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Crítica | A Gifted Man – A Série Completa

por Leonardo Campos
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Medicina é um curso caro. Mesmo aqueles que atravessam a longa jornada na área, os custos para se preparar, depois se manter e posteriormente se especializar são exorbitantes. Não apenas financeiramente, mas também no que concerne ao processo de dedicação exclusiva aos estudos para o estabelecimento de um profissional de excelência. Talvez por isso, muitos profissionais deste campo de atuação não tenham interesse em atender gente pobre. A Gifted Man possui um gancho para isso, ponto nevrálgico e arco central da série que depois se dispersa por outras subtramas. Depois que a sua esposa sofre um acidente de carro e morre, o protagonista Dr. Michael Holt (Patrick Wilson) ainda vive alguns traços do luto, mas já consegue sair, curtir com os pouquíssimos amigos que tem e viver intensamente a sua vida profissional. Ele é bonito, charmoso, competente, financeiramente bem-sucedido e mora num apartamento de causar inveja aos solteiros que adoram utilizar esses atributos para surpreender paqueras.

As coisas vão mudar, no entanto, nos momentos que seguem os 16 episódios da série, produção que teve o piloto dirigido pelo pomposo cineasta Jonathan Demme. Uma pergunta, à priori, se estabelece: como haverá mudança de cenário para este médico? Simples: ele receberá a visita de Anna Paul (Jennifer Ehle), a sua amada já falecida. Michael conversa com ela como se a mesma estivesse viva. Algum problema de ordem neurológica? Tumor cerebral? Esquizofrenia? Tinha dito que era simples, mas será que é mesmo? É. O foco da série é a transformação do médico num ser humano, digamos, mais humilde, menos arrogante e egocêntrico que o habitual. O seu talento como cirurgião talentoso agora pode ser utilizado não apenas para as pessoas ricas atendidas no hospital luxuoso da cidade, mas também para os frequentadores da clínica comunitária criada por sua ex-exposa. A criadora dessa história é Susannah Grant, showrunner que faz parceria com Daniel Truly e Zach Lutsky para escrever os episódios desta temporada que seria a primeira e se tornou a única, depois do cancelamento anunciado pela CBS.

Dr. Michael Holt é muito parecido com os médicos abordados em algumas reportagens recentes sobre o desinteresse dos formados em Medicina em atender as populações mais precárias ou agarrar uma oportunidade no interior. As motivações são variadas e o tema é tópico polêmico. Lembro que há algum tempo, Mário Scheffer, da USP, comentou que o perfil dos alunos da área é muito distante da população do território, agora falando de Brasil, apenas para questões de ilação. Dos 4.061 graduados entre 2014 e 2015, apenas 3,7% se dizem interessados em atender aos membros desta demanda. Baixos salários? Ausência de glamour? São tantos os casos, cada um diferente de si e analisado em suas particularidades. Alguns são como Dr. Holt, desinteressado nas questões sociais que gravitam em torno de sua existência. O lance é alimentar o ego, fazer viagens caras e cada um que se vire com as oportunidades que possuem, afinal, meritocracia não é mito para alguns? Na série, no entanto, o protagonista vai “mudar”.

Quem o acompanha nesta trajetória é a sua competente assistente fiel Rita Hall (Margo Mantindale), uma ex-enfermeira dedicada aos negócios de seu chefe. Ela é quem organiza toda a sua vida. Das flores para um possível flerte aos demais lembretes cotidianos pessoais e profissionais. Clichê, não é mesmo? Sim, confesso, mas o carisma de Mantindale nos faz esquecer que esse é um personagem muito arquetípico, etc. Ela é o seu maior elo com a parte elitizada da história. Após assumir os negócios da clínica da ex-exposa “sobrenatural”, Michael conhece a dedicada Dra. Kate Sykora (Rachelle Lefevre), médica que é prática e dinâmica, do tipo que resolve tudo. E também parece inclinada a ser o motivo para o médico amar mais uma vez. Eles trabalham com o Dr. Zeke Barnes (Rhys Coiro), o xamã Anton (Pablo Schreiber), a assistente social Autumm (Afton Williamson), responsável por dar vários pitacos e até funcionar como alívio cômico de algumas passagens, elenco complementado por Christina Holt (Julie Benz), irmã de Michael, mãe de seu sobrinho, o astuto Milo (Liam Aikin).

Com um tom diferencial dos programas dominantes na seara do drama médico, isto é, Grey’s Anatomy, House e Plantão Médico, A Gifted Man mesclou fantasia e realidade e cumpriu bem a sua missão. Infelizmente, não foi adiante, com alguns arcos ainda em aberto, mas nada que nos impeça de consumir o material e ficar bastante antenado, haja vista o empenho de Patrick Wilson no desenvolvimento de seu personagem, bem como o carisma do elenco coadjuvante. Ademais, o clima em tom de neblina estabelecido pela direção de fotografia assinada por Tom Weston e Tak Fujimoto envolve o drama num clima misterioso, até mesmo frio em algumas passagens, com paletas bastante voltadas aos tons urbanos contemporâneos nos ambientes de luxo do hospital e a presença maciça do amadeirado na clínica que representa a pobreza, o caos, a falta de recursos, recursos visuais empreendidos pelo eficiente design de produção de John Kasarda. As ruas agitadas da cidade também servem de cenário para muitos momentos da série, desfocada apenas da abordagem exclusivista dos ambientes clínicos e hospitalares.

Ora trajados como cirurgiões em suas fardas convencionais, ora arrumados dentro de suas respectivas necessidades dramáticas, os personagens em A Gifted Man são acompanhados pelo trabalho de Suzanne McCabe nos figurinos, setor também eficiente ao revelar figuras ficcionais que vão do luxo ao popular e transmitem as suas características psicológicas, físicas e sociais por meio do vestuário. Ainda na seara estética, a maquiagem supervisionada por David Presto atende aos requisitos básicos das cenas com manipulação de próteses, órgãos, dentre outros momentos mais invasivos na relação médico-paciente. Na condução musical, W. G. Snuffy Walden cumpre um trabalho discreto, objetivo e pouco melodramático, ideal para o programa que nos apresenta, ao longo de seus episódios, a tradicional estrutura de 45 minutos por unidade, exibidas entre 2011 e 2012. Além de Jonathan Demme, Constantine Makris, Jonathan Kaplan e David Platt assumiram a direção de alguns episódios, todos geralmente alinhados dentro de um padrão traçado pela série que sempre mesclou dramas da clínica em comparação ao hospital.

Ricos e pobres, paralelamente, lutando por suas vidas em situações desafiadoras para todos os lados, mesmo que os endinheirados enfrentem a crise com mais chances de conseguir o tratamento adequado, fundamentado pela mais alta tecnologia. Aqui, os casos não mudam muito do que geralmente encontramos no terreno das séries médicas: acidentes de carro, imprudência ao realizar esportes, problemas de visão, células falciformes, grávidas ameaçadas por tumores cerebrais ou na menoridade, em busca de procedimentos nada convencionais, o habitual momento em que um médico renomado descobre-se vencido por uma doença incurável que determina os seus dias de vida, além dos atendimentos exóticos, desta vez sem parasitas oriundos de regiões “remotas” do planeta, mas uma paciente que contraiu raiva depois de ter sido “atacada” por um morcego durante uma estadia num acampamento interiorano. Esses são os dramas enfrentados pelo time de médicos na clínica e no hospital, num desfecho com chances de reversão na vida do protagonista, não apenas profissionalmente, mas no terreno afetivo.

A Gifted Man (Idem, Estados Unidos/2011-2012)
Criação: Susannah Grant
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Patrick Wilson, Jennifer Ehle, Margo Martindale, Pablo Schreiber, Rachelle Lefevre, Rhys Coiro, Mike Doyle, Tijuana Ricks
Duração: 45 min. (Cada episódio – 17 episódios no total)

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