Crítica | A Gente Se Vê Ontem

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Produzido por Spike Lee e misturando ficção científica com problemas sociais e dilemas morais, A Gente Se Vê Ontem (2019) conta a história de uma dupla de amigos do Ensino Médio que estão trabalhando em uma invenção capaz de fazê-los voltar no tempo. A impulsiva Claudette ‘CJ’ (Eden Duncan-Smith) e o analítico Sebastian (Dante Crichlow) são dois jovens-prodígio que fazem contantes testes para a máquina do tempo que construíram, terminando por realizar a primeira viagem e se envolvendo em um problema muito maior do que esperavam, trazendo para o enredo os complicados problemas envolvendo viagens no tempo: a não-interferência e os paradoxos.

O roteiro de Fredrica Bailey e Stefon Bristol (que também dirigia o filme) faz uma criativa mistura entre ciência, teorias reais sobre viagem no tempo, geração de energia e mais um monte de bobagens para preencher os espaços entre esses temas, o que é perfeitamente compreensível — afinal de contas esta é uma ficção, não um documentário educativo. Passado este ponto, o público começa a acompanhar o cotidiano da dupla protagonista, vendo que pouco a pouco alguns problemas do passado de CJ e de seu irmão revelam-se e abrem as portas para um conflito que, em pouco tempo, irá se ligar à parte científica da aventura.

O ponto de partida aqui é bastante inteligente, porque traz o início das férias de verão para a dupla e, com isso, já explica a criação do projeto e o contato com certos tipos de material de laboratório, além de dar uma piscadela para o público, com Michael J. Fox interpretando um professor e repetindo o jargão do Doc em De Volta Para o Futuro. Assim que nos acostumamos com a família, a vizinhança e alguns conflitos em torno desses jovens, os problemas da obra começam a aparecer. E o que vai nos irritando progressivamente e se confirma no final da fita é a terrível construção de CJ, a insuportável personagem de Eden Duncan-Smith. Pode-se até trazer à tona o fato de que a personagem foi concebida dessa forma mesmo, com postura de poucos amigos e ações bastante questionáveis, especialmente em relação aos laços pessoais. Até aí, nenhum problema. A coisa se torna complicada quando nem mesmo uma sequência de tragédias é capaz de fazer a garota mudar de pensamento e postura.

O roteiro sustenta uma estranha ideia fixa por parte de CJ, com sua teima de retorno ao passado, algo que no início é compressível mas depois se torna insustentável. Lá no fundo, temos ecos de Efeito Borboleta, mas sem o bom desenvolvimento de personagem daquele filme. Claro que a garota passa por diferentes estágios emotivos, mas isso não configura evolução, porque ela tem esse ciclo de emoções ao longo de toda reprodução. E notem que é justamente por conta dela e pela forma como o roteiro insiste em deixá-la casca-grossa e irredutível, que o conflito moral do filme se perde quase que totalmente, o que para mim foi uma grande frustração. O texto estava fartamente ancorado nessa ideia, advinda da não-interferência, mas se a gente tem uma jovem cientista que é estúpida demais a ponto de sequer medir os estragos que está fazendo com tantas mudanças em sua timeline, isso é sim um grande problema. De todas as más escolhas do roteiro (como o mal tratamento dado a Eduardo, personagem de Johnathan Nieves) a forma como levam adiante o caráter de CJ é certamente a pior delas.

Com cenas de violência policial, violência urbana e conflitos dentro de uma comunidade que podem gerar uma bola de neve de vingança e “prestação de contas”, A Gente Se Vê Ontem consegue ser divertido, emotivo e bem interessante ao mostrar o conceito de viagem no tempo dentro de um ambiente diferente, protagonizado por jovens e brincando com algo bastante sério, fazendo com que a gente se questione: caso pudéssemos viajar para o passado, nós mudaríamos alguma coisa? Deveríamos mudar? O filme tem uma ótima trilha sonora e eu gostei bastante do tom em forte contraste da fotografia, especialmente nas cenas diurnas em plena rua, onde também temos uma variedade de cores em todo o bairro. Pudesse trabalhar melhor os seus conflitos, especialmente no final, o resultado seria ainda mais agradável e divertido.

A Gente Se Vê Ontem (See You Yesterday) — EUA, 2019
Direção: Stefon Bristol
Roteiro: Fredrica Bailey, Stefon Bristol
Elenco: Eden Duncan-Smith, Dante Crichlow, Astro, Marsha Stephanie Blake, Myra Lucretia Taylor, Wavyy Jonez, Carlos Arce Jr., Patrice Bell, Khail Bryant, Waliek Crandall, Frank Harts, Donna Hayes, Allen Holloway, Ejyp Johnson, Damaris Lewis
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.