Crítica | A História da Humanidade Contada Pelos Vírus, de Stefan Cunha

As bactérias e vírus mais curiosos e desconhecidos já foram transformados em narrativas ficcionais ao longo da história da literatura, do cinema e de outras artes visuais, meio que permite a observação dos estragos e tragédias de um possível contágio por meio das apuradas técnicas de representação da indústria. Em A História da Humanidade Contada pelos Vírus, o especialista Stefan Cunha Ujvari narra por meio de uma escrita que mescla a crônica e a ciência em medidas equilibradas, num percurso repleto de dados, estatísticas e outras informações.

Publicado em 2008 pela Contexto, o livro traz em sua capa a devastadora pintura O Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel, imagem complexa e repleta de camadas interpretativas, tal como o livro, uma trilha que pede atenção na caminhada, tamanho o fluxo de informações que percorrem as suas 205 páginas, organizadas pela edição de capa e diagramação de Gustavo S. Vilas Boas. Dividido em seis capítulos e uma apresentação elucidativa, o leitor passeia por um panorama histórico que expõe como as civilizações, ao passo que avançaram e evoluíram, espalharam pelo mundo vírus, bactérias, parasitas e outros microrganismos.

Alegoricamente falando, podemos dizer que o livro retrata a “globalização” desses responsáveis pelas doenças mais temidas e assustadora da história da humanidade. No primeiro capítulo, “África: Estação de Origem”, o autor mapeia os vírus responsáveis pelo HPV e Herpes, expõe a presença do porco como um animal com ampla capacitação de contaminação, passeia pela história da tuberculose e radiografa a pouco conhecida história científica do HIV, vírus que ainda é tabu em discussões diversas na contemporaneidade e apesar de amplamente estudado em pesquisas sérias e divulgado em campanhas, atravessa o caudaloso mar do preconceito social. Detalhe: essa parte é um grifo meu, não está exposto pelo autor.

Em suma, o que o capítulo traz é que em muitos casos, guerras, pobreza, processos escabrosos de urbanização e a prostituição, bem como o uso de medicamentos e vacinas não descartáveis foram alguns dos membros coadjuvantes do processo de expansão dos vírus. Objetivo, Stefan Cunha diz que explica que todo vírus da natureza precisa de auxílio de outro ser vivo para se reproduzir, ao contrário das bactérias, detentoras do maquinário necessário para se reproduzir. Na ala da devastação oriunda de humanos, há um caso policial de um médico que contaminou a sua antiga namorada com uma seringa contaminada para infectar e vingar-se da moça. O horror!

Em “Pegadas Microscópicas na Migração Humana”, o médico traça um perfil dos infames piolhos na história da humanidade, dando também ênfase ao desenvolvimento das hepatites nas diversas sociedades. Como dito anteriormente, as guerras promoveram muitos contatos entre povos distintos, o que culminou na troca de microrganismos. Napoleão, por exemplo, ao invadir a Rússia, sequer imaginava que as estratégias de combate dos russos estavam tão bem planejada que o seu exército passou por dificuldades gigantescas, dentre elas, a falta de alimentação e as doenças, espalhadas como um rizoma nefasto.

O piolho, segundo a sua abordagem, é um companheiro nosso há eras. Responsável por diversas epidemias, dentre elas, o tifo. Na Inglaterra do passado, por exemplo, os prisioneiros que adentravam os recintos da corte em época de julgamento, infestados de piolhos, transmitiam seus “pequenos monstrinhos” para os presentes, o que incluía a plateia de curiosos que levava para casa o invasor que se espalhava de maneira devastadora. O calor do couro cabeludo é o lugar ideal para que tais microrganismos se espalhem e consigam se manter coesos.

Ao longo do terceiro capítulo, “Chegada à América”, outros microrganismos são estudados, tendo destaque a história da sífilis, doença que ocupou o lugar do vírus HIV na época de seu maior surto, comparativamente falando. O contato entre europeus e nativos criou uma fusão de vírus, bactérias e outros responsáveis por doenças perigosas e sofríveis ao longo da nossa complexa história. Qual teria sido a origem da sífilis? Será uma doença com traços dos habitantes da América, algo predecessor ao advento da colonização. Alguns consideram que a doença já existia na Europa, mas há fortes indícios de uma variação da mesma, não no formato que conhecemos.

O que fica de lição aqui também é o contato dos nativos e embarcações europeias na época das Grandes Navegações. Os “conquistadores” tinham contato com animais, terra, comida e usavam as índias para relação sexual, para logo depois, voltar ao continente europeu e se relacionar com prostitutas, espalhando o resultado destas fusões. O impacto das feridas e o aspecto grotesco da sífilis a tornou uma doença para se envergonhar, considerada “fruto do pecado”. O absurdo? Muitos negros da região sul dos Estados Unidos foram impedidos de ter o tratamento adequado devido aos projetos eugênicos hediondos, chancelados por órgãos públicos e pessoas de importância financeira na sociedade desde sempre supremacista estadunidense.

Mais adiante, o autor adentra na análise da Peste de Atenas, uma das manifestações de microrganismos descritas no quarto capítulo, “Nasce a Agricultura: O Perigo Mora do Lado”, o autor alega que muitos estudiosos acreditam que a escassez de alimentos e animais promoveu a busca por fontes alternativas de alimentos. Curioso observar que o autor aponta as formigas, besouros e cupins como seres da natureza idealizadores da agricultura, não o homem, como se imagina por ai. A pira funerária na Grécia Antiga, aberta aos céus e disseminadora de uma fumaça tóxica, juntamente com os agrupamentos e contatos entre invasores fez a salmonela se espalhar vertiginosamente.

Em “Domesticação dos Animais: Os Vírus Fazem a Festa”, Stefan Cunha retrata o processo de ascensão, descoberta e busca por conhecimento em torno do sarampo, da varíola e da gripe, manifestações contagiosas que conhecemos bem aqui no Brasil. Nosso contato com os animais, no processo de domesticação, permitiu a inserção de alguns agentes microrgânicos desses seres adentrarem o organismo humano. A varíola foi motivo de preocupação por eras, sendo combatida depois de fortes campanhas. O sarampo, apesar de alguns casos aqui e acolá, passa por um processo de vacinação que permite o seu controle, tal como a infame gripe, tão devastadora quanto comum na vida cotidiana, tratada às vezes como um problema passageiro por muitos, quando na verdade não é. Como não lembrar da Gripe Espanhola, de 1918?

No desfecho, o livro traz uma análise do que o autor chama de avanço oculto do ebola, a persistência da tuberculose e o problema da dengue, mal que acomete o mundo do Oriente ao Ocidente.  Stefan Cunha, médico infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, cumpriu bem a sua missão de elucidar muitas manifestações de contágio que estão bem próximas de nossa realidade, às vezes dentro de nosso círculo de contatos. Com Mestrado em Doenças Infecciosas e Especialização em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo, o escritor é agente do discurso e da prática, tendo na lista de suas experiências, o cargo de professor do componente curricular Emergência Médica, na mesma universidade que desenvolveu os seus estudos.

Com algumas imagens com missão de situar o leitor no que tange aos elementos geográficos comentados, melhor compreendidos quando visualizados, juntamente com as descrições verbais, o livro A História da Humanidade Contada Pelos Vírus é a comprovação da importância do conhecimento científico em produção constante, bem como a sua saída dos castelos e feudos acadêmicos para o acesso das pessoas de outras áreas, tamanha a importância e relevância temática.

A História da Humanidade Contada Pelos Vírus (Brasil, 2008)
Autor: Stefan Cunha Ujvari
Editora: Contexto
Páginas: 205

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.