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Crítica | A Gruta (2020)

por Leonardo Campos
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A ascensão do horror enquanto gênero para a diversificação da cinematografia brasileira continua com toda força e tem ganhado cada vez mais espaço no streaming, localização ideal para este tipo de produção que muitas vezes encontra obstáculos surreais no esquema de distribuição das salas de exibição nacionais. A Gruta é mais um exemplar dos esforços de nossos realizadores em entregar ao público históricas conveniadas aos esquemas clássicos do horror, mesmo que ainda haja alguns empréstimos nada sutis das fórmulas estrangeiras, em especial, do bom e dominante cinema estadunidense. Longe de recorrer ao costumeiro processo analítico da critica vira-lata que tem ganhado bastante projeção no campo intelectual brasileiro, sempre a valorizar o que é externo e desconsiderar as nossas potencialidades e estilos próprios, confesso que soube bastante sobre o filme antes mesmo de começar a assistir. Foi um processo inverso porque desconhecia as origens da narrativa e descobri aleatoriamente enquanto realizava uma pesquisa na internet que sequer me recordo o ponto de partida. O que sei é que me debati com a sinopse, as críticas e o trailer de A Gruta antes mesmo de chegar ao filme.

Já saí em sua defesa mesmo sem conferir, pois muito do que se encontra por aí para ler é um feixe de opiniões equivocadas e de opiniões que pelo que expressam na interpretação, nos deixam na dúvida se a pessoa de fato assistiu ao filme que comenta. Esse breve preâmbulo é para constar que advoguei por uma narrativa e ainda que ela apresente todos os seus problemas, tais como a falta de cuidado com a abordagem religiosa da matriz africana e a bizarra cena da banheira com a ótima Carolina Ferraz num desempenho momentâneo que não condiz com a sua presença firme ao longo de toda a produção, devo dizer que A Gruta é mais um dos diversos passos para o avanço da presença do horror como gênero genuinamente brasileiro, cada vez mais forte por aqui, algo que nos leva para além da vinculação constante exclusivista com Zé do Caixão como nossa única referência durante décadas, bem como os eixos repetitivos das comédias com atores globais e os conflitos entre sertanejos e favelados, marco do Cinema Novo e do Cinema da Retomada, períodos tomados por suas “estéticas”  e “cosméticas” da Fome.

A sua abertura já é imersiva. Luz de compensação numa personagem aflita que foge por um local tomado por escuridão. Branca, ela logo é capturada por vários homens negros e num jumpscare, somos levados para a cena de seu sacrifício. Corte para a atualidade, descobriremos mais tarde, ou talvez tenhamos até que adivinhar que a moça é parte da casa onde os escravos no século XIX se rebelaram e mataram todos os seus donos por causa dos maus-tratos. Relâmpagos, trovoadas, questões sobre fé e escolhas, além de referências claras aos clássicos O Bebê de Rosemary, O Exorcista e O Sexto Sentido permeiam os 90 minutos de A Gruta, história que ganha continuidade nos apresentando a polícia indo ao encontro de Helena (Carolina Ferraz), uma freira que precisa ir ao hospital conversar com Jesus (Arthur Vinciprova), um homem internado e que diz que irá confessar a sua história apenas para alguém da igreja. O que sabemos, inicialmente, é que ele esteve numa expedição turística com a esposa e dois amigos, passeio que terminou com a morte de todos sob circunstâncias macabras.

Ele nega ter matado os seis companheiros de viagem, mas tudo indica que houve assassinato. Vagamente baseado numa história verídica ocorrida em Carrancas, interior de Minas Gerais, um relato sobre os tais escravos rebelados que teriam sido encontrados com seus corpos intactos muitos anos depois numa gruta, após a fuga dos assassinatos de seus donos, o roteiro e direção de Arthur Vinciprova, também protagonista da narrativa, conta com a direção de fotografia de André Ribeiro e Gutemberg de Freitas para a construção da atmosfera de horror que se estabelece pela iconografia religiosa que a câmera é sábia ao captar na visita da polícia ao reduto religioso de Helena, além dos corredores vazios e escuros do hospital onde se encontra o acusado de homicídio. As escadarias do local, desde a sua breve apresentação, já incitam a descida aos infernos que será a trajetória de Helena, colocada em uma situação que envolve mistério e presença de forças sobrenaturais reforçadas pelos enquadramentos embaixo da cama, pegadas, design de som que reforça as portas rangendo e a constante presença de espelhos, superfícies aptas ao susto fácil, mas que aqui apenas indicam um clichê que não se apresenta.

A trilha sonora de Fernando Duarte também cumpre bem a sua função colaborativa, dando ao filme uma textura firme na estética, algo que não se faz muito bem no campo da dramaturgia, pois ao passo que a história avança e os flashbacks amarelados indicam o passado dos personagens e suas condições psicológicas, pouco é feito para dar destaque ao centro nervoso do filme: a freira diante da fé e de algo que na teoria, é apenas imaginado ou lido nos textos religiosos, mas pouco presente em sua vida real, isto é, o sobrenatural. Carolina Ferraz é uma atriz de enorme potencial e aqui ganha pouco espaço para brilhar, além de protagonizar cenas constrangedoras como a parte em que está na banheira e é atacada por uma entidade e a travessia em um espaço escuro com luz de velas, algo que não coaduna muito com a proposta contemporânea da narrativa. Entende-se o interesse em criar algo na linha gótica, mas aqui não pegou muito bem. Outro problema é a história da gruta, contada por Jesus. Do momento em que há o desmoronamento ao estabelecimento da possessão que toma o corpo de sua esposa Ana (Mayara Justino), as coisas perdem o ritmo, os desempenhos dramáticos não se equilibram e a narrativa se arrasta.

A maioria dos elementos são amarrados. A guia do passeio, no flashback de Jesus, conta a história da gruta, somos informados pelo uso de ponto de vista e de alguns sons estranhos que ali há uma força demoníaca ancestral, um a um, os envolvidos na aventura são ceifados de maneiras diversas e o rapaz que fica para contar a versão dos fatos é constantemente questionado pela polícia, mas começa a ser levado à sério por Helena. Por fim, apesar de não amarrar o ponto de abertura, somos levados a crer que ali é a tal chacina dos escravos contada pela cidade, acontecimento que deixou cicatrizes na região e trouxe da cultura alheia, mais uma vez, a denominação demoníaca oriunda do “outro”, um equivoco que deveria ter sido evitado pelos realizadores apenas com a consultoria de alguém da área que soubesse o descuido social e antropológico desta representação que coloca mais uma vez o cristianismo católico em confronto com a interpretação errônea dos cultos africanos como algo associado ao demoníaco. Na minha ânsia de defender A Gruta antes de conferi-lo, acertei na abordagem de gênero, mas fui solapado pelo descuido nas instâncias de representação da religiosidade alheia. Extraído o problema, temos um filme que pavimenta mais um trecho da extensa e vindoura estrada do horror como esquema de produção instigante no cinema brasileiro.

A Gruta — Brasil, 2020
Direção: Arthur Vinciprova
Roteiro: Arthur Vinciprova
Elenco: Carolina Ferraz, Arthur Vinciprova, Nayara Justino, Fábio Soares, Monica Izidorio, Luciene Martes, Pietro Mário
Duração: 99 min.

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