Crítica | A História Deve Ser Dividida em Pedaços?, de Jacques Le Goff

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Escrito em 2013, este que acabou sendo o último livro do grande historiador francês Jacques Le Goff — uma das maiores autoridades do mundo em Idade Média –, A História Deve Ser Dividida em Pedaços? (2014) é uma rápida e rica reflexão sobre os períodos da História Ocidental, no centro da qual está a Idade Média. Por razões de diálogo de disciplina com vocês, optarei por ampliar a exposição promovida pelo livro, problematizando e explicando a periodização da História em nossos dias, tornando a temática mais fácil de ser compreendida e dando a oportunidade de puxar mais elementos do livro, pensando, por fim, nas questões fora da Idade Média.

Para começar, usarei o mesmo caminho do autor no capítulo de abertura da obra, Antigas Periodizações. Mesmo sabendo que escreve para iniciados, Le Goff não se deixa levar de cara para a tese dura. Sua contextualização para o que leva em conta como periodização, neste ensaio, não é exatamente novidade para os historiadores que conhecem a sua obra. Aqui, porém, essas ideias são fundamentadas em sua verdadeira origem, partindo do primeiro modelo de periodização de que temos conhecimento (o do profeta Daniel, no Antigo Testamento bíblico) chegando até às abordagens econômicas e de reconfigurações do capitalismo + modelos de vida nos anos 2010, como vemos no capítulo que encerra a obra, Periodização e Mundialização. Ao longo dessa jornada, fica no ar a problemática do que é, do que por quê fazer ou de como entender e ler as periodizações da História. Na sequência, farei uma pausa para discutir algumas questões teóricas com vocês.

Temporalidade Para Iniciantes

É muito provável que todos os que estão lendo essa crítica já falaram (ou pelo menos já ouviram falar) as seguintes expressões: “no meu tempo/na minha época“; “se isso fosse na época dos meus avós“; “antes [etc. etc.] era muito melhor!“; “nos tempos de hoje“, etc… Essas são algumas expressões comuns que usamos para definir tempos históricos à nossa volta. A ideia de temporalidade faz parte da nossa percepção do tempo e sempre vem à tona toda vez que queremos comparar algo entre o passado e o presente; ou projetar coisas/consequências do presente para o futuro, seja de nossa vida, seja da vida social e política de nosso país ou do mundo. Nesses casos, é muito comum o uso de termos políticos — alguns questionados ou passando por revisionismos, como é próprio da História — para recortar, analisar ou comparar uma situação e tempo específicos. Usando exemplos nossos para facilitar: República do Café com Leite / Estado Novo / ditadura / governo FHC / lulismo / bolsonarismo. Notem que essas são temporalidades curtas, que duram apenas algumas décadas ou alguns poucos anos, mas em História, os pedaços de tempo aos quais adicionamos alguma tag são todos chamados de períodos ou, em alguns casos pomposos, Era. Por conveniência (guarde essa palavra!), os períodos mais longos, que envolvem alguns séculos, acabam sendo nomeados Idade.

No presente livro de Le Goff, vemos a problematização desse conceito de temporalidade partindo das motivações que fazem um estudioso X propor uma linha divisória na História; e chegando à reinterpretação de quanto dura um período ou uma Idade, assim como seu nome e sua real importância (ou não) para um povo. No Ocidente, por influência europeia (mais precisamente, francesa, após o século XVIII) convencionou-se dividir o estudo da História assim: Pré-HistóriaIdade Antiga (Antiguidade); Idade Média; Idade Moderna e Idade Contemporânea. Cada uma dessas idades, como já vimos, pode ser dividia em diversos períodos, dependendo do que se quer estudar. O que talvez muita gente não saiba é que os fatos normalmente utilizados para dar início e fim a essas Idades não são unânimes em Teoria da História, e existem linhas de pensamento que estendem a duração muito além do que normalmente as pessoas estão acostumadas. Esse tipo de pensamento, base central do presente livro, é chamado de longa duração.

Vamos utilizar o foco central do estudo de Le Goff para exemplificar isso. Segundo simples visão convencional, a Idade Média se inicia em 476, com a deposição de Rômulo Augusto, último Imperador romano do Ocidente. Já o seu fim é comumente (notem que eu não escrevi “unicamente“) colocado entre duas datas: a conquista de Constantinopla pelos turcos (1453) ou a chegada de Colombo às “Índias” (América), em 1492. Todavia, segundo a longa duração defendida por Le Goff, a Idade Média dura, de fato, até meados do século XVIII, quando começam as grandiosas movimentações tecnológicas e sociais que, em uma década, daria início à 1ª Revolução Industrial (c.1760). Em essência, o autor olha para a matéria-prima da História e discute se esse tipo de divisão realmente serve para alguma coisa; se os historiadores devem/precisam fazer isso, ou se essas divisões servem apenas para engrandecimento ou diminuição de determinados períodos, ideologias, governantes ou personalidades de uma época.

Com a estrutura para argumentação, o cuidado de Le Goff é impressionante. Talvez até possa ser classificado como “preciosismo” por um leitor que quer explicações rápidas. De maneira objetiva, mas bem fundamentada, vemos a investigação do por quê, para começo de conversa, a periodização começou a ser algo utilizado para analisar os tempos. Isso vai do Antigo Testamento da Bíblia, passa por Santo Agostinho, por Petrarca, pelos Iluministas e “termina” nas cátedras francesas do século XVIII para frente, onde o conceito seria revisado e incorporado por Universidades em toda a Europa. Outro ponto destacado pelo autor é que sua visão corresponde essencialmente à divisão da temporalidade histórica do Ocidente, para poder analisar melhor um dos grandes conflitos da divisão da História: a Idade Média versus o superestimado Renascimento. [Nota: “superestimado” se considerarmos a forma como ele é comumente alardeado: sendo um único período glorioso, luminoso e decisivo para “quebrar os grilhões da Idade das Trevas“).

Nos capítulos Aparecimento Tardio da Idade MédiaHistória, Ensino, Períodos (um dos mais instigantes pontos do livro, onde há uma breve genealogia do começo do ensino de História na Europa e as escolas de abordagem que esse ensino criou) e Nascimento do Renascimento vemos o autor montar um quebra-cabeça de justificativas sobre as mudanças e permanências na linha do tempo europeia, abrindo caminhos para que o leitor discuta a escolha subjetiva de nomes e momentos históricos ditos importantes (ou convenientemente escondidos) e também saiba entender as obviedades de certas nomenclaturas. Na mesma linha, é discutido se devemos ou não dar peso a este ou aquele argumento em uma análise histórica, colocando delírios interpretativos de um lado e realidade histórica do outro — o que não significa que neste segundo grupo haverá unanimidade ou ausência de propostas de revisão. Como eu disse antes, reescrever períodos ou percepção dos fatos — seja para o bem, seja para o mal — é parte natural da História.

Nos capítulos finais, O Renascimento AtualmenteA Idade Média se Torna “Os Tempos Obscuros” e o encerramento, com Uma Longa Idade Média, temos uma exploração de visões contemporâneas e revisionistas do que foi o Renascimento e de que formas a Idade Média foi benéfica ou maléfica para o mundo. Amparado por uma forte base bibliográfica, Le Goff encerra o seu ensaio falando o quanto a periodização da História nos ajuda a compreender, explorar e olhar para a trajetória humana de diversas maneiras, fazendo recortes de distintos tamanhos e alimentando os novos tempos com as suas “verdades momentâneas“. Existem algumas notas críticas do autor quanto a isso também, algo que o leva a pedir que os estudiosos não confundam os conceitos básicos que os permitam mapear e propor divisões e releituras da História, despencando para o uso de termos viciados ou elevação de importância para coisas que sequer chegaram a se engatar como fato, quem dirá como algo realmente importante para marcar um período. O mesmo vale, obviamente, para a diminuição ou esquecimento da importância de outras coisas, cabendo aí o papel dos livros de História (didáticos e acadêmicos), da mídia, dos comentaristas e professores e do próprio povo em sua oralidade e memória.

Da mesma forma, entra a importância da análise dos eventos. Só a partir daí é lícito [re] definir um período e, como consequência, entender melhor o momento presente. Por fim, vem a entrelinha crítica e espirituosa muito propícia aos nossos dias. A História não trabalha com adivinhações ou possibilidades proféticas. A disciplina não é parte do Universo de Minority Report, onde algo que nunca aconteceu serve para a tomada de um ato, criação de teorias ou punição no presente. O campo das possibilidades, do futuro hipotético, “do que aconteceria se…” é matéria da ficção científica. Para a História, a realidade do passado e do presente já são o bastante. Recortá-la é essencial. Dessa maneira, focamos num ponto, identificamos os seus braços e ampliamos o nosso olhar, enxergando o tempo em que a gente vive de maneira mais limpa e, segundo nosso o julgamento, agindo sobre ele. Por um breve momento tomamos posse das perdidas chaves da compreensão do mundo. Isso, pelo menos, até o “Dia 2“, quando uma nova temporalidade surge no horizonte e outra discussão sobre os “novos tempos” começa…

A História Deve Ser Dividida Em Pedaços? (Faut-il vraiment découper l’histoire en tranches?)
Editora original: Editions Seuil, França, 2014
Autor: Jacques Le Goff
No Brasil: Editora UNESP, 2014/2015
Tradução: Nícia Adan Bonatti
150 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.