O título deste episódio final de A Guerra Entre a Terra e o Mar promete muito, não é mesmo? Afinal, não temos apenas o imaginário e a experiência (na maioria de nós, distanciada, ainda bem) de como uma guerra pode terminar, mas temos milhares de exemplos nas artes, onde isso já aconteceu. Posta a questão, não é como se não tivéssemos bons exemplos de roteiros e não é como se não soubéssemos que tipos de implicações, construção de personagens e relações são coerentemente aceitáveis em tal contexto. E é então que se destaca a mediocridade do texto de Pete McTighe aqui em The End of the War. No episódio, o roteirista não apenas prova que o romance que ele e a produção levaram adiante foi um erro crasso, mas que havia uma história tão boa e tão poderosa que foi pisoteada pela imbecilidade açucarada de querer colocar Barclay de beijinhos e paixonitezinha com Salt. E, além disso, há a metamorfose, que a gente já tinha visto há milhares de quilômetros, mas que aparece na história de maneira abrupta, mal filmada e pessimamente contextualizada.
O que eu gosto (e muito!) desse capítulo é que ele conseguiu dar espaço para a única coisa que faz sentido em seus 50 minutos de duração: o vírus e todas as ações que, factualmente, compõem a guerra titular. Tanto do lado dos humanos quanto do lado do Homo Aqua, a coisa esteve prestes a explodir, e ao menos nesse quesito, encontramos razão de existir em The End of the War. As provocações dos Sea Devils com os cachorros e com o derretimento das geleiras foram absolutamente maravilhosas. Já a ação dos humanos, com o vírus, teve um impacto muito maior e teria sido tão fenomenal quanto a dos seus inimigos oceânicos (novamente, do ponto de vista do conflito, pelo lado do drama) se não fosse a lentidão e o atropelo de elementos que a edição acabou cometendo, e tudo culpa do quê, mesmo? Ah, sim, de um romancezinho sem pé nem cabeça que acabou ganhando uma quantidade enorme de cenas para absolutamente NADA, no contexto da série, e que impediram que ela fosse aquilo que prometeu ser, de verdade: uma guerra entre a terra e o mar.
As cenas de revelação dos corpos dos Homo Aqua foram chocantes, e a raiva contra a humanidade cresceu no espectador, mesmo que analisemos a coisa da maneira mais fria possível, imaginando a ação como uma defesa diante da possível mortandade que se abateria sobre os Homo Sapiens (bem… se o tal “acordo” entre as espécies não tivesse sido proposto). Ocorre que, para um evento tão importante e para consequências tão poderosas, menos da metade de um episódio não foi o bastante, e até o mais apaixonado pelas bobagens desse episódio conseguiria apontar isso. Novamente, cai sobre a produção, a direção e a montagem do programa a culpa por ter concebido uma minissérie que fala de guerra entre espécies partindo de um princípio romântico, avançando para uma metamorfose que acontece de última hora, numa edição lenta, acompanhada por um cover ruim de um clássico de David Bowie e que, mesmo tendo sido aludida e claramente percebida pelo público, precisava de um componente imagético claro para existir.
Coisas simples como a fantástica (e curta) cena de Kate e Shirley conversando, logo depois de tudo “terminar”, ou mesmo o tom de pesar e de vitória amarga que vem junto da última aparição de Salt colocam o episódio em patamares melhores. Mas aí temos a morte vazia e anticlimática dos responsáveis pelo vírus; a não-contextualização de severance e a linha narrativa sem vigor algum que se segue ao fim da guerra e que faz despencar a qualidade do projeto… sem contar aquela vergonhosa cena final, que na cabeça de alguém (quem será?) claramente foi concebida como “cômica“, mas só serviu pra mostrar Kate como o quê, mesmo, hein, gente? Hein? Hein? Pois é… E, novamente, preciso dizer: não me espanta nada a série terminar assim, dado o contexto de produção. O fato é que Doctor Who merecia um spin-off melhor. Graças a Deus, isso aqui foi um experimento curto. Mais um episódio, e teriam colocado Kate mandando matar crianças por jogarem canudos de Toddyinho na praia, continuando a ignorar as grandes corporações e empreendimentos bilionários que, de fato, transformam os oceanos em esgotos. Ou inúmeras cenas do acasalamento de Barclay e Salt (a gente já entendeu: Russell Tovey é um gostoso, mas tudo tem limites, né?) e os filhos nascidos dessa interação de espécies. Pelo andar da carruagem, não duvidaria de nada.
A Guerra Entre a Terra e o Mar (The War Between the Land and the Sea) – 1X05: The End of the War — Reino Unido, 21 de dezembro de 2025
Direção: Dylan Holmes Williams
Roteiro: Pete McTighe
Elenco: Russell Tovey, Gugu Mbatha-Raw, Jemma Redgrave, Gethin Alderman, Charles Sandford, Adrian Lukis, Samuel Oatley, Ruth Madeley, Alexander Devrient, Carolin Stoltz, Devesh Kishore, Catherine Garton, Eddie Elliott, George Robinson, Barbara Probst, Stewart Alexander, Vincent Franklin, Francesca Corney, Ann Akinjirin, Cat Gannon, Alexander Tol, Quanno Luo Masterson, Alys Metcalf, Lucy Vandi, Antonia Bernath, Adam Howden
Duração: 53 min.
