a inexorável beleza da situação retratada. A trilha sonora de Alexandre Desplat é outro ajudante relevante, garantindo que, através da música, acompanhante eterna do amor entre pessoa e criatura, o espectador encontre outra âncora para seus sentimentos se expandirem, provocando a nossa capacidade de sentir no cinema, da mesma forma que o monstro é provocado diante das imensas imagens projetadas a cores em sua frente.

Já os personagens coadjuvantes encontram-se na periferia do cerne, o casal, sendo emuladores de mais pensamentos necessários sob olhares filosóficos, acerca da disputa do bem contra o mal, além da exaltação pela exaltação do que é gracioso, artístico. Os três promovem o apoio necessário para que as camadas de paixão se engrandeçam. O Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg), por exemplo, é a personalidade que enxerga a conexão feita entre mulher e criatura, e transmite para nós, dentro de seu arco, credibilidade no que ele acredita ser correto, na manutenção do que é belo, até mesmo sagrado. Octavia Spencer, como Zelda, por outro lado, está mais operante que sensacional aqui. Nenhuma margem para uma atuação espetacular é oferecida à intérprete, pois a margem disposta é, entretanto, certeira na proposta de trazer mais carisma substancial para a protagonista, tornando-se, portanto, um mero gancho. O afeiçoamento é transmitido organicamente, ao passo que Zelda também funciona muito bem como uma versão nossa naquele cenário. Guillermo Del Toro, no que se refere ao vizinho de Esposito, cria uma relação verdadeira entre os dois com uma única sequência de sapateado, algo parecido, ainda melhor, do que Ryan Gosling e Emma Stone ostentaram, durante uma coreografia de La La Land.

Um equívoco no roteiro, curiosamente, envolve, no entanto, este mesmo personagem. Os conflitos envolvendo o cabelo de Giles já sustentavam um discurso, tornando-o maior que um coadjuvante ordinário, mas uma criatura castigada pelo tempo. Ao tentar ir desonestamente além, com um comentário crítico e artificial sobre racismo e homofobia ao mesmo tempo, os roteiristas erram a mão. O trabalho geral conta, porém, com um vilão perigosíssimo que, ironicamente, também serve como comentário sobre racismo, mas este, em suas pontuações, organizado de maneira muito mais coesa. Como antagonista maniqueísta, Michael Shannon, interpretando Strickland, entrega uma performance assombrosa, dado o surgimento de inúmeras peculiaridades em sua interpretação, a medida que o personagem se degrada fisicamente e psicologicamente. Uma característica importantíssima para um thriller é a sensação de impotência. Onde que morre o sonho americano deste homem, munido inicialmente, mesmo por meio de atitudes questionáveis, de fins “honrados”? Strickland é claustrofóbico, impiedoso e tirano – mesmo estando em uma posição de submissão. Um homem, enfim, sem nada a perder, com o desejo carnal pelo silêncio, pela submissão – uma ótima relação feita de sua viscosidade a partir de uma serena presença.

O mal contrapõe o bem, enquanto o bem é o amor. A Forma da Água ainda é, sobretudo, uma história de amor. A própria natureza do cinema classicista, redesenhado por um mexicano que incorpora o antigo espírito norte-americano, promove as sensações de grandiosidade necessárias, em uma composição poética de encher os olhos e aquecer os corações. O cinema clássico falando como cinema clássico, passando para o público muito do que deve ser passado a fim de uma imersão profunda e significativa através da linguagem cinematográfica classicista por si só, em um trabalho de direção fabuloso de Guillermo Del Toro, anacrônico e atemporal. O diretor alcança com esse filme um status de artista ainda mais completo, pois a simplicidade no seu enredo restaura um charme específico, onde a plenitude reside no fato de que apenas um olhar destrói todas as barreiras que separam a mulher da criatura. Os caminhos escolhidos para a obra funcionam, mesmo previsíveis – uma mistura como as antigas. Outrora, A Forma da Água poderia ter sido um clássico da Velha Hollywood. Hoje, já é um clássico contemporâneo, que definitivamente não sairá da mente das pessoas, continuando a ser atemporalmente uma homenagem apaixonante ao cinema, aos monstros e ao amor, capaz de unir os diferentes da forma mais inacreditável possível.

A Forma da Água (The Shape of Water) — EUA, 2017
Direção:
 Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy
Duração: 119 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.