Crítica | A Glória e a Graça

Um filme problemático para discutir temas problemáticos. Assim podemos definir A Glória e a Graça, drama dirigido por Flávio R. Tambellini, cineasta que teve como direcionamento o roteiro de Lusa Silvestre.  Há, antes de começar a análise semiótica e contextual do filme, uma série de questões importantes sobre a produção, em especial, a escolha da atriz Carolina Ferraz para a interpretação de uma das irmãs que protagonizam a história. Conforme relatos nas redes sociais e em algumas críticas em sua época de lançamento, o drama falha por não conceder a oportunidade de protagonismo para uma atriz travesti devidamente capacitada, algo que segundo a opinião pública, fez o filme adentrar pelo mesmo terreno que crítica em seu discurso.

Em suma, a abertura para uma avalanche de contradições. Concordo com o ponto de vista, mas isso, no entanto, não exclui alguns méritos de A Glória e a Graça como filme brasileiro que dá conta da sua mensagem sobre a luta e a sobrevivência de grupos tão marginalizados. Berenice Procura talvez seja a produção que tenha corrigido esse equívoco, dando a uma atriz transexual a chance de brilhar em cena. No caso do filme de Tambellini há motivações até compreensíveis, principalmente quando somos informados sobre o desejo e o empenho da atriz Carolina Ferraz no processo de estudo e concepção para trabalhar a sua personagem, algo desafiador para a sua carreira bastante versátil. Diante do exposto, polêmicas à parte, vamos seguir rumo à análise de A Glória e a Graça?

Enquanto projeto estético, o filme peca por algumas escolhas equivocadas, em especial, na direção de fotografia e em alguns efeitos poéticos que tornam algumas passagens sonolentas. Falta, às vezes, uma captação de imagem mais expressiva. Gustavo Hadba, responsável pela direção de fotografia, entrega momentos repletos de altos e baixos, mas o saldo geral é positivo. A condução musical de Pedro Tambellini é correta, sutil e graciosa, o que permite maior ritmo para a montagem de Sérgio Mekler, setor que carece de uma relação mais dinâmica ao desenvolver os seus atos. Ao assumir a direção de arte, Zé Luca concebe espaços que refletem adequadamente o design dos personagens, num trabalho visual cuidadoso e belo.

Mas, afinal, qual a história que estes elementos concatenados contam ao espectador? Inspirado no texto de Mikael de Albuquerque, o filme nos apresenta o reencontro entre Glória (Carolina Ferraz) e Graça (Sandra Corveloni), irmãs separadas pelos entraves relacionados aos rumos que suas respectivas vidas tomaram com a chegada do amadurecimento. Quando Graça procura Glória, na verdade estava atrás de Luiz Carlos, personagem que temos acesso apenas pelos diálogos que despejam memórias mergulhadas em muitas mágoas e ressentimentos.

Há vários problemas mal resolvidos no passado, mas o maior deles é a questão de apoio e companheirismo com a mudança radical adotada por Glória, anteriormente Luiz Carlos, pessoa que segundo relato do próprio personagem, “era uma mulher presa no corpo de um homem”. O prefixo “re” é um dos regentes da narrativa sobre reconciliação, readaptação, recomeço, reconstrução, etc. Ciente da sua responsabilidade no reajuste da relação abalada há quinze anos, Graça procura Glória não apenas para matar as saudades, mas para resolver uma questão importante que mexe com o futuro de seus dois filhos, a desafiadora Papoula (Sofia Marques), adolescente envolvida nas malhas da rebeldia juvenil, e o doce e gentil Moreno (Vicente Kato).

Glória, inicialmente reativa, demonstra algumas fagulhas de sentimentalismo, até ficar irritada ao entender o que de fato a sua irmã deseja, isto é, alguém que seja tutora de seus filhos, pois ela está desesperada diante de seu último boletim médico: uma doença terminal. Ao correr contra o tempo, Graça quer reestabelecer a relação com Glória, tendo em vista resolver alguns dos problemas que deixou ao longo de sua vida, mas muito além disso, dar aos seus filhos a possibilidade de ganharem os cuidados de alguém de sua extrema confiança.

Num cenário opressor onde a exclusão social das travestis está intimamente ligada ao processo discriminatório no ambiente familiar, A Glória e a Graça é um filme pontual e correto, ao discutir sem exageros, sentimentalismos vulgares a trajetória de vidas que de certa maneira, foram separadas pela nefasta presença do preconceito velado, máquina de destruição tão poderosa quanto o preconceito declarado. Ao longo de seus 93 minutos, personagens evoluem, discussões sobre aceitação e respeito são estabelecidas, num drama que dialoga com muitas produções cinematográficas brasileiras dos últimos anos, tramas interessadas em focalizar o drama familiar como ponto nevrálgico de suas narrativas.

A Glória e a Graça (Brasil, 2017)
Direção: Flávio R. Tambellini
Roteiro: Lusa Silvestre, Mikael de Alburquerque
Elenco: Carol Marra, Carolina Ferraz, Cesar Mello, Sandra Corveloni, Vincente Kato, Sofia Marques, Roberto Maya, Tomas Stavros
Duração: 93 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.