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Crítica | A Gardênia Azul (1953)

por Rafael Lima
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Embora o cinema Noir seja lembrado principalmente por seus detetives particulares e Femme Fatales, há uma figura bastante presente no subgênero, mas nem sempre associado a ele: os jornalistas. Essas figuras solitárias e moralmente ambíguas, sempre fazendo de tudo para obter o seu furo jornalístico encaixam-se perfeitamente no universo Noir, tendo sido exploradas pelo diretor Fritz Lang em uma trilogia Noir jornalística. O primeiro filme dessa trilogia, que ainda contaria com No Silêncio de Uma Cidade (1956) e Suplício de Uma Alma (1956), foi A Gardênia Azul (1953).

Na trama, Norah (Anne Baxter) é uma telefonista que, em seu aniversário, recebe uma carta de seu noivo que está lutando na Guerra da Coreia, apenas para descobrir que ele rompeu o compromisso após se apaixonar por uma enfermeira. Deprimida, Norah aceita um encontro às escuras com o mulherengo Harry Prebble (Raymond Burr) na boate Gardênia Azul. Bêbada, ela aceita o convite de Harry para ir até o apartamento dele, mas quando ele tenta agarra-la à força, ela se defende com um atiçador de lareira. No dia seguinte, Norah acorda em casa sem lembranças do que houve, mas quando descobre que Harry foi morto, passa a acreditar que o matou. Paralelamente, o jornalista Casey Mayo (Richard Conte), tenta chegar à assassina (batizada pela mídia de Gardênia Azul) antes da polícia, para obter um furo de reportagem.

Escrito por Charles Hoffman a partir de uma noveleta de Vera Caspary, A Gardênia Azul é considerado um filme menor de Lang, inclusive por ele próprio, que via a obra como um trabalho de encomenda. Ainda assim, o diretor consegue fazer o seu estilo presente, dando ao projeto uma aura bastante cínica na construção de universo; tom já presente no roteiro, mas que é reforçado pela direção, vide a espetacularização do crime pela imprensa ou a busca de cidadãos por seus quinze minutos de fama. Esse cinismo se reflete inclusive na construção do casal protagonista, o que acaba gerando um ruído quando o longa tenta uma abordagem mais romantizada em seu 3º ato. 

Norah vai ao encontro às cegas que transforma a sua vida em um pesadelo após ter o seu coração partido pelo noivo á quem era devotada (ela janta com a foto dele). Posteriormente, quando Casey publica uma carta no jornal oferecendo proteção para a Gardênia Azul, Norah suspira aliviada diante da possibilidade de ter encontrado um novo protetor, ainda que ele não tenha intenção de cumprir a sua palavra. Temos então uma protagonista que é sistematicamente enganada, parecendo nunca aprender qualquer lição da experiência anterior. Ainda que exista certa humanização na personagem em suas patéticas tentativas de esconder a sua verdadeira identidade de Casey após entrar em contato com ele; a ingenuidade de Norah passa a irritar á partir de certo ponto.

Lang, entretanto, parece ter plena consciência dessa tendência da protagonista de ser iludida pelos homens, e por consequência, da atitude dos homens do universo do filme. Não é coincidência que o diretor crie paralelos com os dois outros homens em quem Norah depositou a sua fé; seu noivo e Harry Prebble. A direção de arte cria ambientes muito semelhantes para os apartamentos de Casey e Prebble; distinguidos apenas por rastros de suas profissões. Outro paralelo é criado no momento em que Norah lê a carta publicada por Casey coberta por um Voice Over; que surge como um eco da cena em que a protagonista lê a carta de rompimento de seu ex-noivo. Com esses paralelos, o roteiro parece apontar que nosso protagonista masculino não é melhor do que o homem que partiu o coração de Norah, ou do outro que a assediou. 

Essa atmosfera, entretanto, acaba não se comunicando com a metade final da obra, onde após conhecer Norah, Casey se apaixona profundamente e tenta encontrar uma forma de ajudá-la. O roteiro não consegue dar credibilidade ao fato de que as poucas horas que o jornalista passou com a telefonista tenham sido o suficiente não só para Casey adotar uma postura mais humana em sua profissão, mas também abrir mão de seu comportamento boêmio, surgindo como um salto de desenvolvimento.

Apesar de um 3º ato problemático, Lang constrói um exercício de suspense competente à medida em que Norah se torna mais paranoica diante da possibilidade de ser descoberta. Nesse sentido, o filme lembra bastante o clássico britânico de Alfred Hitchcock, Chantagem e Confissão (1929), que também lidava com a paranoia de uma mulher que acredita ter matado o seu assediador em legítima defesa. A cena em que Norah sente-se pressionada quando suas colegas de quarto mostram-se preocupadas com sua mudança de comportamento possui um crescendo de tensão impressionante, com um desfecho que nos faz perder o ar junto com a personagem, através de uma Mise-En-Scéne exemplar.

A Gardênia Azul acaba se revelando como um trabalho menor de Fritz Lang, de fato. O baixo orçamento e o curtíssimo tempo de produção não permitiram uma composição visual mais acurada, mas ainda assim, o diretor consegue construir uma atmosfera magnética que tornam o longa envolvente. O elenco carismático, por sua vez, consegue suprir as deficiências de desenvolvimento que os personagens apresentam no 3º ato, fechando a narrativa com dignidade. Ainda que não seja muito memorável, A Gardênia Azul ainda é um trabalho interessante, plantando sementes na filmografia de Lang que seriam mais bem exploradas em trabalhos seguintes, especialmente no que diz respeito ao papel do jornalismo em coberturas criminais.

A Gardênia Azul (The Blue Gardenia)- Estados Unidos. 1953
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Charles Hoffman (baseado em noveleta de Vera Caspary)
Elenco: Anne Baxter, Richard Conte, Ann Sothern, Raymond Burr, Jeff Donnell, Richard Erdman, George Reeves, Ruth Storey, Norman Leavitt, Victor Sem Yung
Duração: 88 Minutos

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