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Crítica | A Freira

por Leonardo Campos
337 views (a partir de agosto de 2020)

Em Exorcistas e Psiquiatras, livro duvidoso e problemático de Gabrielle Amorth (o exorcista mais midiático que o Vaticano já teve), o sacerdote que passou boa parte da vida numa luta sem descanso contra as forças satânicas nos revela que é preciso ter muita garra para enfrentar as forças do mal que parecem dominar a vida terrena a cada dia. Num de seus capítulos focados no panorama histórico do exorcismo, conforme a trajetória do cristianismo, o padre narra fatos documentados sobre eventos tenebrosos registrados por volta de 1559 e 1620.

Conhecido como o caso das “Irmãs Negras de Mons”, na França, a história retrata a vida de uma freira que havia contraído um pacto com o diabo e denominada bruxa, foi condenada pela Inquisição. Felizmente, a história teve um final menos trágico. O sensível monsenhor Luís de Berlaymont, Arcebispo de Cambrai, ordenou que a freira não fosse processada, tampouco condenada, mas exorcizada. Depois do ritual, a religiosa continuou a sua vida como freira exemplar, libertada das forças demoníacas que a possuía. O mesmo, por sua vez, não acontece com a história desenvolvida para A Freira, narrativa focada na entidade que sacudiu Ed e Lorraine Warren em no segundo Invocação do Mal.

Envolto numa redoma de expectativas, a promessa de “filme mais aterrorizante do universo de Invocação do Mal” não se concretiza, mas a produção ainda assim consegue ser mais interessante que os dois casos sobre a boneca Annabelle. Sob a direção de Corin Hardy, responsável pelo pouco interessante A Maldição da Floresta, o derivado da franquia criada por James Wan teve roteiro assinado por Gary Dauberman, profissional que contou com uma equipe gigantesca do departamento de som, tendo em vista potencializar as descrições presentes no texto dramático.

A história é, no mínimo, profana e aberrante. Certo dia, um entregador se depara com uma freira que acabara de cometer suicídio num convento na Romênia. Diante da estranheza do acontecimento, o padre Burke (Demián Bichir) é convocado para investigar a situação, pois como um local sagrado pode ser palco de uma tragédia tão profana? Para a sua missão, ele convida a irmã Irene (Taissa Farmiga), uma jovem que ainda não confirmou os seus votos, mas possui bastante interesse em seguir os caminhos religiosos para o resto da vida.

Ao chegar, os representantes externos começam a sentir que há algo de muito estranho no convento e descobrem que uma manifestação maligna, acostumada a se apresentar por meio de trajes de uma freira (representada por Bonnie Aarons), é a força responsável pelos atos profanos que estão colocando em risco a vida de todos os que circulam naquele espaço. Juntamente com a condução musical de Abel Korzeniowski, acompanhamos as revelações apresentadas aos personagens, oriundas de circunspecções e bastante investigação. Assim, a dupla precisará enfrentar o mal absoluto, uma força devastadora capaz de carregar a todos para as profundezas do inferno.

Cronologicamente responsável por ser o primeiro capítulo da franquia, situado duas décadas antes de Invocação do Mal, A Freira é o quinto filme do “universo”, um dos melhores no que concerne a composição visual. A direção de fotografia de Maxime Alexandre é a definição da eficiência, com enquadramentos sofisticados e esteticamente deslumbrantes, sempre preocupados em captar o que há de melhor no design de produção de Jennifer Spence, profissional que contou com os cenários de Gina Calin e os figurinos de Sharon Gilham. Cores adequadas ao clima soturno, figurinos que captam bem o design dos personagens e elementos devidamente expostos em cena nos mostram que os bons filmes de terror precisam caprichar nos aspectos visuais para a construção da atmosfera narrativa.

Filmado em Bucareste, capital e maior cidade da Romênia, A Freira dá vazão aos planos que captam, por meio de movimentos calculados, a arquitetura que mescla o neoclássico, o estilo art déco e Bauhaus. Através da técnica do dolly ou travelling, as imagens captadas são artisticamente valiosas, numa demonstração de extrema beleza diante de uma história macabra e grotesca. A edição da dupla formada por Michel Aller e Ken Blackwell, também eficiente, corta na hora certa e sabe exatamente o que não pode deixar de ser captado e exposto para o público. O departamento cenográfico agradece, contemplado neste quesito.

Se visualmente A Freira é empolgante, não podemos dizer o mesmo do roteiro. A história não chega a ser ruim, mas apenas a reciclagem dos filmes que gravitam em torno deste “universo”. Há a necessidade de por algumas pequenas doses de humor ao longo dos acontecimentos, numa possível tentativa de diminuir o impacto dos sustos relativamente previsíveis, o que não vejo como algo adequado, afinal, que mania é essa das produções de horror que tentam fazer gracinha o tempo inteiro? Outro problema: narrativas de origem geralmente focam na apresentação de informações sobre o passado de seus personagens e o que temos aqui é mais virtuosismo imagético e menos a construção da trajetória de Valak, demônio que possui mais informações ligadas aos pontos de informação exteriores ao filme.

A entidade de fato é parte dos estudos de demonologia, mas a representação como freira é fruto da imaginação dos realizadores da franquia. Somos informados sobre a sua “saída” do inferno, mas falta maior complexidade para um antagonista de tamanha projeção. Responsável por comandar 38 legiões, a entidade pode surgir como uma criança, bem como montada num dragão de duas cabeças, tendo ainda o poder de revelar tesouros ocultos e manipular serpentes. Assustador, não concorda? Pelo que podemos perceber ao passo que a narrativa alcança seu desfecho, os elementos da franquia estão longe de chegar deixar as salas de cinema.

Padres, freiras, exorcistas e outros sacerdotes ainda precisam continuar a cruzada do poder divino, pois pelo que me parece, os demônios vão demorar bastante tempo para abandonar a indústria do entretenimento. Essa participação ativa dos demônios na sociedade do espetáculo não tem incomodado apenas o italiano extremista Gabrielle Amorth, mas também projetos de lei brasileiros sem nenhuma consistência. Em 2017, tramitou no congresso uma proposta que tinha como foco, proibir a profanação de símbolos religiosos em espetáculos, filmes e jogos.

Criado pelo Pastor Marco Feliciano, o projeto de Lei 8615/2017, de 19 de setembro, diz não ter nada a ver com censura, mas quer evitar que símbolos sagrados sejam banalizados. Se depender de filmes como A Freira, episódio visualmente mais profano da franquia, repleto de crucifixos, cruzes em chamas, protagonismo demoníaco e outros elementos ligados às “origens do mal”, o projeto de lei vai precisar de maior impacto e coesão, pois o filme é uma ode ao tenebroso por todos os quatro cantos dos enquadramentos.

A Freira (The Nun, França – 2018)
Direção: Corin Hardy
Roteiro: Gary Dauberman, James Wan
Elenco: Taissa Farmiga,Ani Sava, August Maturo, Boiangiu Alma, Bonnie Aarons, Charlotte Hope, Demián Bichir, Emma Appleton, Flynn Hayward, Ingrid Bisu, Jamie Muscato, Jared Morgan, Jonas Bloquet, Jonny Coyne, Lourdes Nadres, Mark Steger, Natalie Creek, Samson Marraccino, Sandra Rosko, Sandra Teles, Scarlett Hicks, Simon Rhee
Duração: 110 min

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32 comentários

Lucas Santos 26 de setembro de 2018 - 10:57

O último ato é Supernatural total, não dá pra levar a sério, não mesmo. Totalmente decepcionado, piada atrás de piada, e o pior, piadas logo após momentos tensos,quebra total de clima, nem It -A coisa conseguiu ser tão cômico assim.

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Giovani R 10 de setembro de 2018 - 09:01

Sou fã dos outros 4 filmes, mas esse me decepcionou muito.
Aquele cara fazendo piadinhas o tempo todo?
Que imbecil.

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leodeletras 12 de setembro de 2018 - 01:09

Sim, alívio cômico para amaciar a plateia. Eu esperava MUITO MAIS @disqus_sZ4A2fz1KW:disqus

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José Afonso 8 de setembro de 2018 - 08:59

Acho a franquia razoável e provavelmente verei o filme, que não parece tão ruim. Pessoalmente não me assusto tanto ou fico com medo, mas as histórias tem sido razoáveis para o gênero terror.

Quanto a profanação de símbolos religiosos, e se a religião do cidadão for o satanismo?

Esse tal padre aí está incomodado com a participação de demônios nos filmes? Acho que ele tem razão, já que Jesus participa só dos especiais de fim de ano na sessão da tarde.

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:33

Pois é. O filme, repensando, já assumiria ser menos interessante do que achei quando terminei.

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Diego Borges 7 de setembro de 2018 - 20:48

Achei desnecessário chamar o padre Amorth de extremista, bem como citar o Feliciano. Tudo bem o autor pensar assim, mas essas declarações dizem mais sobre o próprio do que sobre o filme alvo da crítica, na minha opinião.

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:32

@disqus_1q49049dpk:disqus , como já dizia Oscar Wilde, “toda crítica é uma autobiografia”.

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:35

Outro detalhe: você já leu algo do padre, @disqus_1q49049dpk:disqus ? Eu li recentemente cinco livros seguidos do “cara” e te digo: ele é extremista sim senhor!

Dicas: O Sinal do Exorcista, Memória de um Exorcista, O Exorcista explica o Mal e as suas Armadilhas e Exorcistas e Psiquiatras. Comece por esses…

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Diego Borges 9 de setembro de 2018 - 22:15

Meu questionamento foi sobre a necessidade de adjetivar o padre dessa forma. Você coloca o adjetivo extremista mas não diz no que exatamente. Seria o padre Amorth um catolibã? O extremismo seria uma intransigência em defesa da fé? Acreditar na existência de um mal supremo não tornaria qualquer um assim? De qualquer forma, obrigado pelas indicações, estava querendo me aprofundar na vida do padre Gabrielle Amorth e não sabia por onde começar.

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leodeletras 12 de setembro de 2018 - 01:11

@disqus_1q49049dpk:disqus , os livros dele estão disponíveis para leitura na íntegra no ciberespaço. Cortesias da Igreja Católica para difundir os seus ideais. A fala “extremista” está dentro de um contexto, pois recentemente publiquei Exorcistas e Psiquiatras e já estou com outros textos sobre ele quase prontos para publicar.

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Rayane 7 de setembro de 2018 - 08:23

Qual a censura ?

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:33

Há sites que informam isso mais detidamente Rayane.

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Thomas Mikhailovich 7 de setembro de 2018 - 07:33

Achei o filme inferior aos dois Invocação do Mal, mas superior ao primeiro Annabelle, e talvez um pouco melhor que o segundo – que, ao meu ver, vale pela direção e o final mirabolante -, mas, o que foi trunfo em Annabelle: Creation, me incomodou neste.
Não acho necessário aquele início, e a ligação com os Warren poderia ser feita de outra forma. Pareceu filme da Marvel forçando ligação com o seu universo compartilhado.
De todo modo, o saldo é positivo e eu concordo com a nota. O roteiro poderia ser melhor, mas o filme entretém o suficiente para nos prender por um tempo. E a Freira, apesar de banalizada em alguns momentos, é bem apavorante.

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:34

A Freira teve a sua mitologia rasurada, quase não se fala nada do antagonista, um absurdo!

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Anônimo 7 de setembro de 2018 - 02:05
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Rene Had 7 de setembro de 2018 - 11:03

Ai que vccesta enganado, da medo sim, sem.noçao

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:36

Somente os dois “Invocação”. Eu não diria dar medo, digo envolver e arrepiar com o clima atmosférico.

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Anônimo 7 de setembro de 2018 - 00:32
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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:36

Fazem, mas não se comparam aos filmes centrais do universo, Invocação 1 e 2, tá @disqus_ZMtFC1obwd:disqus !

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Huckleberry Hound 6 de setembro de 2018 - 17:58

Chega a ser tão bom quanto Anabelle 2?

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:37

Prefiro ainda Annabelle 2, razoavelmente, mas pelo menos A Freira é melhor que o primeiro e horroroso Annabelle.@disqus_6l28o55IZI:disqus

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Junito Hartley 6 de setembro de 2018 - 17:32

Entao ele nao é melhor ou igual ao invocação do mal 1 e 2 e anabelle 2?

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:37

Não! @Junito_Silva:disqus

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Junito Hartley 9 de dezembro de 2018 - 17:48

Vi hj o filme, ainda bem que não gastei dinheiro indo vê no cinema, é bonzinho mais eu esperava mais algo como incovaçao 1 e 2, o segundo Anabelle achei melhor que esse.

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ding ding ding 6 de setembro de 2018 - 17:28

Esses filmes da franquia ja se tornaram o MCU dos filmes de terror. A típica receita de bolo da franquia, que mesmo sem trazer grandes novidades em relacao aos seus antecessores, cumpre o papel de entreter.

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Anônimo 7 de setembro de 2018 - 00:33
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Teco Sodre 6 de setembro de 2018 - 15:14

O filme tem até uma produção bonita, cuidadosa na fotografia e na reconstituição de época, porém seu roteiro acaba caindo nos mesmo clichês, nos sustos já esperados (tão esperados que não assustam mais), totalmente ausente de ideias que nos conquistem ou assombrem de verdade. Tudo não passa de impressões bem batidas num envólucro um pouco mais arrojado.

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:38

Exatamente. Por isso admiro apenas visualmente, porque a história é fraca! @teco_sodre:disqus

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JCésar 6 de setembro de 2018 - 10:36

Achei bem meia boca, não passa aquela sensação de terror e a estupidez dos personagens sempre indo em direção ao perigo chega a ser irritante.

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Anônimo 7 de setembro de 2018 - 00:34
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Samuel Alexandre de Lima 13 de setembro de 2018 - 10:42

Os de hoje

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leodeletras 9 de setembro de 2018 - 11:38

Sim, meia boca, mas ainda melhor que as porcarias de terror que estão saindo por ai. @jcsar:disqus

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