Crítica | A Garota Que Sabia Demais (Olhos Diabólicos)

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Entre o primeiro filme que Mario Bava assinou sozinho a direção (A Maldição do Demônio) e este A Garota Que Sabia Demais (1963), houveram dois outros longas-metragens solo em seu currículo: Hércules no Centro da Terra e A Vingança dos Vikings, ambos de 1961. Para seu projeto seguinte, o diretor investiu um bom tempo de pesquisa a fim de conseguir algo novo, tanto em forma quanto em conteúdo, o que acabou dando os frutos esperados, mesmo que muitos anos depois: A Garota Que Sabia Demais detém hoje o título bem pouco disputado de marco zero do giallo nos cinemas.

Com título e estrutura narrativa em claro tom de homenagem a O Homem Que Sabia Demais (1934, mas refilmado por Hitchcock em 1956), este longa também é conhecido no Brasil como Olhos Diabólicos, e conta a história de uma jovem leitora de livros giallo que viaja para Roma a fim de passar uns tempos com sua tia Ethel (Chana Coubert). A estadia, no entanto, começa mal, com a velha senhora morrendo já na primeira noite da jovem na cidade, o que abre as portas para uma série de acontecimentos em torno da curiosa e corajosa Nora (Letícia Román), que terá uma relação açucarada e totalmente dispensável com o médico Marcello (John Saxon) e a recepção carinhosa e oportuna de uma conhecida da velha Ethel, a vizinha Laura (Valentina Cortese).

A minha visão geral sobre o filme é exatamente a visão do próprio diretor, que achava o roteiro bem bobo, mas uma boa oportunidade para experimentar elementos narrativos diferentes aliados ao suspense e ao terror. O curioso, porém, é que o longa tem uma base cômica que vai do início ao fim da fita (ele foi escrito como uma comédia, o diretor que mudou o tom geral do enredo), tornando a trajetória de investigação muito peculiar. Como é de se esperar em um filme de Mario Bava, a cinematografia — que ele mesmo assina — e a direção de arte são os verdadeiros atrativos, e excelentes experimentos visuais não faltam a este filme. Brincadeiras com exposição do flashback, aplaudível trabalho de luz e sombra, uso da montagem e de planos em perspectiva para confundir o ponto de vista do espectador — especialmente nas cenas externas, nas Escadarias da Praça da Espanha, em Roma — e um labirinto dramático muito bom de se acompanhar, criam aqui as raízes para um gênero que alçaria voos muito altos nos anos seguintes.

Como disse no início, o romance do roteiro é descartável e imensamente irritante, além do fato de o texto sofrer muito com as incontáveis conveniências, a ponto de a piscadela cômica no fim da obra não ter o efeito que se pretendia porque estoura uma bolha de exageros, facilidades e suspensão da descrença com as quais o público já vinha lidando desde os primeiros cinco minutos de projeção. A obra, no entanto, tem a seu favor o grande escrúpulo estético e a interessante busca por um “assassino do alfabeto“, com cenas impagáveis de suspense seguidas de susto, boa surpresa no final e uma presença pequena mas notável de Valentina Cortese no elenco, para mim, a única atuação de real destaque na obra. Nascia assim um novo gênero, o fruto sangrento e estiloso do cinema italiano.

A Garota Que Sabia Demais (Olhos Diabólicos) — La Ragazza Che Sapeva Troppo, Itália, 1963
Direção: Mario Bava
Roteiro: Mario Bava, Ennio De Concini, Sergio Corbucci, Eliana De Sabata, Mino Guerrini, Francesco Prosperi
Elenco: John Saxon, Letícia Román, Valentina Cortese, Titti Tomaino, Luigi Bonos, Milo Quesada, Robert Buchanan, Marta Melocco, Gustavo De Nardo, Lucia Modugno, Giovanni Di Benedetto, Franco Moruzzi, Virginia Doro, Dante DiPaolo
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.