Crítica | A História Oficial

De todos os filmes produzidos na América do Sul acerca de nossas ditaduras militares, certamente nenhum supera o poder de denúncia do argentino A História Oficial. Primeiro longa-metragem do país a vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o filme do diretor Luis Puenzo foi lançado já nos últimos suspiros da ditadura argentina. Mas que não haja enganos – mesmo encontrando um momento em que a censura começava a relaxar e o país inteiro a tomar consciência da insustentabilidade do regime, a obra foi audaciosa o suficiente para atacar pontos nevrálgicos da engrenagem que o sustentava. A História Oficial comprou brigas políticas em diversos âmbitos, o que incluiu, é claro, a própria Igreja Católica, que aparece no filme representada por um padre condescendente com as violações praticadas durante os anos mais duros da ditadura. Esse é um ponto bastante caro a diversos filmes que retratam regimes opressivos ao longo da história. Costa-Gavras não me deixa mentir com seu competente Amém.

A história, que acompanha uma professora que tenta descobrir a origem de sua filha adotada em meio ao espocar das manifestações das mães na Plaza de Mayo, é constituída de uma série de acertos a serem ovacionados. Em primeiro lugar, é preciso destacar o brilhantismo da atuação de Norma Aleandro, que dá vida a Alícia – a mãe e professora alienada, que vai gradativamente despertando para a realidade brutal de seus dias. A atriz dá a veracidade necessária ao caminho que sua personagem faz da alienação e do comodismo até o engajamento. A própria relação que estabelece com a filha Gaby muda ao longo da projeção e e isso é bastante significativo. Se, no começo, temos uma figura materna padrão – a típica boa mãe de família –, com o avanço da narrativa, Alícia vai se assemelhando muito mais a uma daquelas mães da Plaza de Mayo ao comungar de seu sofrimento público. Há que se observar como as duas cenas em que elas aparecem transformam a protagonista e como a atriz manifesta isso com seu olhar.

Outro acerto comovente de A História Oficial é o de partir de um roteiro generoso com a juventude de seu país. Acusados muitas vezes de serem apenas massa de manobra nas mãos de seus professores, o filme de Puenzo lhes dá um tratamento bem mais respeitoso. A rebeldia surge entre os alunos na classe de Alícia e são eles que tomam consciência do momento político que viviam, muito antes da própria professora. O longa-metragem desfaz o engano de que a hierarquia dentro de uma sala de aula é irredutível e de que jovens jamais manifestam a sua própria opinião sobre algum assunto. Os estudantes enfileirados no pátio da escola, que surgem na primeira cena cantando um hino cívico em perfeita ordem, são os mesmos que gracejam na sala de aula e confrontam sua professora nas cenas posteriores. A juventude não é peça meramente anódina dentro do processo de ensino e da própria formação de um país. É o que nos diz claramente A História Oficial e essa é, sem dúvidas, uma de suas lições mais valiosas.

A direção de Luis Puenzo também tem seus momentos de brilho. É bastante afetuosa na cenas entre mãe e filha. Alícia valoriza e compreende melhor sua posição materna ao travar contato com a dor das mães que reclamam o paradeiro de seus filhos. Na cena final, em outro momento fascinante e que se passa com Roberto dentro do apartamento, o diretor fecha seu enquadramento no rosto do marido assolado por seu erro e derrotado por sua culpa. Um primeiríssimo plano longo do suficiente para delatar a devastação que caía sobre ele. O cineasta argentino entrega momentos de verdadeira inspiração ao longo de todo o filme. A única exceção é sua escolha incompreensível por enquadramentos excessivamente fechados nas cenas entre Alícia e Ana, sua amiga que fora torturada e exilada. O diretor sugere um romance lésbico pregresso? Ou apenas tenta revelar a cumplicidade na relação das amigas face à duríssima revelação de Ana? Aqui o problema não é a ambiguidade da direção, mas o fato de que ela nada acrescenta ao filme em si.

No todo, A História Oficial é um filme belíssimo e altamente eloquente em sua abordagem. Não faz somente panfleto. Aprofunda-se em questões essenciais que circundam o tema das ditaduras latino-americanas. Ao optar por não mostrar na tela nenhuma cena de tortura propriamente dita, ele se permite destrinchar alguns dos mecanismos mais virulentos na formação e na manutenção de um regime ditatorial (e que nada tem a ver com choques elétricos ou espancamentos, afinal, essa é só a ponta do iceberg). Acho que nada atesta melhor o poder desse filme do que isso – ser uma obra sobre perseguição ideológica que nem precisa mostrar cenas de flagelo físico de dissidentes políticos para se fazer compreender. Aqui prevalece a sutileza de um plano, de um olhar e de uma canção final, que tudo sintetiza e é cantada por Gaby – “No país do ‘não me lembro’, dou três passos e me perco”. Quarenta anos depois, as mães da Plaza de Mayo mantêm viva a memória de seus filhos e seguem à espera de suas verdadeiras histórias.

A História Oficial (La Historia Oficial) – Argentina, 1985
Direção: Luis Puenzo
Roteiro: Aída Bortnik, Luis Puenzo
Elenco: Norma Aleandro, Analía Castro, Héctor Alterio, Chunchuna Villafañe, Hugo Arana, Guillermo Battaglia, Chela Ruiz
Duração: 112 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.