Crítica | A Hora Da Sua Morte

A história dos filmes de terror nos apresenta uma série de portais malignos, caminhos aterrorizantes por onde alguns desavisados adentram e quase sempre nunca saem ilesos. Espelhos, poços, televisores, casas, porões e, mais recentemente, smartphones.  Como cinema também é a arte do contexto, o advento do avanço tecnológico em nossas sociedades não ficaria de fora das abordagens temáticas desta arte que reflete as ansiedades de suas respectivas gerações. Ciente do potencial de uma narrativa sobre o medo e o pavor oriundos da cibercultura, Justin Dec investiu algum tempo na concepção do roteiro que seria a sua estreia como cineasta, tendo resultado, A Hora Da Sua Morte, terror que nos oferta alguns bons momentos dramáticos, mas que se perde diante do excesso de subtramas e explicitude do monstro que carrega os personagens para o além, no horário e data marcada para a partida.

Quem define o agendamento é um aplicativo chamado Countdown. Depois que o individuo faz o download e confere a hora da sua morte com base no fornecimento de dados, a morte traça o seu planejamento, algo que pode ser para algumas horas após a solicitação de conferência ou uma data muito distante, preocupação futura e sem pressa. Para dar ritmo ao filme, é óbvio que a protagonista vai acessar como numa brincadeira, por curiosidade, e descobrir, assim, que a sua morte vai ocorrer dentro de poucos dias. Diante do exposto, os envolvidos correm contra o tempo e lutam para driblar a morte, mas por aparentemente não terem assistidos aos filmes da franquia Premonição, não sabem que a entidade é esperta e sagaz, sedenta por vidas e sem interesse algum em dar sossego para as pessoas que se acham geniais demais para dobrá-la.

O começo de A Hora Da Sua Morte é promissor ao escolher a referência ideal para estabelecer um clima metalinguístico. Uma personagem percorre uma rua deserta e nos faz lembrar Jamie Lee Curtis em Halloween: A Noite do Terror, de John Carpenter. A direção de fotografia assinada por Maxime Alexandre enquadra a moça da mesma maneira que o clássico, numa sensação de perseguição que não se pode enxergar, mas pode ser sentida. Angustiada, a jovem anda mais depressa para casa, tenta abrir a porta da frente, encontra dificuldade, tudo semelhante e com ponto de vista da entidade, algo semelhante aos momentos finais da referência em questão. Não temos Michael Myers, mas a morte, de qualquer maneira, está à espreita. Tal como a fórmula básica do terror, a primeira vítima se estabelece e saberemos que mais adiante, outras pessoas vão passar pelo mesmo sufoco, com as suas histórias mais (ou um pouco mais) desenvolvidas.

É quando entramos na trajetória da enfermeira Quinn (Elisabeth Lail). Ela conversa com um dos pacientes do hospital que trabalha e descobre que uma das coisas que deixa o rapaz angustiado é o tal aplicativo que de acordo com o papo, só oferece mais 19 horas para ele. Intrigada, apesar de cética, Quinn dialoga com os colegas de trabalho e todo mundo faz o download para entrar na moda e descobrir a suposta hora de falecimento. Alguns conseguem visualizar décadas, mas a moça descobre ter apenas mais três dias de vida. Quando acontecimentos estranhos começam a gravitar em torno de seu próximo dia, a enfermeira investe na contagem regressiva e busca alternativas para driblar o esquema do aplicativo e sobreviver. O problema é que ela já lida com monstros internos demais: o luto diante da morte da mãe, o assédio do Dr. Sullivan (Peter Facinelli), seu chefe de plantão, as pressões do ambiente profissional que apenas o favorecem e outros dilemas que atrapalham a sua luta contra as forças do mal.

Com premissa que nos remete ao embate entre uma pessoa desavisada e o esoterismo de uma maldição, semelhante ao que temos na já citada franquia Premonição, bem como em Arraste-Me Para O Inferno, A Morte Te Dá Parabéns, dentre outros, A Hora Da Sua Morte começa bem envolvente, mas depois faz uma mixagem pouco orgânica de coisas demais. As dispersões empregam as subtramas expostas anteriormente, gravitantes em torno da protagonista, juntamente com um padre caçador de demônios, a base do aplicativo em latim, a perseguição também conflitante da entidade que busca a sua irmã mais nova (Thalita Bateman), etc. Numa loja de celulares, Quinn tenta se livrar do aparelho, mas descobre logo depois que é uma alternativa ineficaz, pois nem assim a sua base de dados fornecida no ato do download é apagada, alegoria interessante da nossa relação atual com a cibercultura, algo que infelizmente fica apenas na superfície, a boiar com os destroços do que poderia ser um filme impressionante.

Na loja, a protagonista conhece Matt (Jordan Calloway), jovem que está na mesma situação que ela, pressionada por todos os lados. É óbvio que na ótica cinematográfica que busca ser agradável e confortável para o público, os dois vão se conhecer mais profundamente e engatar um namoro com prazo de validade próximo da expiração. É a entrada de um personagem que não acrescenta nada além de mais elementos para justificar o avanço da história de um curta para o formato longa-metragem. Ainda assim, não é só de coisas ineficazes que se faz a produção. Preciso ressaltar que o design de produção de Clayton Hartley é imersivo, bem trabalhado em prol da iluminação e dos movimentos da direção de fotografia. A trilha sonora assinada pela dupla formada por Danny Bensi e Saunder Jurrians não possui nada de muito especial, mas também não é nula.

Trata-se de uma composição muitas vezes abafada por conta do excesso de jumpscare, recurso sempre presente nas aparições da entidade maquiada pela equipe de Kevin Wasner e construída com apoio de Dan Levitan, supervisor dos abundantes, mas exagerados efeitos visuais. O tal monstro que representa fisicamente a morte nos remete ao eficaz demônio de Invocação do Mal 2. É só por alguns instantes, mas permite tal ilação. Ainda na seara sonora, importante ressaltar a sinalização da chegada de mensagens macabras do aplicativo, isto é, um berro que a todo instante serve de elemento para nos fazer tomar sustos, mesmo que não seja a hora adequada, afinal, tais dispersões atrapalham os poucos bons momentos de desenvolvimento dramático da história. Há a iniciativa de pavimentar questões da nossa realidade, tais como a nossa guarda às vezes muito aberta para o download de aplicativos que se inserem em nossas vidas de maneira muito intrusiva, por meio da inteligência artificial que os ergue, alimentada por dados que vão desde os nossos documentos mais básicos aos mínimos detalhes de nossas emoções e expressões comportamentais.

É uma era mágica, de facilidades que mudaram a nossa forma de agir no mundo, mas também é à beira do precipício, a entrada por uma zona habitada por pouquíssimas pessoas cautelosas. Prova disso são os episódios de Black Mirror, alguns muito eficientes ao empreender tais discussões. Ademais, em seus 90 minutos, A Hora Da Sua Morte não equilibra as doses narrativas que trafegam entre o interessante e o banal, postura do roteiro e da direção responsáveis por desequilibrar o filme e deixa-lo mais bobo e menos inteligente do que o argumento promete. É uma chance desperdiçada diante do cenário atual dos filmes de terror, abundantes, reflexo do entretenimento em simbiose com o nosso contexto histórico de incertezas e ansiedades. Há duas décadas, a internet, os aparelhos e as inovações em torno disso tudo disponibilizaram temas intrigantes para o campo do suspense e do terror, mas não é só de tema que um filme sobrevive. Se a história é interessante e magnética, o seu caminho narrativo também precisa ser, algo que a produção em questão tenta, mas não consegue. O desfecho, por sinal, deixa espaço para uma continuação, seguida de uma pergunta retórica por parte dos espectadores mais exigentes: será que há algo de relevante ainda a ser contado?

A Hora da Sua Morte (Countdown) — Estados Unidos, 2019
Direção: Justin Dec
Roteiro: Justin Dec
Elenco: Anne Winters, Austin Zajur, Charlie McDermott, Dillon Lane, Elizabeth Lail, Jeannie Elise Mai, John Bishop, Jordan Calloway, Lana McKissack, Lisa Linke, Mariano ‘Big Dawg’ Mendoza, Marisela Zumbado, P.J. Byrne, Peter Facinelli, Talitha Eliana Bateman, Tichina Arnold, Tom Segura, Willow Hale
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.