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Crítica | A Fotografia (2020)

por Leonardo Campos
1324 views (a partir de agosto de 2020)

Dentre os ditados populares mais recorrentes na vida de quem analisa e manipula representações cotidianamente, a expressão “uma imagem vale mais que mil palavras” é um clichê necessário. Nos desdobramentos de A Fotografia, então, é algo norteador, pois toda a história de amor que contemplaremos tem como ponto de partida, uma foto. A história paralela, contada junto aos conflitos centrais, também. Assim, ao longo do filme, a função de fotógrafo e o fruto de seu trabalho, isto é, as fotografias, ganham destaque e onipresença ao longo dos 106 minutos de narrativa que mescla comparações geracionais, amores e impedimentos, equilíbrio entre o profissional e a vida pessoal, dentre outros pormenores. Romance sobre o fascínio do olhar, o filme é uma história de amor cativante, em especial, por causa de alguns personagens coadjuvantes, presentes em cena para lapidar o romance central entre Michael (Lakerth Stanfield) e Mae (Issa Rae), no presente, uma versão igualmente complicada do amor, tal como Isaac (Rob Morgan) e Christina Eames (Chanté Adams), do passado. Ele um pescador de crustáceos, ela uma jovem fotógrafa que deseja sair da cidade pequena e ter como grande acontecimento de seu dia, algo além de ter preparado o jantar de seu marido.

O filme começa com um depoimento de Eames, excerto de um depoimento seu que estará logo mais numa instalação da filha, curadora de um museu no Queens. Um fade separa essa abertura da primeira apresentação de Michael, jornalista apresentado na alegoria de sua jornada, isto é, a estrada. Ele dirige sozinho, de Nova York para Nova Orleans, tendo como meta encontrar Isaac para registrar alguns depoimentos sobre o trabalho de Eames, uma mulher que já morreu e no passado, saiu da cidade rumo ao atendimento de seus anseios. Seu interesse por fotografia já aparece neste momento, quando numa das paradas na viagem, faz várias imagens aleatórias da região, material para complementação de seu acervo. Na visita, entre uma conversa e outra sobre memória, ele descobre que a fotógrafa teve uma filha, descrita pelo entrevistado. Tocado pelo enredo que é puro drama, Michael parte em sua saga para conhecer Mae e, neste processo, colher mais material para o trabalho e talvez engatar uma nova relação.

Uma fotografia assume aqui a alegórica partida e chegada nesta primeira etapa do personagem em busca de si mesmo. Ele não teve muito sucesso até então nos relacionamentos, sendo um grande colecionador de primeiros encontros, mas nada que de fato ganhe mais estrutura. Em conversas com o seu irmão e cunhada, conta opiniões sobre a sua última namorada que ainda o incomoda, pois ela sempre o acusou de ser alguém sem coragem para enfrentar novos desafios. Inquieto diante disso, Michael terá outra decisão para tomar logo adiante: ir ou não para Londres, haja vista uma oferta com desdobramentos profissionais irrecusáveis. De volta em Nova Iorque e cada vez mais envolvido com Mae, as escolhas se tornam mais complexas. Mae inicialmente achava que o interesse do rapaz era puramente profissional, mas também acaba por desenvolver algo a mais pelo jovem. Ambos são carismáticos e o magnetismo é pulsante a cada cena. Ao passo que eles ampliam os seus conhecimentos sobre amigos, família e características pessoais, acompanhamos a jornada da mãe de Mae, algo que parece se repetir no presente.

O contexto, obviamente, não é o mesmo. As mulheres ocupam situações diferenciadas, há questões da época de Eames que hoje já não são concebíveis como normalidade e fácil aceitação, mas no quesito relacionamentos e escolhas, todos eles, tanto do passado quanto do presente, parecem viver diante do impasse. Uma decisão incerta pode colocar tudo a perder e os personagens aqui parecem ter pressa. São jovens envolvidos nos processos globais da vida frenética e imediatista. Ninguém quer perder tempo, tampouco ficar sozinho. Não apenas na história do presente, mas também nos desdobramentos do passado, contemplados pela edição de Shannon Baker Davis, responsável por relacionar os flashbacks e flashfowards de maneira eficiente, sem usar tons bruscos que impeçam o desfecho de um conflito para o estabelecimento de outro. Acompanhados pela textura percussiva de Robert Glasper, adequada com seu estilo jazzístico bastante representativo da situação do casal, o filme também possui uma trilha com R&B e hip hop peculiar, talvez o setor estrutural mais óbvio demais da narrativa.

A cada cena, a letra precisa expressar, exatamente como em tela, os verbos que regem as ações dos personagens. Sofrer, amar, correr, chorar, dentre outros. A cada situação, uma música que nos diz “olha pra cá, veja o que está acontecendo”. Não é que isso seja um defeito narrativo, mas é algo que talvez seja aquele bônus que sai da sutileza e torna tudo muito óbvio. A direção de Stella Meghie peca neste aspecto, mas de maneira geral, constrói uma história de amor que de tão comum e realista, torna-se atraente e empolgante. Também responsável pelo roteiro, ela traça um elo entre fotografia e memória, amor e desprendimento, mágoas e arrependimentos, temas já explorados demasiadamente pelo cinema, mas que aqui, é apresentado com graça, humor e carisma. Os diálogos são inteligentes em sua maior parte, as necessidades dramáticas convencem e diante do exposto, temos a comprovação cabal da simplicidade como possibilidade narrativa numa era de efeitos visuais excessivos para atrair plateias. Com a oportunidade de fazer o que o casal do passado não conseguiu, os jovens do presente serão colocados à prova.

Mais uma vez, jornalista se interessa pela fonte. E o amor prevalece. Mas até quando? No intermédio disso, a imagem vem para alegorizar como as lembranças podem ser tão fortes quanto acontecimentos presenciais. Com design de produção clean, representação da sofisticação urbana contemporânea em Nova York, setor assinado por Loren Weeks, A Fotografia não podia deixar de ser interessante também no setor da captação de imagens. Com Mark Schwartlbard na direção de fotografia, o filme nos apresenta, ao longo de seus 106 minutos, personagens enquadrados com sofisticação, com câmeras que partem de várias posições para contemplá-los desde as cenas mais triviais, como a caminhada na rua para chegar em casa, aos momentos mais dramáticos, com planos fechados, interessados na apreensão das decisões entre estas figuras que descobrirão segredos guardados abaixo da superfície, com algumas reviravoltas pouco surpreendentes, já esperadas, provavelmente por já termos assistido aos tantos e filmes e séries com estrutura semelhante. Ademais, tendo a fotografia como conexão entre passado e presente, o drama romântico funciona como entretenimento e atrai enquanto reflexão sobre nossas vidas. Nada nietzschiano, por favor, mas algo motivacional.

A Fotografia (The Photograph) — Estados Unidos, 2020
Direção: Stella Meghie
Roteiro: Stella Meghie
Elenco: Issa Rae, LaKeith Stanfield, Chanté Adams, Y’lan Noel, Kelvin Harrison Jr., Lil Rel Howery, Teyonah Parris, Jasmine Cephas Jones, Rylee Gabrielle King, Phoenix Noelle
Duração: 106 min.

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1 comentário

Felipe Brandon 8 de agosto de 2020 - 05:42

Mais um filme simples e de narrativa batida que é bem feito. Lakeith Stanfield é um ator que conheci quando assisti Atlanta e desde então assisto obras não só dele mas do elenco daquela série que é bem especial para mim.
Me identifiquei com o filme de imediato e me vi em várias situações conforme o filme ia avançando. E quando acabei de ver o filme, fiquei refletindo um pouco sobre escolhas de vida, interessante não?

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