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Crítica | A Guerra dos Samurais – 1ª Temporada

por Ritter Fan
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Não me decidi ainda se eu gosto de documentários que fazem de tudo para se parecerem com obras de ficção, com um elevado número de recriações de ambientes, personagens e situações. A natureza híbrida dessas obras funciona para ilustrar o que está sendo abordado, claro, mas muitas vezes essas sequências ilustrativas acabam detraindo da profundidade e da qualidade das informações ofertadas. Dito isso, vale dizer que A Guerra dos Samurais, série documental distribuída pelo Netflix que tem justamente essa característica, preza muito pela qualidade cinematográfica das sequências de reconstrução de época, sem dúvida um ponto positivo para a obra conduzida por Simon George e Matthew Booi.

Seja como for, é importante que o espectador saiba que, diferente do que o uso marketeiro da palavra “samurai” no título pareça indicar, a série documental não é sobre esses célebres guerreiros japoneses. Não aprendemos nada sequer sobre a origem do termo e sua evolução, mas sim que, basicamente, a grande maioria dos personagens que são apresentados ao longo da narrativa são samurais e ponto final. A Guerra dos Samurais, na verdade, tem uma e apenas uma preocupação: contar a história da reunificação do Japão, um importantíssimo período na história nipônica. Mais precisamente, a série vai de 1551 a 1615, no final da chamada Era Sengoku (1467 a 1615), marcada por uma interminável guerra civil que despedaçou o país.

Apesar de vistosa, com sequências de ação em câmera lenta que parecem reproduzir com muito rigor alguns dos eventos mais importantes, o conteúdo da série é básico, do tipo que parece ter como função atiçar a curiosidade do espectador que deveria, ato contínuo, fazer suas próprias pesquisas. Um exemplo claro disso é a quantidade de vezes em que a guerra civil é mencionada, sem que sequer uma vez um dos entrevistados, a maioria historiadores ocidentais (o que, por sinal, é outro problema), se digne a abordar o porquê da fragmentação do país. Se a chegada disruptiva do arcabuz europeu em 1543 ganha um mínimo de comentário, a presença europeia no Japão não tem vez, assim como o crucial fim da relação de subserviência do Japão em relação à China em 1549, o que é informação essencial para a contextualização dos eventos mais ao final da série.

Apesar de lidar com uma boa quantidade de personagens, o roteiro pelo menos tem o cuidado de manter o foco em Oda Nobunaga (Masayoshi Haneda), cuja improvável ascensão marca o início do processo de reunificação do país, Toyotomi Hideyoshi (Masami Kosaka), samurai de baixa patente fiel a Nobunaga e, finalmente, Ieyasu Tokugawa (Hayate Masao), general de Nobunaga, conhecidos como os Três Unificadores. Tudo gira ao redor deles, ainda que apenas Nobunaga tenha seu crescimento e motivações abordados com detalhes, com os outros dois quase que “surgindo do nada”. Esse, aliás, é um dos problemas desses documentários híbridos, pois, ao tentarem dramatizar a narrativa, acabam pecando por não seguir certos padrões exigidos pelas obras de ficção para que personagens e situações sejam desenvolvidos de maneira lógica.

E é também uma pena que as reconstruções de batalhas ocupem o espaço que poderia ser dedicado a maiores detalhes sobre subtramas com enorme potencial narrativo como, por exemplo, os ninjas de Iga que lutam no estilo de guerra de guerrilha contra o avanço de Nobunaga, a invasão da Coréia empreendida por Hideyoshi ou até mesmo a emblemática batalha de Sekigahara, considerada o marco inicial da Era Tokugawa, a última era de xogunato no Japão. O material é rico e amplo, claro, e dificilmente seria abordado a contento em apenas seis episódios, mas havia espaço para mais se as cenas de batalha que, convenhamos, se repetem muito, com a Lei dos Retornos Decrescentes sendo perfeitamente aplicável, fossem substituídas por mais informação crua.

Não sei se haverá uma segunda temporada para essa série, mas ela seria bem-vinda, já que talvez os samurais como hoje mais os conhecemos, como guerreiros que prezam a filosofia, a honra e as técnicas do Caminho da Espada, nasceram de verdade a partir do final da batalhada de Sekigahara (a romantização da vida de Miyamoto Musashi, por Eiji Yoshikawa, famosamente começa justamente deste ponto). Mesmo não sendo mais do que um resumo histórico apressado mais preocupado em mostrar do que explicar e contextualizar, A Guerra dos Samurais, mesmo com sua estranha natureza híbrida, cumpre sua tarefa de abrir o apetite do espectador para saber mais sobre esse interessantíssimo período da História do Japão.

A Guerra dos Samurais (Age of Samurai: Battle for Japan – EUA, 24 de fevereiro de 2021)
Showrunners: Simon George, Matthew Booi
Direção: Stephen Scott
Roteiro: Simon George
Com: Hiro Kanagawa (narrador), Stephen Turnbull, David Spafford, Tomoko Kitagawa, Michael Wert (entrevistados e narradores)
Elenco: Masayoshi Haneda, Masami Kosaka, Hayate Masao, Hideaki Itô, Wilfred Lee, Umi Bielmann, Seiji Hino, Elina Miyake Jackson, Ryota Kaneko, Chika Kitney, Simon Fletcher Li, Timothy Mak, Kelly Seo, Frank Yim
Duração: 256 min. (seis episódios)

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