Crítica | A Grande Cidade

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estrelas 2,5

Subtitulado ...ou As Aventuras e Desventuras de Luzia e Seus 3 Amigos Chegados de Longe, este filme de 1966 é um arroubo lírico-social de Cacá Diegues, um daqueles filmes que assistimos e, ao considerar a carreira posterior do cineasta, temos base para soltar o ditado “quem te viu, quem te vê“.

Mistura de amor ao Rio de Janeiro, jornada urbana sobre a fragilidade de alguém diante de condições sociais que ignora, ou crônica um tanto afetada de uma grande cidade, o filme nos arrasta do cartão postal para os infernos particulares dos cidadãos e seus pequenos momentos de felicidade. Lá estão o samba carioca — Zé Keti tem uma ótima e tragicômica participação no filme –, Maria Bethânia cantando Anda Luzia e a situação que marcou o Brasil em meados do século XX, a migração de nordestinos para as capitais do Sudeste, a fim de trabalhar e poder dar melhores condições de vida para suas famílias. Nesse sentido, a história nos é bastante conhecida, e expõe os preconceitos, o medo e o choque cultural e torno daquele que chega ao lugar.

O roteiro, escrito pelo próprio Diegues, em parceria com Leopoldo Serran, começa de maneira cínica, falando sobre o “Paraíso terrestre” que é a cidade do Rio, sobre tudo o que ela tem de bom para oferecer, sobre o que a distingue das outras grandes cidades. No minuto seguinte, Calunga, personagem interpretado por Antonio Pitanga — a maior parte do tempo, muito bem em cena –, sai na rua perguntando, de maneira retórica, coisas sobre o cotidiano das pessoas. Você vai ao cinema? Que horas você acorda? Que horas você vai dormir? Uma reflexão sobre o que é realmente VIVER em uma cidade onde não há tempo para isso é levantada e guiada por Calunga até pouco depois do aparecimento de Luzia (Anecy Rocha, com um trabalho de altos e baixos — a cena do clímax é uma das piores que ela interpreta, algo ainda piorado pela direção demasiadamente solta de Diegues), dissipando-se, e dando origem a um outro tema, que então se bifurcará nos minutos seguintes.

Essa transferência de atenção do roteiro causa o maior impacto negativo da trama, e a forma irregular que os blocos posteriores serão explorados não ajudam muito sua aceitação completa. A película avança entre momentos de grande beleza — o passeio de Luzia e Inácio pela cidade, por exemplo — e momentos que deveriam se complementar, mas nem o roteiro nem a montagem (a pior coisa da fita) se entendem, gerando pontos de caos dramático e sequencial como a cena da igreja, as incursões sem propósito de Calunga no meio da obra, o desequilíbrio no bloco que deveria explorar o personagem Inácio, de Joel Barcellos, e a conclusão do dilema de Jasão (Leonardo Villar com poucos bons momentos) são exemplos disso.

Em sua visão sobre a cidade, seus habitantes, os dissabores a desigualdade, as muitas faces dos malandros e da malandragem, o questionamento de Deus e o descaso do Estado para com qualquer pessoa que não seja político ou protegido de alguém importante, estão entre as coisas mais interessantes do longa, juntamente com a linha sentimental para a personagem de Luzia, cuja fragilidade e teimosia, aliados ao sonho de ser feliz, fizeram com que tentasse até o último momento perseguir o seu suposto “gerador de felicidade”. É irônico, nos enraivece pelo contexto, mas é uma situação real e que ainda existe. Por outro lado, a produção não consegue se organizar bem na linha da forma, especialmente na montagem, diminuindo o resultado final. É sempre importante lembrar que a dublagem, substituindo a captação direta do som, até pode ser considerada um problema — algo bastante comum no cinema brasileiro até final dos anos 80 –, mas presente caso, esta é uma dos menores preocupações do filme.

A obra vele como um retrato do Rio de Janeiro entre o carnaval e a violência urbana, além de ser um registro histórico do tempo em que Cacá Diegues se importava em fazer filmes sobre coisas de fato relevantes.

A Grande Cidade (Brasil, 1966)
Direção: Carlos Diegues
Roteiro: Carlos Diegues, Leopoldo Serran
Elenco: Leonardo Villar, Anecy Rocha, Antonio Pitanga, Joel Barcellos, Sérgio Bernardes, Hugo Carvana, José Cruz, Gustavo Dahl, Maria Lúcia Dahl, Arnaldo Jabor, Zé Keti, Luiz Carlos Maciel
Duração: 80 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.