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Crítica | A Garota da Moto – A Série Completa

por Leonardo Campos
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Duas temporadas e 51 episódios de muita adrenalina, mesclada com humor e estereótipos sobre a cultura brasileira. Irregular, A Garota da Moto diverte, mas incomoda com a sua estrutura que promete ser série, mas na verdade é construída com base nas fórmulas das telenovelas que diferente da estrutura seriada, possui peculiaridades que a prejudicam enquanto obra de entretenimento. Na seara contextual há uma abordagem válida e pedagógica sobre o que chamamos hoje de uberização, oferta de trabalho na era ilusória do autogerenciamento, encaminhamento reflexivo que impede a série de ser classificada como baixo da avaliação regular e se tornar ao menos mediana. Há bons momentos, situações cativantes e carismáticas, mas além dessa estruturação errônea como série, o programa também peca pela distância entre as duas temporadas, uma de 2016 e a outra de 2019, sendo a primeira mais atraente e dinâmica, diferentemente da segunda, excessivamente maniqueísta e caricata. Primeiro, proponho ao leitor uma leitura geral, para logo depois, expor a análise estética e as reflexões mencionadas acima.

Exibida entre 13 de junho de 2016 e 09 de abril de 2019, no meio, um intervalo longo dentre os dois blocos de episódios, A Garota da Moto aborda a trajetória da motogirl Joana (Christiana Ubach), uma jovem que no passado recente, se relacionou com um homem que jamais imaginou ser casado, figura que depois de anunciada a gravidez da parceria que na verdade era amante e não sabia, decidiu fugir da responsabilidade. Mais adiante, no tempo presente da série, Joana é mãe do pequeno Nico (Enzo Barone), criança bastante ativa e curiosa, mas nunca tão questionadora o quanto se espera de alguém que nunca conheceu o pai. Por ter problemas de relacionamento com o seu pai, Rei (Murilo Grossi), dono do Botecão, ponto de encontro para diversos personagens da produção, Joana se tornou uma mãe que não quer depender de homem para nada e no trabalho de entregas na Motópolis, consegue administrar as suas finanças e atender ao que é necessário na criação do seu filho. O que ela não espera é a presença de Bernarda Salles de Albuquerque (Daniela Escobar), a maniqueísta vilã da produção, esposa do falecido que no passado não assumiu Nico, mas depois de um tempo, parecia interessado em voltar atrás, mas infelizmente teve a vida ceifada em circunstâncias misteriosas.

O mistério, saberemos logo de cara, não precisa de um especialista em dramaturgia para nos elucidar. Provavelmente a esposa matou o então marido infiel e agora quer eliminar Nico, ameaça aos bens que em sua lógica de antagonista caricata, deveriam ficar apenas para ela. A primeira temporada, com sua história mais envolvente e menos frágil, traz a batalha de Joana contra os obstáculos colocados por Bernarda, uma socialite criminosa. Na segunda fase, no entanto, temos a exagerada repetição de fórmulas, numa série de episódios que parecem deslocados do que foi feito no período anterior. Situações românticas, piadas divertidas, personagens caricatos em excesso e outras demandas narrativas preenchem os núcleos da produção que se divide basicamente nos momentos da Motópolis, o ambiente da agressiva uberização; o Botecão, local comandado por seu pai; e as ruas de São Paulo, territórios de mobilidade que exalam perigo para os motoqueiros e motoqueiras que exercem cotidianamente os seus trabalhos.

Além da dinâmica entre Joana, Bernarda e a proteção de Nico, A Garota da Moto traz Val (Fernanda Viacava) e Pam (Martha Nowill) como as pretendentes de Rei, o velho Reinaldo, homem que busca consertar os seus erros como pai no passado e fornecer para Joana uma assistência mais adequada. Na Motópolis, além dos motoboys, temos Bactéria (Thiago Campos Amaral), a dubiedade em pessoa, assistente da gestão da empresa de entregas. Dentre os demais destaques, além da frota de motoqueiros, temos Liége (Gilda Nomacce), personagem que representa a mudança brusca de classe social, o estereótipo da “caipira” que exala bondade e dinheiro para quem precisa, conveniente para as necessidades de Joana e de seu grupo em algumas ocasiões onde a luta, a discussão e outros recursos imateriais não conseguem dar conta de resolver os problemas. Na direção, Júlia Pacheco e Marcelo Cordeiro, com 32 e 21 episódios comandados, respectivamente, entregam um produto que tal como mencionado, é ofertado como série ao espectador, mas na verdade possuem uma estruturação mais novelesca, algo tido por aqui como frágil, tanto na estética quanto nos requisitos narrativos.

Na direção de fotografia, Jacob Solitnerick assume a maioria dos episódios, entregando ao público algumas passagens funcionais, mas nenhum momento definitivamente artístico para este setor, burocrático em praticamente todas as suas cenas. Os figurinos de Isadora Ribas trajam os personagens e os deixam com a “cara” de seus perfis psicológicos, sociais e físicos, criaturas elaboradas pelos argumentos e roteiros de João Daniel Tikhomiroff, criador da série, juntamente com David França Mendes. Na condução musical, A Garota da Moto empolga com uma trilha urbana, mesclada por uma textura percussiva voltada ao gênero ação, em consonância com as faixas que possuem letras diretamente interpretativas do conteúdo da série. Por falar em interpretação, acredito que as desnecessárias passagens com Christiana Ubach e Daniela Escobar a comentar os acontecimentos funcionam como um atestado dos produtores no que concerne a suporta incapacidade dos espectadores em compreender o que está esmiuçado em cena. É um recurso vulgar, excessivo, prejudicial para a condução do programa que já possui uma lista de coisas para se preocupar. Menos, aqui, como no popular, seria mais. Bem mais.

Ademais, sobre a uberização mencionada, devo dizer que o tema foi o responsável por me fazer chegar no conteúdo de A Garota da Moto. Em 2019, enquanto procurava compreender melhor o assunto, deparei-me com a série como uma opção para discussão desse tema. Se usada para esse propósito educativo, os episódios da saga de Joana e Nico versus Bernarda podem ilustrar muitíssimo bem o termo que hoje é utilizado para se debater as relações comerciais na atual era do autogerenciamento, a era do just-in-time, termo que designa o trabalhador que gerencia a sua rotina de trabalho, mediado por empresas que se apresentam como tais, mas na verdade, operam por meio de novas formas de subordinação e controle do trabalho, transformando o suposto trabalhador livre de formalidade em alguém sem direitos e desprovido de garantias. É um dos caminhos para o futuro do trabalho, trilha macabra mostrada com graciosidade e senso de aventura na série, mas que na realidade, revela o quão desumanos nos tornamos na contemporaneidade, em diversas nuances, inclusive nas relações de trabalho, precarizadas. O termo é uma referência ao aplicativo de transporte “Uber”, empresa com grande visibilidade na última década e em constante ascensão em nossa rotina de mobilidade na atualidade. Para mais reflexões sobre o assunto, basta ler algumas publicações recentes sobre o tema, uma das palavras-chave dos debates na esfera virtual pública, presente nos momentos diletantes de A Garota da Moto, série irregular, mas divertida.

A Garota da Moto – A Série Completa (Brasil, 2016/19)
Criação: David França Mendes, João Daniel Tikhomiroff
Roteiro: João Daniel Tikhomiroff
Elenco: Christiana Ubach, Daniela Escobar, Murilo Grossi, Fernanda Viacava, Enzo Barone, Thiago Freitas, Felipe Montanari, Fábio Nassar, Agnes Zuliani, Dudu Sá, Ana Flávia Cavalcanti
Duração: 51 episódios (30 min. cada)

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