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Crítica | A Grande Escolha

por Ritter Fan
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Só nos EUA mesmo para encontrarmos um filme sobre esporte que trata não do esporte em si e também não do negócio do esporte como em diversas outras obras memoráveis, mas sim no específico, intrincado e razoavelmente hermético sistema de recrutamento de novos jogadores de universidades espalhadas pelo país para a National Football League -NFL. E, como o título original deixa claro – Draft Day – o longa de Ivan Reitman com Kevin Costner no papel principal é exatamente sobre as 12 horas de tensão que levam ao grande momento, obviamente transformado em festa televisionada como tudo por lá, em que os futuros astros – e fracassos – do futebol americano são escolhidos e anunciados com toda a fanfarra.

Creio que só mesmo os fãs mais ardentes do esporte conheçam os detalhes desse processo de recrutamento, mas, em linhas bem gerais, o sistema existe para permitir, digamos, oportunidades iguais para os mais diversos times escolherem os potencialmente melhores jogadores com base nas estatísticas universitárias que são publicadas e estudadas cientificamente por gigantescas equipes em complexos esportivos multimilionários. Ou seja, há uma preocupação da NFL de impedir que o time mais rico tenha constantemente mais oportunidades de abocanhar o maior quinhão das promessas do mercado ano após ano, criando desequilíbrio maior ainda entre cada equipe. Se o sistema funciona de verdade, não saberia dizer, mas a intenção é boa pelo menos.

Os roteiristas Scott Rothman e Rajiv Joseph, ambos em seu primeiro longa, perceberam de início o quanto o público – mesmo americano – provavelmente desconhece os meandro do sistema e fazem o que podem para destrinchar os detalhes ao longo das quase duas horas do filme que se passam da manhã à noite do “dia do recrutamento” de 2014. Para isso, eles recorrem ao mais antigo e pior expediente: o diálogo expositivo. Pelo menos a meia hora inicial existe unicamente para situar o espectador sobre a importância do dia e de seus detalhes, com Reitman, por seu turno, mantendo o foco em Sonny Weaver Jr. (Costner), gerente do Cleveland Browns, para facilitar a “aula”.

O resumo da ópera é algo assim: Weaver tem a 7ª escolha da noite e Anthony Molina (Frank Langella), dono de seu time, o pressiona por querer algo explosivo para dar satisfação aos fãs. Na manhã do grande dia, quando o longa começa, ele recebe uma ligação de sua contrapartida do Seattle Seahawks, Tom Michaels (Patrick St. Esprit), que tem a 1ª escolha, oferecendo uma troca que custaria bastante cara para os Browns, mas que permitiria Weaver fazer justamente o tipo de escolha que Molina exige. Do lado dos jogadores, Weaver recebe pressão por parte de Vontae Mack (Chadwick Boseman), atleta cobiçado que deseja muito jogar para os Browns, do gerente de Bo Callahan (Josh Pence), considerado como o grande nome do dia e, finalmente, de Earl Jennings (Terry Crews), lenda dos Browns, gerente e pai de Ray (Arian Foster) que gostaria muito que seu filho continuasse seu legado.

Como se isso não bastasse, o roteiro ainda carrega no lado emocional, criando coincidências melodramáticas que cansam pelo exagero e tumultuam um pouco o filme. A primeira delas é Ali Parker (Jennifer Garner), namorada semi-secreta de Weaver que também é executiva de finanças dos Browns, ter informado para ele, na véspera, que estava grávida e ele tendo tido uma reação apática à novidade, algo que é objeto de tensão entre ele ao longo da narrativa. O segundo aspecto é a pressão que sente por ter demitido seu pai – treinador dos Browns – há dois anos e ele ter falecido há duas semanas, com sua mãe (Ellen Burstyn) aparecendo do nada para jogar as cinzas do pai justamente no Dia D. E é claro que há ainda o obrigatório conflito de egos entre Weaver e o atual treinador do time, Vince Penn (Denis Leary), que se sente alijado do processo de escolha.

Em outras palavras, é uma pequena bagunça que já começa no meio do frenesi, com a poeira assentando e tudo passando a ficar mais focado só mesmo no terço final, quando o espectador já está mais acostumado com a dinâmica de bastidores do dia do recrutamento e entendendo – ainda que provavelmente só por cima – o processo todo. Reitman usa e abusa do split screen para permitir que Costner “contracene” ao telefone com todos os personagens que não estão em Cleveland e depende muito do carisma do ator para fazer com que seu personagem funcione como uma âncora narrativa que não serve para afundar o barco como alguns poderiam concluir, mas sim justamente para mantê-lo no mesmo lugar, evitando que a hermética história se perca completamente.

Por incrível que pareça, apesar de por vezes parecer uma peça publicitária alongada da NFL – há um cuidado enorme do roteiro para não ferir os sentimentos de ninguém e de não vilanizar de verdade uma pessoa sequer – Reitman até que consegue extrair alguma fluidez do roteiro truncado e cheios de momentos do tipo “deixe-me explicar o que está acontecendo”. Os últimos 15 minutos são particularmente muito bons, pois literalmente extraem leite de pedra ao criar tensão em cima da estratégia de enxadrista e jogador de pôquer de Weaver, por mais que o resultado de tudo seja perfeitamente previsível como a maior dos filmes de esporte acaba sendo.

Apesar de seu valor por criar uma história concatenada – mas cheia de conveniências – sobre as 12 horas de um dia que pouca gente realmente conhece, o filme inevitavelmente sofre pela armadilha que é sua proposta. O didatismo, o hermetismo e a impossibilidade de Costner de realmente contracenar com alguns personagens, notadamente os de Boseman e de St. Esprit, que acabam ganhando não mais do que pontas glorificadas, além de toda a avalanche emocional justamente nesse dia específico dentre os 365 possíveis, acabam rebaixando A Grande Escolha à categoria de curiosidade apenas. Curiosidade por tentar entender um pouco sobre o sistema de recrutamento do futebol americano, por ver Costner mais uma vez carregando um filme nas costas, pelo longa ser palco para diversos atores variados terem seus cinco minutos de destaque (até os simpáticos Sam Elliott e Tom Welling aparecem!) e curiosidade por ver Reitman fazendo o que pode para conduzir um filme que tinha tudo para dar muito errado.

A Grande Escolha (Draft Day, EUA – 2014)
Direção: Ivan Reitman
Roteiro: Scott Rothman, Rajiv Joseph
Elenco: Kevin Costner, Jennifer Garner, Denis Leary, Frank Langella, Chadwick Boseman, Tom Welling, Ellen Burstyn, Sam Elliott, Rosanna Arquette, Terry Crews, Arian Foster, Griffin Newman, Patrick St. Esprit, Chi McBride, W. Earl Brown, Kevin Dunn, Sean Combs, Josh Pence, Wallace Langham, Christopher Cousins
Duração: 110 min.

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