Crítica | A Guerra dos Monstros (Godzilla vs. Astro-Monster)

PLANO CRITICO GODZILLA ASTRO MONSTER PLANO CRITICO Invasion of Astro-Monster (1965)

Filme

Dancinha da Vitória de Godzilla

Estava na cara que o Universo de Godzilla iria ganhar contornos de exploração espacial. E todo o contexto histórico da época justificava isso. A Guerra dos Monstros, lançado em 1965, praticamente no meio da Corrida Espacial, reflete bem as ambições de conquista do espaço então em pauta. Depois da inserção definitiva de um elemento civilizatório fora da Terra, no longa Ghidrah, O Monstro Tricéfalo (1964), era só uma questão de tempo até que a temática ganhasse protagonismo em um roteiro dos filmes de Godzilla. E isso veio logo na produção seguinte da Toho (em parceria com a UPA), uma nova reunião de forças monstruosas, tendo, além do lagartão atômico, o pteranodonte Rodan e o dragão espacial de três cabeças com voz de sino de cartoon slapstick, Ghidorah.

A história se passa no ano 196X (espertinho, esse Shin’ichi Sekizawa, não? Percebem a dualidade de interpretação para esse ano?) e envolve a descoberta do Planeta X, um até então desconhecido corpo celeste atrás de Júpiter — seja lá o que isso quer dizer. A bordo da nave P-1, os astronautas Glenn Amer (Nick Adams) e K. Fuji (Akira Takarada) são responsáveis por descer no planeta e explorar. Já neste ponto, o roteiro nos obriga a abandonar toda e qualquer noção mais rigorosa sobre o tema e só aceitar as questões “científicas” ligadas a este Universo, o que não é difícil, porque a despeito da barra forçada até o limite, o ritmo de como as coias se apresentam aqui é inicialmente aceitável. Pena que com o passar do tempo, o roteiro tenha desembestado a cobrar suspensão da descrença em doses cavalares e de maneira extremamente rápida, o que certamente não fez bem ao filme.

Muito mais do que em qualquer outra produção kaiju até aquele momento, A Guerra dos Monstros tem uma direção de arte bastante apurada, dando um suporte notável para o povo Xilien com sua bela manipulação de tecnologia através do controle de luz (truques fotográficos simples, mas com um efeito visual muito bacana), seu simpático design para as naves (a cena em que eles saem do lago e pousam o disco-voador na margem é visualmente excelente) e sua concepção para os ambientes interiores. Ainda vale destacar a própria superfície do Planeta X, que poderia ser o cenário principal de todo o filme.

E é aí que chegamos ao ponto fraco da narrativa, que repete, mesmo que em menor quantidade, os erros de Ghidrah, O Monstro Tricéfalo: muita divisão dramática e desvios de atenção para linhas descartáveis, quando o texto poderia se ater ao básico e chegar a um resultado muito melhor. Pelo menos nesta produção de 1965 há uma lógica política fixa, mas o roteirista parece não ter se contentado com ela, adicionando dois núcleos de história de amor e um outro de humanização dos monstros, ponto que merece melhor detalhamento, por ser notadamente paradoxal.

Quando concebido, em 1954, Godzilla era um monstro vilão. Essa percepção sobre ele continuou em Godzilla Ataca Novamente (1955); foi copiada pelos americanos em Godzilla, O Monstro do Mar (1956) e se manteve firme nas duas batalhas seguintes do lagartão no cinema, a primeira em King Kong vs. Godzilla (1962) e a segunda em Mothra vs. Godzilla (1964). Foi só com a aparição de Ghidorah que ele (e por tabela, Rodan e Mothra) passou a ser visto de forma diferente, tornando-se, em pouco tempo, um monstro-anti-herói de estimação dos japoneses. Neste Godzilla vs. Astro-Monster, o roteiro pega tal concepção e a coloca no mais alto pedestal possível, humanizando imensamente o lagartão (e aqui, seu parça Rodan), gerando a GLORIOSA DANCINHA DA VITÓRIA e uma fala literal de um dos astronautas de que Godzilla e Rodan estariam decepcionados com eles, por deixarem-nos no Planeta X. Eu disse que a coisa era paradoxal porque ao mesmo tempo que é ridícula, funciona sob medida para uma mudança de concepção sobre esses bichos, e convenhamos, Godzilla é um baita personagem interessante, não tem como não vibrar em vê-lo como um tipo de defensor dos humanos, mesmo que um incontrolável e destruidor.

Se não fosse a resolução paupérrima para a camada amorosa e as birras desnecessária no núcleo dos humanos, a obra certamente ficaria acima da média. A luta final em dois segmentos também não entra para a lista de boas ideias do texto — e a briga entre os monstros termina absolutamente aleatória –, mas o bloco dos humanos versus o povo do Planeta X funciona melhor. O que fica desse filme, para sempre, é a inigualável comemoração de Godzilla ao derrotar, juntamente com Rodan, o cabeçudo Ghidorah. A partir de hoje, acrescento à minha galeria de passinhos de dança essa pérola do balé atômico da Toho.

Plano Crítico Dancing Godzilla

A Guerra dos Monstros / Godzilla vs. Astro-Monster (Kaijû daisensô) — Japão, 1965
Direção: Ishirô Honda
Roteiro: Shin’ichi Sekizawa
Elenco: Nick Adams, Akira Takarada, Jun Tazaki, Akira Kubo, Kumi Mizuno, Keiko Sawai, Yoshio Tsuchiya, Takamaru Sasaki, Gen Shimizu, Kenzô Tabu, Yoshifumi Tajima, Nadao Kirino, Kôji Uno, Tôru Ibuki, Kazuo Suzuki, Haruo Nakajima
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.