O fim da primeira temporada de A Hora Do Diabo alterou o status quo do ano de estreia, ao revelar os motivos do assassino Gideon (Peter Capaldi), tornando-o um anti-herói, e expondo a ligação sobrenatural entre ele e Lucy Chambers (Jessica Raine), cuja vida foi moldada por uma única ação desse homem. De fato, o conceito exposto no fim do primeiro ano, de que a vida é um looping que recomeça assim que morremos, e que por ser o único a lembrar desse looping, Gideon pode alterá-lo, reorganiza toda a nossa visão sobre o mundo do show. Essa sensação de reset do começo desse novo ciclo da série se reflete tanto na premiere, que apresenta a vida de Lucy antes da interferência de Gideon, sem a qual ela se torna uma detetive de polícia órfã, quanto pela nova abertura, onde vemos versões variantes de fotos de família, expondo que estamos em uma trama de multiverso.
Na trama, um ano se passou desde que Lucy e o filho Isaac (Benjamin Chivers) sobreviveram a um incêndio, na mesma noite em que Gideon Shepperd escapou da prisão. Lucy, entretanto, agora tem as memórias de sua vida em uma realidade alternativa como detetive de polícia, e tem ajudado Gideon a tentar identificar um terrorista misterioso, que em semanas, vai explodir uma loja de brinquedos em Londres, matando mais de quinze pessoas, a maioria crianças. Quando o caso Gideon é reaberto, e o relutante Inspetor Ravi Dhillon (Nikesh Patel) é chamado para ajudar na caça ao criminoso, Lucy se vê em um grande dilema, dividida entre a sua dívida com Gideon e a obsessão de uma vida anterior, e seus sentimentos por Ravi, por quem foi apaixonada tanto em sua vida anterior quanto nesta.
Com um episódio a menos que o ano anterior, este novo ciclo imprime uma sensação de urgência muito maior para a sua narrativa. Ainda que todo o primeiro episódio da temporada seja a típica trama de mundo paralelo, é ele que dá as bases emocionais para os arcos centrais da história e, portanto, o que torna essa urgência crível. Entretanto, ao adotar essa urgência ligando-a à mitologia do programa, a série perde um dos charmes do ano de estreia, que era articular dramas e horrores mundanos com os elementos de Thriller policial metafísico. Com as dificuldades que Lucy enfrenta com o filho e com a mãe (Barbara Marteen) sendo não só explicadas pelas ações de Gideon, mas com a série apresentando métodos de mitigar esses problemas de forma fantástica, as óbvias metáforas sobre questões como neurodivergência e senilidade enfraquecem, tornando a protagonista menos relacionável do que ela era.
Por outro lado, o novo ano tem um interesse maior em desenvolver a dinâmica dos protagonistas. Gideon, por exemplo, se torna uma figura paterna controversa dentro do núcleo da família de Lucy, com a série equilibrando bem essa humanização do personagem com o fato de ele ainda ser um homem perigoso que não pretende deixar que nada nem ninguém fique no caminho de seus objetivos. Da mesma forma, o show dedica muito tempo à relação entre Lucy e Ravi, dando ao romance ares míticos, por ser uma história de amor que atravessa realidades. Entretanto, a química entre eles não é tão bem desenvolvida, e pelo romance ser um dos principais pilares dramáticos da temporada, essa falta de química acaba tendo impacto considerável.
Apesar desse foco maior nos personagens, a própria trama central da temporada parece não atingir a força que almeja. Por um lado, eu gosto que a série não caia em grandes megalomanias, e que a tragédia que Gideon falha em evitar por várias vidas não é algum evento apocalíptico, mas algo mais localizado. Da mesma forma, gosto como a direção da série consegue criar uma mítica ameaçadora em torno do terrorista misterioso, retratado como uma figura misteriosa com o rosto oculto por um moletom com capuz amarelo, que surge tanto rondando a loja de brinquedo quanto em desenhos feitos por Gideon. Mas a investigação nunca parece realmente atrair o fator instigante que esse tipo de trama precisa, chegando a se tornar enfadonha em alguns momentos.
Apesar dos problemas de química, as atuações de A Hora Do Diabo continuam sendo um dos principais motivos para assistir à série. Tendo mais tempo de tela neste segundo ciclo, Capaldi concede mais humanidade a Gideon, mas nunca nos deixa esquecer que as obsessões desse homem podem torná-lo tão perigoso quanto as pessoas que caça. Nikesh Patel também entrega um desempenho muito interessante, ao viver um Inspetor Dhillon mais cabisbaixo, ainda lidando com os traumas da temporada anterior. Mas o destaque acaba indo mesmo para Jessica Raine, que consegue tornar as suas duas versões de Lucy distintas sem precisar apelar para maneirismos exagerados, mas ainda mantendo-as próximas o bastante para acreditarmos ser a mesma personagem, com apenas leves alterações de comportamento, como a postura mais rígida da Lucy detetive.
Infelizmente, não posso dizer que fiquei totalmente feliz com o desfecho da temporada. Não que o conflito central desse ciclo não seja resolvido, ou que não haja bons momentos, ainda que muitas perguntas sejam deixadas em aberto para a já anunciada terceira (e última) temporada da série. Entretanto, assim como ocorreu no primeiro ciclo, em termos emocionais, o desfecho dessa temporada soa menos como uma conclusão da história que acompanhamos por cinco episódios e mais como um prólogo do que está por vir. A Hora Do Diabo continua sendo um bom entretenimento, possuindo personagens carismáticos e uma atmosfera muito bem construída, mas essa segunda temporada não apenas repete problemas do ano de estreia, como perde aquela conexão com os dramas mais reais que tornavam a sua narrativa enigmática mais pungente. Agora é torcer para que a temporada final consiga corrigir o curso, para pelo menos em seu desfecho, entregar ao público a sensação de uma conclusão dramática.
A Hora Do Diabo – 2ª Temporada (The Devil’s Hour) Reino Unido, 2024
Direção: Johnny Allan, Shaun James Grant
Roteiros: Tom Moran
Elenco: Jessica Raine, Peter Capaldi, Nikesh Patel, Alex Ferns, Meera Syal, Barbara Marten, Benjamin Chivers, Saffron Hocking, Thomas Dominique, Rhiannon Harper-Rafferty
Duração: 5 Episódios entre 50 e 60 Minutos
